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id da página: 2989 Thomas Merton – Místicos e Mestres Zen – A PARÁBOLA DA MONTANHA DO BOI Thomas Merton

Merton Montanha Boi

Thomas Merton – Místicos e Mestres Zen – A PARÁBOLA DA MONTANHA DO BOI


Nos séculos IV e III a.C., em uma era (semelhante à nossa) de guerra e caos, Meng Tzu (Mêncio) edificou sobre os fundamentos filosóficos e espirituais lançados por Confúcio. Uma de suas intuições centrais foi a de que a natureza humana é fundamentalmente boa, mas que essa bondade essencial é destruída pelos atos maus e deve ser restaurada por meio da educação correta, uma educação voltada para a “humanidade”. O grande homem, disse Meng Tzu, é aquele “que não perdeu o coração de uma criança”. Esta afirmação não deve ser entendida de modo sentimental; ela implicava o dever sério de preservar o instinto natural, espontâneo e profundo de amar — instinto que é protegido pela ação misteriosa da própria vida e da providência, mas que é destruído pela vontade arbitrária e pela cobiça apaixonada do homem.

Em contraste com Meng Tzu estavam Mo Tzu e a escola dos Legalistas, que desejavam obrigar o homem a seguir o caminho de um amor universal abstrato pela força da lei (Mo Tzu), ou fazê-lo obedecer a um poder arbitrário pela ameaça de castigo (os Legalistas). Como, segundo eles, o homem era basicamente mau, suas tendências malignas deviam ser dominadas e exploradas pelo poder do governante.

Mas Meng Tzu acreditava que o homem é bom, e que a função de um governante sábio e misericordioso é fazer emergir a bondade de seus súditos por meio da educação. A história da Montanha do Boi é uma parábola sobre a misericórdia. Observai especialmente a ênfase de Meng Tzu sobre o “vento noturno”, aqui traduzido como “espírito da noite”, a influência misericordiosa, secreta e misteriosa da natureza inconsciente que, segundo ele, enquanto não for perturbada, cura e reanima as boas tendências do homem, sua “mente reta”. O texto que se segue baseia-se em uma tradução literal do chinês, encontrada em um apêndice da obra Mencius on the Mind, de I. A. Richards.

A PARÁBOLA DA MONTANHA DO BOI

i

Disse o Mestre Meng:
Havia outrora uma bela floresta na Montanha do Boi,
perto da capital de um país populoso.
Os homens vieram com machados e cortaram as árvores. Ainda era uma bela floresta?
Contudo, repousando na alternância dos dias e das noites, umedecida pelo orvalho,
as cepas brotaram, as árvores começaram a crescer novamente.
Então vieram cabras e bois para pastar nos rebentos tenros.
A Montanha do Boi foi completamente despojada.
E o povo, vendo-a assim despojada,
pensa que a Montanha do Boi jamais tivera florestas.

ii

Nossa mente também, despojada como a montanha,
ainda não pode estar sem alguma tendência fundamental para o amor.
Mas assim como os homens com machados, cortando as árvores a cada manhã,
destroem a beleza da floresta,
assim também nós, com nossas ações diárias, destruímos nossa mente reta.

O dia sucede à noite, dando repouso à floresta assassinada;
a umidade do espírito da aurora
desperta em nós os amores justos, as aversões corretas.

Com as ações de uma manhã, cortamos este amor
e o destruímos novamente. Por fim, o espírito da noite
já não consegue reviver nossa mente reta.

Onde, então, nossas preferências e repulsas diferem das dos animais?
Em quase nada.
Os homens nos veem e dizem que nunca houve em nós senão o mal.
É esta a natureza do homem?

iii

Tudo o que é cultivado de modo correto, certamente crescerá.
Tudo o que não é cultivado de modo correto, certamente perecerá.
Disse o Mestre Kung (Confúcio):

Agarra-o firmemente e o conservarás.
Agarra-o frouxamente, e ele desaparecerá de tua mão.
Seus idos e vindos não têm tempos fixos:
ninguém conhece sua morada.

Do espírito reto do homem, é somente disto que ele fala.