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Ipseidade

IDENTIDADE — IPSEIDADE

Segundo a excelente Encyclopédie philosophique universelle: Les Notions philosophiques, ipseidade vem do latim ipseitas, derivado de ipse, eu mesmo, tu mesmo, etc, a ipseidade caracteriza o indivíduo nele mesmo. Ela toma toda sua importância nas doutrinas onde a natureza universal é primeira, o que impõe a questão da individuação (escotismo). Ela supõe então a hecceidade, pela qual um indivíduo é um "isto" e não simplesmente um ser de tal e tal espécie. Na fenomenologia, a ipseidade caracteriza o «Dasein» em sua existência ou seu ser-no-mundo antes da constituição do eu como sujeito (J. Baiard).

Titus Burckhardt: INTRODUÇÃO ÀS DOUTRINAS ESOTÉRICAS DO ISLÃ

Este conocimiento del propio arquetipo no es otro que el (Atman), de acuerdo con una expresión tomada de la doctrina Hindú, o de la Aseidad o Ipseidad (al-huwiyya), según una expresión sufí. Este conocimiento puede llamarse «subjetivo» de manera divina, ya que supone la identificación —definitiva o incidental— del espíritu con el «Sujeto» divino, y no que Dios se presente en él como el objeto de la contemplación o el conocimiento. Por el contrario, es el sujeto relativo, el ego, quien será entonces —en su posibilidad principial— «objeto» respecto al Sujeto universal y absoluto, el único que es, en la medida en que semejantes distinciones son aplicables al «plano divino».

Lo son en su realidad «principial», pero no en lo que implican de limitativo, psicológica y materialmente, en el plano de la criatura. En el orden «principial», el «sujeto» y el «objeto» son los dos polos de todo conocimiento, «el que conoce» (al-’âqil) y «lo conocido» (al-ma ‘qûl).


El «punto de vista» contenido en el conocimiento del es, en cierto modo, el contrario del que implica la contemplación «objetiva» de Dios, en Sus Nombres y Sus Cualidades, aunque no se pueda relacionar esta última visión con el sujeto relativo como tal, pues no somos nosotros quienes contemplamos en realidad a Dios, sino Dios mismo quien Se contempla en Sus Cualidades de las que somos soportes de manifestación.


Michel Henry: EU SOU A VERDADE
A profundidade da intuição cristã é de tornar clara a inanidade destas concepções (a noção de vida e indivíduo do Romantismo). O indivíduo não pode se identificar à vida universal senão sob a condição da manutenção e não do desaparecimento de uma Ipseidade essencial — e isso nele tanto quanto na vida ela mesma. Nele, falta do que, longe de poder se unir à vida universal, ele seria aniquilado. Nela, porque é somente à condição de levar em si esta Ipseidade tão antiga quanto ela, que a Vida pode ser a Vida. Tal é a intuição abissal do cristianismo: a Ipseidade transcendental como condição do Indivíduo assim como da Vida. De sorte que o primeiro não é possível sem o segundo, assim como o segundo sem a Ipseidade do primeiro. Ora esta conexão decisiva, o cristianismo não a estabeleceu a respeito de nenhum indivíduo particular nem de nenhuma vida particular. Ele a apreendeu no princípio, na primeira fulguração da Vida, aí onde ela se auto-engendra em sua Ipseidade essencial.


De Ipseidade só há na Vida. A Ipseidade não se encontra na vida como a erva no campo ou a pedra no caminho. A Ipseidade pertence à essência da Vida e a sua fenomenalidade própria. Ela tem nascimento no processo de fenomenalização da vida, o processo de sua auto-afeção patética, e como o modo mesmo segundo o qual esta se cumpre. A Ipseidade é aquela do Arque-Filho transcendental e só existe nele, como o que engendra necessariamente nela a vida em se engendrando ela mesma. A Ipseidade está com a vida desde seu primeiro passo, pertence ao primeiro nascimento. Ela se mantém neste Arque-nascimento, o torna possível, só inteligível na sua fenomenologia. A Ipseidade é o Logos de Vida, aquilo em que e como que a Vida se revela em se revelando a si. A Ipseidade está no princípio e vem antes de todo eu transcendental, antes de todo Indivíduo. Antes de Abraão. Mas todo Indivíduo procede desta Ipseidade e não é possível sem ela. Nesta Ipseidade de antes do mundo. Nesta Ipseidade tão antiga quanto a vida, eterna como ela. Se por homem entendemos, como habitualmente, o indivíduo empírico, aquele cuja individualidade se atém às categorias do mundo, ao espaço, ao tempo, à causalidade, em resumo se o homem é este ser do mundo inteligível na verdade do mundo, então deve-se tomar seu partido: este homem não é uma Ipseidade, ele não porta nele nenhum Si, nenhum “eu”. O indivíduo empírico não um Indivíduo e não pode o ser. Um homem que não é um Indivíduo e que não é um Si, não é um homem. “O homem do mundo não é senão uma ilusão de ótica. O «homem» não existe”.

A falha de toda concepção mundana do homem restabelece às teses à primeira vista desconcertantes desta fenomenologia radical da vida que é o cristianismo em sua profundidade abissal. Do homem que seja um, que possa ser um homem — do homem que seja um Indivíduo, um Si e um eu, não há com efeito senão o Cristo, a saber na Ipseidade original co-engendrada pela Vida em seu auto-engendramento. Esta inteligência do homem como Filho da Vida no Arque-Filho e na Ipseidade original desta Vida, torna caduca e mesmo algo ridícula a concepção do homem da ideologia objetivista moderna, quer seja aquela do sentido comum ou aquela do cientismo, a primeira sendo a princípio amplamente pervertida pela segunda.

Até onde vai a conexão originária essencial da Ipseidade e da Vida, é o que a parábola de João na qual o Cristo declara ser a porta do redil das ovelhas dá a entender (Pastor e Ovelhas). Por um lado, é verdade, a Ipseidade nasce na vida; é em se lançando em si mesmo que a vida gera esta Ipseidade na qual, se restringindo ela mesma, ela advém a si. Uma reviravolta extraordinária se produz no entanto quando, se identificando à porta que dá acesso às ovelhas, o Cristo se apresenta ao contrário como aquele que dá à vida de se nutrir, de se nutrir de si, de crescer e de acrescer de si e assim de ser vivente: “Sou eu que sou a porta: aquele que por mim entrar .... irá e virá e encontrará pasto...”. E é então que se produz a reviravolta: o Cristo não mais como engendrado na vida mas como aquele que a dá. Não mais como o Filho — o Primeiro certo, o Arque-Filho. Não mais como um vivente — o Primeiro certo, o Primeiro Vivente. Não mais como um vivente que pressupões sempre a vida e não é possível senão a partir dela. Mas como Aquele que, mais alto aqui que a vida de certa maneira, tem poder sobre ela, poder de a dar e assim de a engendrar. Esta geração não mais como transmissão da Vida ao Vivente, mas de alguma maneira do Vivente à vida, ela é formulada incontestavelmente e eis, depois que o Cristo é designado como a porta, a palavra mais estarrecedora da parábola: “Eu vim para que se tenha a vida” (Pastor e Ovelhas).