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id da página: 11412 Michel Henry Autogeração da Vida Michel Henry

Michel Henry Autogeração da Vida



[...] A vida não “é”. Ela advém e não cessa de advir. Essa vinda incessante da vida é seu eterno chegar a si, o qual é um processo sem fim, um movimento. No cumprimento eterno deste processo, a vida lança-se em si, esmaga-se contra si, experimenta-se a si mesma, frui de si, produzindo constantemente sua própria essência na medida em que esta consiste em tal fruição de si e se esgota nela. Assim, a vida se engendra continuamente a si mesma. Nesta autogeração que não tem fim, cumpre-se a efetuação fenomenológica ativa do vir a si da vida como vir ao experimentar-se a si mesmo em que reside todo viver concebível. Levado pelo vir a si da vida e cumprindo-o, o “experimentar-se a si mesmo” é ele mesmo um processo em que o que é experimentado advém como o sempre novamente experimentado enquanto o viver permanece em si como o que o experimenta sempre de novo. A vida é um automovimento que se auto-experimenta e não cessa de se auto-experimentar em seu próprio movimento – de modo que desse movimento que se auto-experimenta nada nunca se desprende, nada escapa para fora dele, para fora desta auto-experiência que se move. O movimento pelo qual a vida não cessa de vir a si e assim à fruição de si – o movimento de seu próprio viver, que, ele mesmo, não cessa, não se destaca jamais de si, mas permanece eternamente em si tal é pois o processo em que consiste a essência da vida, sua autogeração.

De que a vinda a si da vida é sua vinda ao “experimentar-se a si mesmo” em que ela frui de si, segue-se que esta fruição de si, este “sentir-se a si mesmo” é a primeira forma de toda fenomenalidade concebível. Ora, a vinda a si da vida não é somente o nascimento originário da fenomenalidade, mas também o da revelação. Nela se revela de modo incontestável a maneira como esta fenomenalidade se fenomenaliza, como esta revelação se revela: como páthos e na carne afetiva deste. Sendo assim, nada se revela nela senão ela mesma. É o que quer dizer “experimentar-se a si mesmo”: experimentar o que não é em sua carne nada além do que o experimenta. Essa identidade entre o experimentador e o experimentado é a essência original da Ipseidade. Tampouco isso, por conseguinte, pode escapar-nos: no processo de autogeração da vida como processo pelo qual a vida vem a si, esmaga-se contra si, experimenta-se a si mesma e frui de si, uma Ipseidade essencial está implicada como a condição sem a qual e fora da qual nenhum processo desta espécie jamais se produzirá. A Ipseidade não é uma simples condição do processo de autogeração da vida: ela lhe é interior como o próprio modo como esse processo se cumpre. Assim se edifica, conjuntamente com a vinda a si da vida no experimentar-se a si mesma da fruição de si, a Ipseidade original e essencial da qual o experimentar-se a si mesmo tem sua possibilidade, a Ipseidade em que e com que todo experimentar-se a si mesmo se cumpre.

Esse processo de autogeração da vida é, nós o sabemos, um processo fenomenológico. A vida se autogera na medida em que ela se impele à fenomenalidade em forma de autorrevelação. Mas é somente porque essa autorrevelação se produz e na medida em que ela o faz que o processo de autogeração se dá, que o viver da vida é efetivo.

Como o processo de autogeração da vida é o de sua autorrevelação? Pelo fato de que a vinda a si da vida, no experimentar-se a si mesmo de seu estreitamento patético, é sua fruição de si. O páthos desta fruição define a fenomenalidade desta vinda a si, o modo fenomenológico concreto segundo o qual e graças ao qual o processo de autogeração da vida se torna o de sua autorrevelação. Porque uma Ipseidade original e essencial é requerida pelo processo de autogeração da vida, ela pertence também ao de sua autorrevelação. Mais ainda, a Ipseidade em que se cumpre o estreitamento patético da vida que se autogera autoexperimentando-se é o modo fenomenológico concreto segundo o qual esse processo de autogeração se produz como seu processo de autorrevelação. Assim, a Ipseidade pertence à autogeração da vida como aquilo em que essa autogeração se cumpre como autorrevelação. A autorrevelação da vida esta Ipseidade original e essencial pertence, pois, como o que a torna possível.