HENRY, Michel. Encarnação: uma filosofia da carne. Tr. Carlos Nougué. São Paulo: É Realizações, 2014
Sumário da Introdução
I. O Problema Fundamental: A Diferença entre Corpo e Carne
- A encarnação como ponto de partida coloca uma questão filosófica central: o que significa para um ser estar encarnado, ter um corpo, em meio a um universo inteiramente composto de corpos materiais.
- O abismo entre corpo material e corpo vivo: Embora o senso comum, a filosofia tradicional e a ciência tratem todos os entes do universo como corpos materiais, existe um abismo insuperável entre um corpo inerte (como uma pedra ou uma partícula) e o corpo de um ser vivo encarnado, especialmente o humano.
- A decisão metodológica de focar no humano: A investigação concentra-se no ser humano, pois é nele que temos a experiência imediata e irrecusável de um corpo que sente, em oposição ao conhecimento externo e conjectural que temos dos corpos dos outros seres vivos.
II. A Elucidação da Carne (em oposição ao Corpo)
- A definição de carne: O texto estabelece uma terminologia crucial para superar o impasse: chama de "corpo" a matéria inerte, opaca e insensível que povoa o universo físico, e de "carne" a realidade do ser humano que se experimenta a si mesma.
- A autoconsciência sensível como essência da carne: A característica fundamental da carne é sua capacidade de se experimentar a si mesma (no esforço, no prazer, na dor) e, por isso mesmo, de experimentar o mundo ao seu redor (sentir cores, sons, texturas). Um corpo inerte não "toca" nada; a carne, sim.
- O ser encarnado como ser "padecente": Ser encarnado, portanto, não é simplesmente ter um corpo material, mas ser carne: uma substância impressionável, atravessada por sensações, desejos, medos e prazeres, que constituem sua própria essência.
III. A Dificuldade de Pensar a Relação entre Carne e Corpo
- A assimetria do conhecimento: Enquanto temos um conhecimento absoluto e imediato de nossa própria carne (mesmo que não conceptualizado), nosso conhecimento dos corpos inertes do universo é sempre externo, mediado e termina em uma ignorância completa sobre a "coisa em si" (o númeno kantiano).
- A inversão epistemológica: Não é a análise do corpo material que explicará nossa carne; é nossa carne que nos permite conhecer algo como um "corpo". A experiência subjetiva da carne é o pressuposto incontornável para qualquer conhecimento objetivo.
IV. A Encarnação no Sentido Cristão: O Verbo se fez Carne
- O choque da proposição joanina: A afirmação "E o Verbo se fez carne" (João 1:14) é o fundamento alucinante do cristianismo e constitui um escândalo para as filosofias anteriores, gerando um desenvolvimento espiritual e cultural sem equivalente na história.
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O enfrentamento com a filosofia grega: A encarnação entra em choque frontal com o pensamento grego, caracterizado pelo dualismo entre:
- Sensível vs. Inteligível: O mundo material (incluindo a carne) é desvalorizado em favor de um mundo puramente inteligível e eterno.
- Alma vs. Corpo: A salvação, para o grego, reside na fuga do sensível e na imersão da alma no noús (intelecto) eterno, abandonando o corpo perecível.
- O paradoxo cristão da salvação: O cristianismo, ao contrário, situa o mistério da salvação no corpo e na carne. É a este corpo material, putrescível e vulnerável que é confiada a promessa de ressurreição e vida eterna, o que provocou a zombaria dos gregos (como no discurso de Paulo no Areópago).
V. A Ruptura com o Judaísmo
- A concepção unitária do homem: Inicialmente, o cristianismo compartilhava com o judaísmo uma visão não dualista do homem, visto como uma realidade unitária onde a carne não era objeto de descrédito.
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Os motivos da ruptura: Dois pilares do cristianismo tornaram-se inaceitáveis para a ortodoxia judaica:
- A Encarnação: A ideia de que o Deus transcendente, absolutamente separado da criação, pudesse assumir um corpo mortal e sofrer uma morte ignominiosa era vista como absurda e blasfema.
- A Redefinição do Homem: O judaísmo mantinha uma visão da condição humana como miserável e fadada à morte, dependente de um ato gratuito de Deus para a salvação. A encarnação propunha uma via radicalmente nova.
VI. O Combate dos Padres da Igreja e a Luta contra as Heresias
- A batalha intelectual pela encarnação: Os Padres da Iguela travaram um combate em duas frentes: contra a rejeição judaica e contra a incompreensão grega, esforçando-se para tornar inteligível a possibilidade interna da Encarnação.
- O cerne da heresia: A grande heresia, manifestada em várias correntes gnósticas, não era negar a divindade de Cristo, mas negar a realidade de sua carne humana. As teses heréticas propunham que Cristo tinha uma carne aparente, ou espiritual, ou astral, mas não uma carne real, idêntica à nossa.
- A importância da carne real: A salvação dependia disso. Só se Cristo tivesse uma carne verdadeiramente humana, o homem poderia se identificar com ela e, através dela, com Deus (processo de deificação). A ressurreição dos corpos só faz sentido se o corpo de Cristo era real.
VII. O Problema Filosófico Central: A Possibilidade da Encarnação
- A questão não é histórica, mas filosófica: O problema não é se Jesus existiu, mas se alguém como Cristo (o Verbo encarnado) é concebível. Como duas naturezas radicalmente heterogêneas (divina e humana) podem se unir em uma única pessoa (prosopon/pessoa)?
- O impasse da comunicação das propriedades: A teologia debateu intensamente a apropriação dos idiomas (comunicação de propriedades): como propriedades divinas (onisciência, impassibilidade) e humanas (ignorância, sofrimento) podem coexistir no mesmo sujeito? A definição grega do homem como logos (razão) facilitaria uma ponte, mas a definição joanina do homem como carne aprofunda o abismo.
VIII. A Arqui-inteligibilidade Joanina: Uma Nova Fundamentação
- Superando o paradoxo: O texto propõe que a chave para superar as aporias está em uma leitura mais profunda do Prólogo de João, que revela uma "Arqui-inteligibilidade" diferente da racionalidade grega.
- Deus é Vida: A essência de Deus é definida como Vida, entendida como pura "experiência de si", um auto-engendramento que necessariamente traz em si um Si vivo (uma Ipseidade) onde essa experiência acontece. Este Si é o Verbo, a autorrevelação interna da Vida absoluta.
- A lei da vida: Não há vida sem um vivente que a experimente, e não há vivente fora deste movimento de auto-revelação da Vida. Isto se aplica tanto à Vida absoluta de Deus quanto à nossa vida mais comum (exemplificada na experiência imediata do sofrimento ou do prazer).
- A carne como proveniente do Verbo: A tese radical é que a carne não provém do "limo da terra" (da matéria inerte), mas do Verbo. A carne, com suas impressões e sua subjetividade, é o modo pelo qual o Verbo de Vida se torna idêntico a cada vivente. A encarnação não é a adição de um elemento estranho (a matéria) ao Verbo, mas a sua auto-manifestação em e como carne.
- A revelação como carne: A revelação de Deus não acontece através de um corpo visível, mas como carne. A carne em si mesma é revelação, é o modo de manifestação do Verbo invisível.
IX. O Método: A Fenomenologia da Vida
- A necessidade de um novo método: Para acessar essa realidade invisível da Vida e da carne, é necessária uma fenomenologia que rompa com o pressuposto grego que rege grande parte da filosofia (incluindo a fenomenologia de Husserl, centrada na consciência e no mundo visível).
- A inversão fenomenológica: Propõe-se uma fenomenologia da Vida, em contraposição a uma fenomenologia do Ser ou do mundo. Só uma abordagem que parta da experiência interior e invisível da vida (o que o texto chama de "pathos") pode ser adequada para elucidar a carne e a encarnação.
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O plano da investigação: A análise subsequente seguirá três etapas:
- Inversão da fenomenologia (para fundar o novo método).
- Fenomenologia da carne (elucidando a essência da encarnação humana).
- Fenomenologia da Encarnação cristã (compreendendo a salvação como deificação através da carne de Cristo).