PAUL-MICHEL FOUCAULT (1926-1984)
De Maurice Lacroix, em um antigo artigo do Le Monde, onde ele busca definir a essência da "revolução filosófica" devida a Michel Foucault: "Não pedir a razão das coisas nem às próprias coisas nem ao sujeito que profere o discurso, mas às regras da linguagem que forma as coisas como objeto de um discurso." Wittgenstein já havia dito: "Não somos nós que expressamos por meio de signos o que queremos, é a natureza dos signos essencialmente necessária que enuncia por si mesma." A única desgraça é que as regras dessa gramática universal assim substituída ao "homem" ou ao sujeito "pensante" não são mecanizáveis. Eu quero dizer com isso que seu funcionamento é transcendente a elas. Segundo toda probabilidade, em uma alma e um corpo, de fato, faz-se um apelo a esta "segunda memória" da qual não paramos de falar, que transcende todas as regras e que é o próprio homem. Encontramos aqui, no fundo, o problema do pensamento dito artificial, que apaixona com razão os lógicos dos robôs, mas esses matemáticos, menos aventureiros que os filósofos das ciências "humanas", não renunciam de antemão tão facilmente a que o homem seja irredutível.
... Para tomar um exemplo claro, evocaremos o prestigioso quadro das Meninas de Velasquez, cujo brilhante estudo de Michel Foucault no início de As Palavras e as Coisas nos dá uma referência cômoda: o sentido que Velasquez funda em seu quadro é o da representação clássica, é ao estabelecimento de um discurso sobre o significado desta representação que ele se atém — e, se ousamos dizer, somente a isso, não ao Sentido último de todo ato de ver em si, o que Bruegel, ao contrário, se propõe a fundar em seu quadro. A este título, A Queda de Ícaro faz parte das obras que têm por objetivo comprovado de remeter não a elas mesmas, nem ao mundo de forma mediata (é o que faz Velasquez, pintando assim um quadro pedagógico de forma didática), mas sim imediatamente à consciência que o percebedor tem de sua própria consciência, ou seja, ao mundo (e nisso Bruegel pinta um quadro pedagógico alusivo, que funciona não pelo exemplo, mas pela influência, que é para o exemplo o que a assunção pela intensidade é para a amplitude). Deste quadro, como de seus homólogos, faremos uma "leitura" pertinente à única condição de reconhecer que sua estruturação coincide com a estruturação eterna da intenção pedagógica do mundo, que o artista terá in-corporado. E é para marcar isso e nada mais que designamos esses quadros como aqueles dos quais podemos dizer que eles são "a própria vida"; nós compreendemos agora que não é para saudar a virtuosidade de sua imitabilidade fotográfica, nem para recompensar o esforço de um trabalho minucioso, mas porque sentimos obscuramente que eles são fundados sobre a consciência clara e a dialética em ação no próprio mundo entre o "objeto" e o "sujeito"; que, a este título, é de uma sabedoria que falamos, é ela que percebemos e que saudamos, uma qualidade de meditação que o artista soube intensificar diante do mundo e não a amplitude de um fazer técnico: a arte é uma das atividades por excelência onde se mede a ascensão da capacidade de acesso a um sacerdócio — o qual tem por objetivo último se entregar ao mundo, entregando-o a si mesmo, e não vampirizá-lo em proveito de um objeto sem vida. (Raymond Abellio, Dans une âme et un corps)
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