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id da página: 11450 Matgioi – Via Metafísica – As Formas do Universo

Matgioi Universo

As Formas do Universo

A Abordagem Cosmológica e a Crítica ao Pensamento Ocidental


  • A fim de esclarecer a natureza dos "Símbolos do Verbo", a tradição milenar se serve do tetragrama de Wenwang, que se apresenta como a chave para o fenomenismo universal, comumente denominado "a criação do mundo".
  • Distancia-se, de início, de certas convenções linguísticas que, ao nomear um fato (a criação), pressupõem-no como uma saída a partir do nada, o que gera uma série de dificuldades metafísicas e lógicas. Tal abordagem é vista como um sintoma do pensamento ocidental, que, por vezes, sacrifica a lógica em favor de apriorismos.
  • A tradição primordial, representada pelo tetragrama de Wenwang, não se preocupa com a realização material ou não de um evento, mas o situa fora do tempo e do espaço, mantendo-o no domínio da ideia pura e da lógica metafísica. Dessa forma, é possível conceber uma cosmogonia que não seja contaminada pelo antropomorfismo e pelo materialismo que, paradoxalmente, se instalaram no cerne das religiões modernas.

O Tetragrama de Wenwang: A Chave para o Fenomenismo Universal


  • O tetragrama, composto por quatro ideogramas, Uyan, Heng, Li e Tsheng, que significam Causa inicial, Liberdade, Bem e Perfeição, respectivamente, manifesta e acompanha o Universo desde sua gênese até seu pleno desenvolvimento. Esse arcano, que serve como fonte para todo o taoismo, resume a doutrina aplicável à humanidade e à totalidade da existência.
  • O Primeiro Termo: Uyan (Causa Inicial): Este ideograma representa o Grande Princípio de onde emana a virtude do céu e a onipotência, contendo em potencial a Vontade e a Força que dão início à atividade. A causa inicial é a primeira manifestação da Perfeição, a gênese de tudo, e, em um nível cosmológico, corresponde à constatação da possibilidade do Universo.
  • O Segundo Termo: Heng (Liberdade): A liberdade da ação do céu é expressa por este termo, representando o instante da vontade criadora que precede imediatamente a criação efetiva das formas. É um momento humanamente impalpável, necessário à lógica dos conceitos, onde os seres começam a entrar no fluxo das formas, mas ainda não se distinguem entre si. A água retida por uma eclusa que se abre, onde há um instante em que o obstáculo desaparece mas a água ainda não começou a fluir, serve como uma analogia grosseira para esse momento.
  • O Terceiro e Quarto Termos: Li e Tsheng (Bem e Perfeição): O terceiro termo, o Bem, representa a modificação que a forma traz aos seres. A criação, que estava em estado volitivo, é vertida para o fluxo das formas. O quarto termo, a Perfeição, é a vantagem que resulta dessa modificação. A "via", que compreende a modificação e a transformação, é a causa da harmonia extrema, na qual cada coisa se conforma à sua natureza e destino.

As Implicações para a Humanidade e a Natureza do Mal


  • O Conceito de Mal como uma Insuficiência: Da doutrina da Causa Inicial, que contém potencialmente todos os universos, deduz-se a impossibilidade metafísica da existência do mal como um princípio em si. O que se percebe como mal é, na verdade, uma insuficiência de percepção, uma incapacidade de ver a continuidade do Bem universal. A concepção do mal é uma "ilusão" criada pela atribuição, inconsciente, do caráter do absoluto ao relativo.
  • A Causa Inicial e a Solidariedade Humana: Aplicada à humanidade, a Causa Inicial é a "Ideia de Vida" (Gèn), um princípio que expressa a comunidade e a solidariedade da espécie. Esta noção, que permeia o pensamento chinês, leva à prática diária e natural da solidariedade humana, considerada a mais alta consequência social deste dogma metafísico. A condução geral da vida e das ações se baseia na aplicação deste princípio, que se transmuta em qualidades como piedade, dever e razão, conforme as necessidades da existência e da coabitação.

A Jornada Final e a Verdade Total


  • A Transição de uma Forma a Outra: A transformação (tsheng) é o mecanismo pelo qual todos os seres se absorvem de volta no Ser, enquanto a modificação (li) é o mecanismo que os produz. Não existe "criação" no sentido mecânico e material, mas uma produção por modificação do Ser. A morte, neste contexto, é vista como uma das fases da criação, uma transição natural de uma forma a outra, que, por ser uma melhoria, é mais uma "chegada" ou um "nascimento" do que um desaparecimento.
  • O Retorno à Perfeição e a Eterna Sucessão dos Ciclos: A via do céu inclui tanto a emissão para as formas quanto o retorno delas. Após o cumprimento perfeito da transformação, a absorção das modificações leva ao retorno à Causa Inicial. A via, contudo, é eterna, o que sugere a possibilidade de um novo ciclo. No entanto, não se afirma que os mesmos seres devam percorrer a mesma parte do fluxo das formas novamente. A essência subsiste una, sob aparências diversas, na eterna sucessão dos ciclos.
  • A Convergência Final: A reintegração bem-aventurada e total no Nirvana é o destino último do Universo e da Humanidade. Este retorno à Perfeição, que é a Vontade do Céu não manifestada, é o "fim do limite" e a absorção no Grande Todo. A lógica, a metafísica e a matemática convergem para a certeza de que esse retorno, que resulta na Felicidade e na Justiça, é inevitável.