VIDE: askesis; praktike; praxis; Combate Espiritual
Citações dos Padres — em nosso site francês
A visão de luta espiritual de Orígenes penetrou na corrente de todas as futuras tradições de orientação ascética (askesis) dos mundos da Grécia e do Oriente Próximo. Ela envolveu o ser humano num diálogo solene e contínuo com os poderes intangíveis que roçavam a mente. Porque, "se somos dotados do livre arbítrio, é muito provável que alguns seres espirituais sejam capazes de nos exortar ao pecado, e outros, de nos assistir rumo à salvação".
Os anjos (aggelos) e demônios (diabolos) eram tão próximos dos cristãos do século III quanto o são os aposentos contíguos. A alma livre se expandia no amor ou resvalava de novo para uma saciedade entorpecida, conforme sua opção de "buscar conselheiros" nos espíritos invisíveis e poderosos que se achavam tão perto de todas as pessoas. Nos momentos de intensa oração (euche), por exemplo, o fiel podia sentir, na serenidade (hesychia) imperturbável da mente, o toque do silêncio tranquilo dos espíritos angelicais que estavam ao lado de todos os cristãos, amorosamente interessados em que todos os seres humanos se unissem a eles em sua irrestrita adoração de Deus.
Cercado por todos os lados por ajudantes invisíveis e sedutores invisíveis, o fluxo de pensamento (logismos) dos cristãos raramente podia ser considerado neutro. A devoção e as resoluções firmes irrompiam na consciência através da disposição da alma de cooperar com seus guias angelicais. Essas presenças protetoras traziam à tona as propriedades sadias da pessoa, tão misteriosa e intimamente quanto o contato com os cataplasmas curativos mobilizava as energias de humores situados muito abaixo da pele. Os temas das meditações dos cristãos despontavam no "coração" (kardia) com um poder que muitas vezes revelava recursos mais profundos que os da mente consciente e isolada: Abençoado é o homem cuja aceitação está em Ti, Senhor: Tua ascendência está em seu coração.
Schuon Pérolas Peregrino; Schuon Esoterismo Principio Via
- Superar-se: este é um grande imperativo da condição humana; e há outro que o antecipa e ao mesmo tempo o prolonga: dominar-se. O homem nobre é o que se domina; o homem santo é o que se supera. A nobreza e a santidade são os imperativos do estado humano.
- O bem combate o mal, não deixando de ser o bem, mas por ser o bem.
- Desapego, generosidade, vigilância, gratidão: estas virtudes dependem de quatro princípios que poderíamos caracterizar pelos seguintes termos: pureza, bondade, força, beleza; ou frio, calor, atividade, repouso; ou morte, vida, combate, paz; ou ainda, aplicando-os à alquimia espiritual: abstenção, confiança, realização, contentamento.
- A injustiça é uma provação, mas a provação não é uma injustiça. As injustiças vêm dos homens, ao passo que as provações vêm de Deus. Aquilo que, da parte dos homens, é injustiça e, consequentemente, mal, é provação e destino da parte de Deus. Temos o direito ou, eventualmente, o dever de combater esse mal, mas devemos nos resignar à provação e aceitar o destino. Isso significa que é preciso combinar as duas atitudes, considerando que toda injustiça que sofremos da parte dos homens é, ao mesmo tempo, uma provação que nos chega da parte de Deus.
- Na dimensão horizontal ou terrestre, pode-se escapar do mal combatendo-o e vencendo-o. Ao contrário, na dimensão vertical ou espiritual, pode-se escapar, senão à provação em si, pelo menos ao seu peso, e isto aceitando o mal na qualidade de vontade divina e transcendendo-o interiormente na qualidade do jogo cósmico, como se pode transcender espiritualmente qualquer outra manifestação de Mâyâ. Pois a confusão do mundo não entra no divino Silêncio, existente no fundo de nós mesmos e no qual se extinguem ou reabsorvem — como os acidentes na substância — tanto o mundo como o eu.
Henry Corbin – (Corbin Homem Luz))
Reconhecer os três adversários [a natureza, a alma inferior e o demônio] é fixar experimentalmente suas formas de aparição. Najm Kobrâ não constrói de modo algum uma teoria; descreve os acontecimentos reais que se desenrolam no mundo interior, no «plano da apercepção visionária» (maqâm al-moshâhada), na ordem de realidade que corresponde propriamente ao órgão de percepção que é a faculdade imaginadora. Aí, a natureza das criaturas, a existência natural (wujud), «é sobretudo uma completa treva; quando sua purificação tem começo, toma perante ti o aspecto de uma nuvem negra. Enquanto é a sede do demônio (shaytân), aparece avermelhada. Quando as excrescências são corrigidas e aniquiladas e se implantam, pelo contrário, as aspirações legítimas, o seu aspecto adquire progressivamente a brancura de uma nuvem branca (o cumulus). No que concerne à alma inferior, quando faz a sua primeira aparição, a sua cor é um azul profundo; possui o aspecto de algo que nasce ou brota, semelhante ao da água que mana de uma fonte. Se é sede do demónio, aparece semelhante a um duplo nascimento de trevas e de fogo, sem que lhe seja possível mostrar outra coisa, pois não há bem algum no demoníaco. Ora, isto é o que a alma derrama, o que extravasa e se verte sobre toda a natureza do homem; por isso toda a pedagogia espiritual depende da alma. Quando é sã e pura, o fluxo que derrama é o do Bem, e é o Bem o que germina da existência natural; se o fluxo é o do Mal, germinará o Mal. O demônio é um fogo impuro misturado com a treva da impiedade, sob uma forma monstruosa. Às vezes adota a forma de um negro gigantesco, com uma forma terrível. Prodigalizam-se os esforços para penetrar em ti. Se desejas conseguir que renuncie ao seu propósito, recita interiormente: "Ó tu, ajuda dos que pedem a tua ajuda, ajuda-me"» (§ 7). Tal como diz outro grande sufi: «Satanás zomba de todas as tuas ameaças. O que o espanta é ver uma luz no teu coração», isto é, que tomes consciência do que ele é. Ora, já se viu (*supra* § 67 citado *in fine* III, pág. 46) que, como qualquer outra realidade espiritual, Satanás não é exterior a ti mesmo; os seus esforços para «penetrar em ti» não são mais do que uma fase da luta que se trava no teu interior.
Evola Doutrina do Despertar
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Temos agora de discutir o que são conhecidas como as cinco qualidades do combatente que são exigidas no discípulo; estas envolvem tanto condições internas como externas.
- A primeira é a força conferida pela confiança (saddhabala): confiança, se nos referirmos ao Budismo histórico, no fato de o seu fundador ter sido perfeitamente desperto e na verdade da sua doutrina; ou, mais geralmente, que existem seres que "atingiram o cume, a perfeição; que eles próprios, com o seu poder supramundano, apreenderam tanto este mundo como o outro e são capazes de promulgar o seu conhecimento".
- Numa analogia de uma "cidadela fronteiriça inconquistável", esta confiança do filho nobre é comparada à torre central da fortaleza que, com os seus alicerces profundos, dá proteção contra inimigos e estranhos.
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Para além da confiança, o "combatente" deve ser dotado daquele "conhecimento" e sabedoria do Ariya que "percebe o surgir e o desaparecer".
- Deste já falámos longamente.
- Lembremo-nos de que, num sentido inteiramente geral, por bodhisatta entende-se aquele que, por meio deste mesmo conhecimento, já está interiormente transformado, cujo cerne já é composto de bodhi ou panna em vez de forças samsaricas.
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Terceiro, deve-se ser genuíno, não falso, e deve-se ser capaz de se dar a conhecer de acordo com a verdade pelo que se é ao Mestre ou aos codiscípulos inteligentes.
- Ter um coração puro, uma mente livre e dúctil — ser, simbolicamente, como um pano perfeitamente branco que pode ser facilmente tingido da cor desejada, sem mostrar nódoas ou imperfeições.
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Quarto, temos viriya-bala, ou energia viril (a raiz de viriya é a mesma do termo latino vir, homem no sentido particular, em oposição a homo), uma força de vontade, que aqui se mostra como o poder de repelir tendências e estados não saudáveis e de promover o aparecimento de saudáveis.
- Acima de tudo, deve-se confiar nesta força para substituir o deleite no desejo (kama-sukham) pelo deleite no heroísmo (virasukham); uma substituição que é um ponto básico de todo o desenvolvimento ascético: deve-se fundamentalmente mudar a atitude de tal modo que o prazer heroico se torne o prazer mais elevado e mais intenso de que a mente desfruta.
- O Budismo ensina: "Cada homem é senhor de si mesmo — não há outro senhor; ao governares-te a ti mesmo encontrarás um senhor raro e precioso", e ainda: "Não por outros se pode ser purificado"; "sozinho estás no mundo, e sem ajuda".
- Aqui novamente a viriyabala fornece a força para se manter firme perante tudo isto.
- No Budismo, não há mestres no verdadeiro sentido da palavra guru: há apenas aqueles que podem indicar o caminho que tem de ser seguido inteiramente pelos próprios esforços: "É para vós mesmos levar a cabo o trabalho: os Budas (apenas) instruem".
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A quinta qualidade do combatente ariano: ele "é firme, vigoroso, bem constituído, nem deprimido nem exaltado, equilibrado, apto para ganhar a batalha".
- A presença de cegueira, surdez ou qualquer doença incurável era, no cânone, uma razão para não admissão na ordem.
- Ser velho, doente ou necessitado são "condições desfavoráveis para a batalha".
- "Manias a superar por evitamento" é o título dado àqueles estados desfavoráveis que surgem naquele que não cuida da sua própria saúde e que não toma as medidas necessárias para evitar perturbações físicas e problemas causados pelo ambiente.
- A perda da própria força por abstinência excessiva é considerada como uma das possíveis causas — a evitar — da perda da tranquilidade de espírito, e de eventualmente cair vítima num dos muitos pastos semeados com isco pelo Maligno.
- Já falámos da atitude negativa do Budismo em relação ao caminho da "mortificação": o treino na privação e na dor é salutar, mas apenas até um certo ponto; da mesma forma, um artesão aquece uma flecha entre dois fogos para a tornar flexível e direita, mas cessa quando o seu propósito foi alcançado.
- Tanto a tensão excessiva como a relaxação excessiva devem ser evitadas: "as cordas não devem estar nem demasiado frouxas nem demasiado tensas".
- As energias devem ser equilibradas.
- A mania da autoexaltação deve ser superada, assim como a mania da auto-humilhação, da auto-vilificação, deve ser superada.
- Com equanimidade, plenamente consciente, deve-se considerar a si mesmo como nem igual, inferior, nem superior aos outros, não se deve colocar entre as pessoas medianas, nem entre as pessoas inferiores, nem entre as pessoas superiores.