''Tradução de Antonio Carneiro, em grande parte feita a partir da versão espanhola, MAXIMO EL CONFESOR, Tratados Espirituales — ed. Ciudad Nueva. [Estos tres escritos espirituales, el "Diálogo ascético", las "Centurias sobre la caridad" y la "Interpretación del Padre Nuestro", desde su diversidad de formas confluyen en una misma temática: toda la realidad, penetrada por el misterio de Cristo, se orienta hacia nuestra divinización. Y ésta se alcanza mediante la caridad, de un modo especial por el amor misericordioso al que sufre y al que nos hiere. Entonces hacemos en nosotros la experiencia de la philanthropia.]
1. A caridade é uma boa disposição da alma, que a faz preferir a tudo o conhecimento (gnosis — episteme) de Deus. Chegar à posse habitual desse amor é algo de impossível se se conserva apego a qualquer objeto terrestre.
2. A caridade nasce da liberdade interior; a liberdade interior, da esperança em Deus; a esperança, da paciência e da longanimidade; estas, do vigilante domínio de si, do temor de Deus, e este nasce da fé em Cristo.
3. Quem crê no Senhor receia o castigo; quem receia o castigo domina as paixões; quem domina as paixões suporta pacientemente as aflições; quem suporta as aflições adquire a esperança em Deus. E a esperança em Deus desliga o espírito de todo apego terrestre. Então o espírito possuirá o amor de Deus.
4. Quem ama a Deus, prefere seu conhecimento (gnosis — episteme) a todas as coisas criadas, e se empenha nessa direção ininterruptamente, com ardente desejo.
5. Se todo ser não existe senão por Deus e para Deus, e se Deus está acima das criaturas, o homem que abandona a Deus para se apegar às criaturas mostra que as prefere a ele, o Ser incomparavelmente superior.
6. Quem conserva o espírito firmemente preso ao amor de Deus subestima o que é visível, até o próprio corpo — como se fosse coisa alheia.
7. Se a alma supera o corpo, se Deus é imensamente melhor que o mundo, quem prefere o corpo à alma, e o mundo a Deus, não difere dos idólatras.
8. Apartar o espírito do amor de Deus e da assídua atenção que isto exige, para fixar-se numa realidade sensível, é antepor o corpo ao espírito, é antepor a Deus Criador o que não existe senão por ele.
9. Se a vida do espírito é a iluminação do conhecimento (gnosis — episteme), e se esta iluminação é produzida pelo amor de Deus, está certo dizer: "acima do divino amor nada há".
10. Quando, em transporte do amor, o espírito emigra para Deus, já não conserva a experiência de si mesmo ou de qualquer outra coisa. Inteiramente iluminado pela infinita luz de Deus, torna-se insensível a tudo que não tem existência senão per ele. Da mesma forma como não se vêem as estrelas quando se ergue o sol.
11. Todas as virtudes ajudam a alma ao amor ardente de Deus, porém mais do que as outras a oração pura, mediante a qual o espírito voa para Deus e se desliga completamente das criaturas.
12. Quando, pela caridade, o conhecimento (gnosis — episteme) de Deus arrebata o espírito e este, desligado das criaturas, percebe a infinitude divina, toma então consciência de sua baixeza, como Isaías, e estupefato rediz as palavras do profeta: "ai de mim, que estou perdido! pois sou homem de lábios impuros, habito num povo de lábios impuros, e no entanto vi com meus olhos o Senhor, o Rei dos exércitos!"
13. Quem ama a Deus não pode deixar de amar cada homem como a si próprio, mesmo se escandalizado com as paixões dos que ainda não se purificaram. E ao vê-los converter-se e reformar a vida, sente-se inundar a alma de uma alegria indizível.
22. Quem escapa às cobiças do mundo se torna inacessível à tristeza do mundo.
23. Quem ama a Deus, ama ao próximo sem reserva. Incapaz de guardar as próprias riquezas, distribui-as como Deus, dando a cada um o de que ele precisa.
24. Quem, ao dar a esmola, procura imitar a Deus, não coloca diferença alguma entre bom e mau, honesto ou desonesto, desde que se trate de necessitado. Dá a todos, a cada um segundo suas precisões, ainda se preferindo, per causa da boa vontade, o bom ao mau.
25. Deus, por natureza bom e sem paixão, ama todos os homens, obras de suas mãos, mas glorifica o justo porque este lhe está intimamente unido pela vontade; e em sua bondade, apieda-se do pecador, instruindo-o nesta vida para convertê-lo. Assim, o homem bom e sem paixão, ama igualmente todos os homens, os justos por sua boa natureza e boa vontade; e os pecadores, por causa de sua natureza e também em virtude dessa piedade compassiva que se tem para com um louco que mergulha na noite.
26. Dar largamente os próprios bens é sinal de caridade; quanto mais distribuir a palavra de Deus e prestar serviço aos outros!
27. Quem renunciou francamente aos bens do mundo e, sem pensar atrás, se torna servidor do próximo, ficará logo liberado de toda paixão e feito participante do amor e conhecimento (gnosis — episteme) de Deus.
28. Quem possui em si o amor de Deus não se fadiga de seguir o Senhor seu Deus, como disse o divino Jeremias, mas suporta generosamente as dificuldades, críticas, violências, sem querer a ninguém o menor mal.
29. Se um homem te ultrajou ou te desprezou, calcula bem tua cólera para não acontecer que por causa de um amargor venhas a separar-te da caridade e a estabelecer-te nas regiões do ódio.
30. Sofres uma ofensa ou desatenção? Sabe que há grande proveito no fato de tua vaidade ser assim providencialmente anulada pela humilhação.
31. A lembrança do fogo não esquenta o corpo. A fé sem amor não realiza na alma a iluminação do conhecimento (gnosis — episteme).
41. Quem ama a Deus não contrista o outro, nem se entristece com ninguém por motivos de ordem temporal. Não inspira e não sente senão uma tristeza (lype), esta salutar, a que S. Paulo sentia a respeito dos coríntios, e lhes procurou inculcar.
42. Quem ama a Deus leva sobre a terra uma vida angélica, no jejum, nas vigílias, no canto dos salmos e na oração, julgando bem a toda gente.
43. Quem aspira por uma coisa, luta para adquiri-la. Ora, mais que tudo de bom e desejável é Deus; que ardor não deveria ser o nosso para adquirir esse bem em si e desejável!
44. Não manches a carne por más ações, não sujes a alma por maus pensamentos, e a paz de Deus descerá sobre ti, trazendo-te a caridade.
47. Quem não obteve ainda a ciência de Deus, fruto da caridade, se orgulha com os bons atos, realizados segundo Deus. Mas quando for julgado digno dela, dirá com profunda convicção as palavras do patriarca Abraão, ao ser gratificado pela manifestação divina: "eu não sou mais que terra e cinza".
48. Quem teme a Deus possui a humildade por constante companheira: graças aos pensamentos que ela inspira, chega ao amor e reconhecimento para com Deus. Ela lhe recorda como outrora viveu segundo o século (aion), recorda suas quedas, as tentações experimentadas na mocidade, como o Senhor o livrou de tudo isso e o fez passar, da existência sujeita às paixões, a uma vida segundo Deus. Então, juntamente com o temor, invade-o o amor, e ele não cessa de dar graças, com profunda humildade, ao Benfeitor e Guia de nossa vida.
49. Não manches teu espírito aceitando pensamentos de concupiscência e de ira; senão, da oração pura cairás na acídia espiritual.
50. O espírito perde toda confiança em seu trato com Deus quando se habitua a maus e sujos pensamentos.
51. Quando um movimento de cólera agita um insensato que é joguete de suas paixões, este se apressa em fugir irracionalmente de seus irmãos. Ao contrário, se a concupiscência o inflama, muda de opinião e corre de novo a seu encontro. O sábio, por outro lado, em ambas ocasiões obra de outra maneira: nos momentos de cólera lança para fora de si as causas de sua turbação e se libera assim de toda amargura contra seus irmãos; nas de concupiscência, por outro lado, domina o impulso irracional de estar com elas.
52. Na hora da tentação não abandones teu monastério, mas sim, suporta com generosidade os vagalhões dos pensamentos, especialmente os de tristeza e acídia. Deste modo, ao ser provado pelas aflições segundo a disposição providencial, alcançarás uma firme esperança em Deus. Por outro lado, se vás embora, mostrarás que és um réprobo, um covarde e um instável.
53. Se não queres perder a caridade de Deus, não permitas que tu irmão se vá dormir desgostoso contigo, nem tu vás dormir desgostoso com ele, mas sim "vá reconciliar-te com teu irmão e volta logo." ( Mt 5, 24 ). e oferece a Cristo, com consciência pura, o dom da caridade, por meio de uma oração fervorosa.
54. Se, como ensina o divino Apóstolo, todos os dons do Espírito de nada servirá àquele que não tem caridade ( cfr. 1 Cor 13,1 ), devemos pôr muito empenho para alcançá-la!
55. Se "a caridade não faz mal ao próximo"(Rom 13, 10), aquele que tem inveja de seu irmão, que se entristece por sua boa fama, que mancha sua reputação com chacotas, ou que, por maldade, lhe põe emboscadas em algo, acaso não abandona a caridade e se torna réu no Juízo Eterno?
56. Se "a plenitude da lei é a caridade"(Rom 13,10), aquele que guarda rancor contra seu irmão e maquina fraudes contra ele, que deseja o mal e se alegra por sua queda, acaso não é transgressor da lei, digno do Castigo Eterno?
57. "O que murmura contra seu irmão ou julga seu irmão, murmura contra a lei e julga a lei" ( Sant 4,11 ), e a lei de Cristo é a caridade. Como, pois, o que murmura não se excluirá êle mesmo da caridade de Cristo e se transformará a si-mesmo em réu do Castigo Eterno?
58. Não dês ouvido à língua que murmura, nem entregues tua língua ao ouvido do que ama a crítica, falando ou ouvindo falar com gosto contra teu próximo, para que não te afastes da caridade divina e sejas excluído da vida eterna.
59. Não toleres que insultem a teu pai nem aproves ao que o despreza, não seja o que irrita ao Senhor com tuas obras que faça com que te apague da terra dos vivos.
60. Fecha a boca daquele que murmura a teus ouvidos para não cometer com ele uma dupla falta: a de adquirir o hábito de una paixão miserável, e a de não ter impedido dizer nescidades contra teu próximo.
61. "Eu lhes digo — disse o Senhor — amai a vossos inimigos; fazei o bem aos que os odeiam; orai pelos que os caluniam" ( Mt 5, 44 ) ? Para que estes preceitos? Para que te vejas livre do ódio, da tristeza, da cólera e do rancor, e para que sejas digno do bem supremo que é a caridade perfeita. A qual não pode ser possuída se não amar igualmente a todos os homens e querer que se salvem e cheguem a conhecer a verdade.
62. "Eu lhes digo : não resistais ao mal; antes melhor, se alguém te esbofeteia a direita de tua face, ofereça-lhe também a outra; para aquele que queira levar-te a julgamento para tomar-te a túnica, entrega-lhe também o manto; e se alguém te força a caminhar uma milha, anda duas com ele" ( Mt 5, 39 ). Por que ? Porque Ele quer preservar-te da cólera, da turbação e da tristeza, e dar ao outro uma lição por meio de tua paciência, e, em sua bondade, colocar os dois sob o jugo da caridade.
63. Tudo aquilo que nos tem afetado deixa em nós imagens apaixonadas. Somente quando se vence estas imagens apaixonadas, despreza também os objetos que as originam. Mais penoso, com efeito, é lutar contra as recordações que contra os objetos em si, assim como é mais fácil pecar pelo pensamento que por obra.
64. Umas paixões são próprias do corpo e outras da alma. As do corpo têm sua origem no corpo mesmo, e as da alma nas coisas exteriores. A caridade e o domínio de si-mesmo extinguem as duas: as da alma e as do corpo.
65. Umas paixões correspondem à parte irascível da alma, e outras à parte concupiscível. Tanto para umas quanto para as outras as despertam as coisas sensíveis quando a caridade e o domínio de si-mesmo estão ausentes da alma.
66. Muito mais difícil é combater as paixões da parte irascível que as da parte concupiscível. Por isso o Senhor tem dado contra aquelas um remédio mais enérgico, o preceito da caridade.
67. Todas as paixões afetam, seja somente a parte irascível seja somente a parte concupiscível da alma, ou também a parte racional, como por exemplo, o esquecimento ou a ignorância. A acídia, por outro lado, alcança a todas as potências da alma e comove simultaneamente a quase todas as paixões. O Senhor nos deu um esplêndido remédio contra ela quando disse: "Por vossa paciência salvareis vossas almas." ( Lc 21, 19 )
68. Não causes nunca dano a nenhum de teus irmãos, sobretudo injustamente, não seja que este não possa suportar a angústia e se vá, pois então não poderás escapar da acusação de tua consciência que, no tempo da oração te trará amargura, e impedirá a teu espírito tratar confiantemente com Deus.
69. Não aceites as suspeitas nem toleres as pessoas que te escandalizam contra alguém. Os que se escandalizam do que sucede, seja voluntaria ou involuntariamente, não conhecem o caminho de Deus para aqueles que amam apaixonadamente este conhecimento.
70. Não tem ainda caridade perfeita aquele cujas disposições interiores dependem de juízos humanos, como por exemplo, se ama a um e odeia a outro por qualquer coisinha, ou se muda seu amor em ódio por razões semelhantes.
71. A caridade perfeita não faz distinção entre os homens por causa de suas diferentes qualidades, porque todos têm uma mesma natureza. Considerando sempre esta naturaleza, os ama a todos por igual, aos bons como amigos e aos maus os ama como inimigos. A estes últimos os ama para fazer-lhes bem, suportando com magnanimidade e paciência o que recebe deles. Não pensa decididamente mal deles, mas sim, pelo contrario, se se apresenta a ocasião, sofre por eles a fim de fazê-los amigos, se for possível. Se não consegue, não abandona sua atitude, mas sim brinda sempre frutos de caridade para todos os homens por igual. Assim nosso Senhor Jesus Cristo mostrou sua caridade para conosco padecendo por toda a humanidade, e a todos lhes concedeu gratuitamente a esperança da ressurreição, se bem que cada um é que se faz digno da glória ou do castigo.
72. Quem não despreza glória ou deshonra, riqueza ou pobreza, prazer ou amargura, não alcançou ainda a caridade perfeita. Porque a caridade perfeita despreza não só tudo isto como também a própria vida temporal e a morte.
73. Ouça como falam os que tem sido julgados dignos da caridade perfeita: "Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? Conforme está escrito: ' Por tua causa somos entregues à morte todo dia; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro '. Mas em todas estas coisas vencemos plenamente por Aquele que nos amou. Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem principados, nem o presente nem o futuro, nem potestades, nem altura nem profundeza, nem nenhuma outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Senhor Nosso". ( Rom 8, 35-39 )
74. Ouça de novo como se expressam acerca do amor ao próximo: "digo a verdade em Cristo, não minto, e minha consciência dá testemunho disso pelo Espírito Santo, de que sinto uma grande tristeza e uma dor incessante em meu coração. Até desejaria eu mesmo ser afastado de Cristo por meus irmãos, os de minha raça segundo a carne, os israelitas".(Rom 9, 1 ) 18, etc. E o mesmo dizem Moisés e os outros santos. (cfr. Ex 32,21)
75. Quem não despreza a glória e o prazer, e aquilo que os aumenta e que os mantém, isto é, o amor ao dinheiro, não pode fazer desaparecer os pretextos para irar-se, e sem isto não pode alcançar a caridade perfeita.
76. A humildade e o sofrimento liberam o homem de todo pecado: aquela extingue as paixões da alma, esta as do corpo. O bem-aventurado David nos ensina quando ora a Deus dizendo: "Olhe minha humildade e minha pena e perdoa todos meus pecados." ( Sal 24, 18) 20
77. O Senhor, por meio dos mandamentos, libera das paixões àqueles que os praticam; e por meio dos ensinamentos divinos concede a iluminação do conhecimento.
78. Todas estes ensinamentos são acerca de Deus, ou acerca dos seres visíveis ou invisíveis, ou acerca da Providência e do juízo de Deus sobre estes.
79. A esmola cura a parte irascível da alma; o jejum aplaca a parte concupiscível; a oração purifica o espírito e prepara para a contemplação dos seres; e como remédio das potências da alma, o Senhor também nos deu seus mandamentos.
80. "Aprendei de mim — disse — que sou manso e humilde de coração" (Mt 11, 29) 21 , etc. A mansidão mantém em paz a parte irascível da alma, e a humildade ao espírito do orgulho e da vanglória.
81. Existem duas classes de temor a Deus. Uma nasce de nós pelas ameaças do castigo, e, por sua vez, engendra progressivamente em nós mesmos, a paciência, a esperança em Deus e a paz interior, cujo fruto é a caridade. O outro, que acompanha a caridade, mantém sempre a alma em atitude de reverência para que a confiança que provém da caridade não degenere em desprezo de Deus.
82. A caridade perfeita joga fora da alma que possui o primeiro temor para que esta não tema já o castigo, mas, como foi dito, conserva sempre unido a si o segundo temor. Ao primeiro temor se aplica aquilo de "pelo temor ao Senhor todo homem se afasta do mal" (Prov 14, 27) 22 , e, "o começo da sabedoria é o temor ao Senhor" (Prov 1, 7) 23. Ao segundo, aquilo de "o temor ao Senhor é puro e permanece pelos séculos dos séculos" (Sal 18, 10) 24, e "nada lhes falta aos que o temem" (Sal 33, 10) 25.
83. "Fazei morrer vossos membros, os da terra: a fornicação, a impureza, a paixão, o mau desejo e a cobiça" (Col 3, 5) 26 , etc. Terra significa aqui a prudência da carne; fornicação, o ato em si do pecado; impureza, o consentimento; paixão, o pensamento apaixonado; mau desejo, a simples aceitação do pensamento de concupiscência; cobiça, aquilo que faz nascer e crescer a paixão. O divino Apóstolo nos manda fazer morrer a todos estes co-membros da prudência da carne.
84. A memória começa trazendo ao espírito um pensamento simples. Se este se demora, a paixão se desperta. Se esta não é afastada, impulsiona o espírito para o consentimento. Uma vez que este se produz, chega o que faltava, isto é, o ato do pecado. Por isso o sapientíssimo Apóstolo, escrevendo a convertidos do paganismo, os manda remover primeiro o ato do pecado, e logo, progredindo ordenadamente, suprimir a causa. A causa é a cobiça, que como foi dito, faz nascer e crescer a paixão . Creio que "cobiça" significa aqui "gula", que é a que engendra e nutre a luxúria. Pois não só é má a cobiça das riquezas como também a de alimentos, assim como a temperança é boa não somente quando se refere a estes como também ao dinheiro.
85. Se um pássaro atado por uma pata trata de voar, puxado pela corda cai por terra. Assim, o espírito que não possui a paz interior e quer voar em direção ao conhecimento das realidades celestiais, cai por terra puxado pelas paixões.
86. O espírito, logo que se acha totalmente livre de paixões, caminha em direção a contemplação dos seres sem se voltar para trás, e avança em direção ao conhecimento da Santa Trindade.
87. O espírito purificado, quando alcança as noções dos seres, avança em direção a sua contemplação espiritual. Se se torna impuro por alguma negligência, todavia se representa em sua pureza as noções de outros seres, mas como anda com coisas humanas, se volta em direção a pensamentos baixos e maus.
88. Se no tempo da oração, os pensamentos mundanos não te turbam nunca o espírito, saiba que já não estás fora da região da paz interior.
89. Quando a alma começa a perceber sua boa saúde, suas imaginações, até em sonhos, começam também a ser simples e sossegadas.
90. Como a beleza das coisas visíveis atrai o olho sensível, assim o conhecimento das invisíveis atrai o espírito purificado. Chamo invisível ao que não tem corpo.
91. Se é bom o não deixar-se seduzir pelas coisas, muito melhor é permanecer em paz frente a suas imagens. Por isso a guerra que nos fazem os demônios a través dos pensamentos é mais gravosa que a que nos fazem por meio das coisas.
92. Quem pratica retamente as virtudes e adquiriu o tesouro do conhecimento vê as coisas segundo sua natureza e, por consequência, faz e diz tudo conforme a reta razão, sem se equivocar nunca. Porque o que nos faz virtuosos ou maus é o uso racional ou irracional que fazemos das coisas.
93. É sintoma de haver alcançado grande paz interior o fato de que as representações das coisas que surgem no coração sejam sempre simples, tanto na vigília quanto no sonho.
94. O espírito se despoja das paixões pela prática dos mandamentos; das representações carregadas de paixão pela contemplação espiritual das coisas visíveis; da contemplação das coisas visíveis pelo conhecimento das realidades invisíveis; e deste pelo conhecimento da Santa Trindade.
95. Quando o sol que ilumina este mundo sai, faz-se visível ele mesmo e as coisas que ilumina. Da mesma forma, quando o sol de justiça se levanta no espírito purificado , faz-se visível ele mesmo e as razões de tudo o que ele criou e criará.
96. Não conhecemos Deus em sua essência a não ser a través de suas obras magníficas e de sua providência para com suas criaturas. Deste modo percebemos como em um espelho, sua bondade, sua sabedoria e seu poder infinitos.
97. O espírito purificado ou se ocupa com simples representações das coisas humanas, ou com a contemplação natural das coisas visíveis ou invisíveis, ou se acha na luz da Santa Trindade.
98. O espírito que chegou a contemplação das coisas visíveis, investiga sua natureza ou seu significado ou mesmo a causa delas.
99. O espírito que se entrega a contemplação das coisas invisíveis quer conhecer sua natureza, a causa de sua existência e suas consequências, como também como atua a Providência e o Juízo Divino sobre elas.
100. Mas, quando chega a Deus, inflamado pelo desejo, quer antes de tudo conhecer sua essência, pois não encontra consolo em nada que não seja Ele. Mas alcançar isto é impossível, pois isto é inacessível, por igual, a toda natureza criada. Deve, pois, contentar-se com os atributos que o rodeiam, isto é, sua eternidade, sua infinitude, sua invisibilidade, sua bondade, sua sabedoria e o poder com o que cria, cuida e julga as coisas. Tudo isto só é perfeitamente compreensível em Ele. Sua infinitude, e ainda o fato mesmo de sua incognoscibilidade, é um conhecimento que transcende ao espírito, como bem mostraram em algum lugar os teólogos Gregório e Dionísio.
NOTAS: