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Houve um tempo, e não muito distante, em que os escritos, mesmo dos místicos cristãos, eram encarados com certa apreensão nos mosteiros católicos contemplativos. E é verdade que os místicos não são para todos. Também é verdade que a popularidade de certas formas de misticismo oriental não é necessariamente sinal de maior maturidade espiritual no Ocidente. No entanto, parece certo que, se há quem deva estar aberto a essas tradições orientais e interessado nelas, são precisamente os monges contemplativos das ordens monásticas ocidentais. Embora existam muitas diferenças importantes entre as várias tradições, há também muito que as une, inclusive alguns pressupostos fundamentais que distinguem o monge — ou o homem do Zen — daqueles cuja vida é, por assim dizer, agressivamente não contemplativa.
Quais são alguns desses pressupostos? Costuma-se caricaturá-los como um rejeitamento grosseiramente pessimista do mundo material, como uma aspiração de fuga para um reino espiritual de anjos e essências puras, ou ainda como aniquilação num vazio negativo. Na realidade, ao examiná-los mais de perto, as grandes tradições contemplativas do Oriente e do Ocidente, embora às vezes difiram radicalmente na formulação de seus objetivos e na compreensão de seus métodos, concordam em afirmar que, por meio de disciplinas espirituais, o homem pode transformar radicalmente sua vida e alcançar um sentido mais profundo, uma integração mais perfeita, uma realização mais completa, uma liberdade de espírito mais total do que é possível nas rotinas de uma existência puramente ativa, centrada no lucro. Que há mais na vida humana do que simplesmente “chegar a algum lugar” na guerra, na política, nos negócios — ou mesmo “na Igreja”. Todas concordam que a mais elevada ambição está além da ambição, na renúncia daquele “eu” que busca seu próprio engrandecimento, de uma forma ou de outra. E concordam também que certa “purificação” da vontade e da inteligência pode abrir o espírito humano a uma compreensão mais elevada e iluminada do sentido e do propósito da vida, ou mesmo da própria natureza do Ser.
Longe de nutrirem desconfiança quanto às tradições místicas orientais, os contemplativos católicos, desde o Concílio Vaticano II, deveriam estar em posição de apreciar a riqueza de experiência acumulada nessas tradições. Pesquisas como as de R. C. Zaehner, para citar apenas um dos estudiosos mais recentes, agora permitem avaliar essas outras tradições de modo mais justo. Livros como Zen Catholicism, de Dom Aelred Graham, demonstraram que o Zen tem algo a dizer não apenas ao estudioso curioso, ao poeta ou ao esteta, mas também ao cristão comum que leva a sério a sua fé. Jesuítas no Japão fizeram retiros em mosteiros Zen, e um deles escreveu uma História do Zen, que será aqui discutida em detalhe. Outro escreveu recentemente um estudo teológico comparando o Nuvem do Não Saber (tratado místico do século XIV) com o Zen. Em outras palavras, os católicos estão agora perguntando a si mesmos, nas palavras do Concílio, como outras tradições místicas buscam penetrar “aquele mistério último que envolve o nosso ser, do qual vimos e para o qual caminhamos” (Declaração sobre as Religiões Não Cristãs, n. 1). E, ao fazê-lo, são guiados pela lembrança conciliar de que “a Igreja Católica nada rejeita do que é verdadeiro e santo nessas religiões. Ela considera com sincero respeito esses modos de agir e de viver, essas regras e doutrinas que, embora diferindo em muitos pontos daquilo que ela própria ensina e propõe, não raro refletem um raio daquela Verdade que ilumina todos os homens” (ibid., n. 2). O estudioso católico não deve apenas respeitar essas outras tradições e avaliar honestamente o bem que nelas se encontra, mas o Concílio acrescenta que ele deve “reconhecer, conservar e promover os bens espirituais e morais que se acham entre esses homens, bem como os valores existentes em sua sociedade e cultura” (ibid.).
É nesse espírito que os presentes ensaios sobre religião oriental foram escritos. O autor procurou não apenas observar friamente e de fora essas outras tradições, mas também, em certa medida, compartilhar dos valores e da experiência que elas expressam. Em outras palavras, não se contenta em escrever sobre elas sem torná-las, tanto quanto possível, “suas próprias”. É evidente que ninguém pode esperar ter pleno êxito em tal empreitada; muito menos pode um ocidental presumir, com base em seus estudos, ter “compreendido” o Zen. É preciso mais do que estudo para penetrar o Zen. Se ouso publicar aqui vários ensaios sobre Zen, é apenas porque fui assegurado por especialistas no assunto (inclusive o falecido Dr. Suzuki) de que isso não seria pura perda de tempo.
Ao escrever sobre o Zen, é desnecessário dizer, o que tento explicar é o Zen, não o dogma católico. O Zen não é teologia, nem reivindica tratar da verdade teológica sob qualquer forma. Tampouco é uma metafísica abstrata. É, por assim dizer, uma ontologia concreta e vivida, que se explica não por proposições teóricas, mas por atos que emergem de uma certa qualidade de consciência e de percepção. Somente por esses atos e por essa qualidade de consciência pode o Zen ser julgado. Os paradoxos e proposições aparentemente absurdas que ele formula só têm sentido em relação a uma percepção que é inefável e inexprimível.
Este é um livro livre e amplo, mais do que simplesmente ecumênico. Em sentido estrito, o “ecumenismo” diz respeito apenas à “casa da fé”, isto é, às diversas Igrejas cristãs. Mas há uma “oikoumene” mais ampla: a casa e a família espiritual da humanidade em busca do sentido de sua vida e de seu propósito último. Os horizontes deste livro estendem-se para além das formas estabelecidas do cristianismo. No entanto, aspectos da própria tradição cristã não são negligenciados. A Idade Patrística, o monaquismo primitivo, os místicos ingleses, os místicos do século XVII, a espiritualidade ortodoxa russa, os shakers e as comunidades monásticas protestantes são aqui tratados, às vezes em detalhe, às vezes de modo passageiro. Todos esses estudos são unidos por uma preocupação central: compreender os diversos modos pelos quais homens de tradições diferentes conceberam o sentido e o método do “caminho” que conduz aos mais altos níveis de consciência religiosa ou metafísica. O objetivo desses estudos é mais prático do que especulativo. Espera-se que as intuições e conclusões aqui formuladas possam ser de alguma utilidade para aqueles que se interessam pessoalmente por esse “caminho” e por essa consciência.
Abadia de Gethsemani
Advento, 1966
DESTAQUES
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- ASCENSÃO PARA A VERDADE
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- MARTA — MARIA — LÁZARO
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