Excertos de Eudoro de Sousa, "Horizonte e Complementaridade"
REMINISCÊNCIA (MENON, 80D-81E)
«(M) Mas como vais tu procurar uma coisa, ó Sócrates, nada absolutamente sabendo de que ela é? Entre tantos que não conheces, que ponto proporás à tua inquirição? Ou, supondo que por acaso o encontres, como o reconhecerás, posto que o não conheces?
— (S) Entendo o que pretendes dizer, Menon. Belo assunto de discussão sofistica nos apresentas! É a doutrina segundo a qual não é possível buscar nem o que se conhece nem o que se não conhece; o que se conhece, porque, conhecido, não há necessidade de procurá-lo; o que se não conhece, porque nem sequer se sabe o que se há-de procurar.
— (M) E não te parece, Sócrates, que seja este um belo raciocínio?
— (S) Não, a meu ver.
— (M) Podes dizer-me onde falha?
— (S) Certamente. Escutei homens e mulheres hábeis nas coisas divinas (...).
— (M) Que diziam eles?
— (S) Em minha opinião, coisas verídicas e belas.
— (M) Que coisas, e quem as dizia?
— (S) Os que as dizem são sacerdotes e sacerdotizas que se aplicam em explicar as funções que exercem; é, ainda, Píndaro e uma multidão de poetas, daqueles que, em verdade, são divinos. Eis o que eles dizem; vê tu, se te parecem falar a verdade. Dizem, pois, que a alma do homem é imortal, e que ora sai da vida — é o que chamam morrer —, ora à vida regressa, mas que nunca perece, e que, por conseguinte, é preciso viver esta vida tão santamente quanto possível; pois 'aqueles que a Perséfone pagaram tributo pelos seus erros passados, desses, para o Sol nas alturas, a deusa, no ano nono, reenvia as almas, e destas, elevam-se as dos reis ilustres, dos varões poderosos pela força, ou grandes pelo saber, que para sempre, como heróis sem mancha entre os mortais são venerados' (Pind., frg. 133, Sandys). Assim, a alma, sendo imortal e muitas vezes renascendo, tendo contemplado todas as coisas, quer na Terra quer no Hades, não pode deixar de tudo haver aprendido; de modo que de assombrar não é, que possua, acerca da virtude e do resto, lembrança do que anteriormente conheceu. Como toda a natureza é homogênea e a alma tudo aprendeu, nada impede que uma única recordação — o que os homens denominam saber — faça que ele torne a achar todas as outras, previsto que se tenha a coragem e não se desista da busca; pois a inquirição e o aprender, não são mais, no seu todo, do que reminiscência (anamnesis|anámnésis).»