Jean Borella: RENÉ GUÉNON E OS SACRAMENTOS DA INICIAÇÃO CRISTÃ
Quando dizemos que o vocabulário dos mistérios começa a se aplicar à catequese dos sacramentos, parecemos pressupor que o termo sacramento, como a coisa que designa, são conhecidos nesta época; assim não é. Certamente o sete ritos fundamentais comunicando a graça santificante fazem parte da revelação apostólica. Mas não são necessariamente designados, nos latinos, pela palavra “sacramentum”. Pode-se duvidar que exista nesta época um conceito geral e específico destes ritos. Não que se os confunda com outros ritos; reafirmamos, na prática, o “septenário sacramental” existe desde as origens, como o prova incontestavelmente o fato que as diversas Igrejas cristãs, mesmo muito cedo separadas da Igreja de Roma (Igrejas Copta, Jacobita, Armeniana, etc.) e a Igreja Grega, tenham reconhecido na doutrina do septenário sacramental, explicitamente formulada pelos latinos nos séculos XII-XIII, sua própria crença imemorial. Mas durante os três primeiros séculos, trata-se precisamente de uma prática cuja teoria não será elaborada senão muito progressivamente. Falta portanto de uma definição do “sacramento em geral”, a literatura desta época não podia assim nos fornecer nem um vocabulário sacramentário tecnicamente constituído, nem uma lista exaustiva dos sacramentos, do tipo: nem mais, nem menos.
Por outro lado, a palavra latina “sacramentum” não se aplicava à designação exclusiva disto que denominamos hoje em dia, mas foi escolhida pelos escritores cristãos de língua latina para verter o grego “mysterion”. Este ponto é de uma importância maior e não se deve jamais esquecer que o “sacramentum” latino nada mais é que o “mysterion” grego.
As primeiras atestações de uma tal tradução nos são fornecidas pelas versões latinas dos Livros do NT que circulam muito cedo (cerca de 150), particularmente o Livro das epístolas paulinas. São Jerônimo, dois séculos mais tarde, se contentará de revisar, por vezes superficialmente este velho texto latino geralmente de uma grande fidelidade1 . Fora do AT, é nas epístolas de Paulo Apostolo (Ef, 1,9; 3,3; 5,32; Col. 1,27; 1Tim 3,16) e no Apocalipse de João (1,20; 17,7) que se encontra “sacramentum” traduzindo “mysterion”; à exceção destas ocorrências, o “mysterion” grego é simplesmente latinizado (e não traduzido) em “mysterium”. Um exemplo célebre de uma contrasenso possível é fornecido por Ef 5,32 onde falando da união do Cristo e de sua Igreja, Paulo Apostolo afirma: “sacramentum hoc magnum est”, que se traduziria: este sacramento é grande (aplicando-o à união do homem e da mulher do qual acaba de tratar), enquanto se deveria traduzir: este “mistério” é grande, o mistério, quer dizer a operação sagrada pela qual o Cristo e a Igreja entram em sinergia, ou ainda pelo qual a Igreja coopera iniciaticamente à atividade redentora do Cristo.
Conhece-se a prodigiosa fortuna de “Sacramentum” que iria se tornar a designação própria dos ritos cardeais da fé cristã, tão própria que dele não existe qualquer equivalente, nem mesmo “mysterion” do qual no início era apenas uma tradução entre outras possíveis, e que, este, guardou uma pluralidade de significações. Entre estas traduções possíveis de “mysterion”, deve-se mencionar principalmente o substantivo “arcanum”, o “segredo”, o “mistério”, ou suas formas adjetivas: “res arcana”, a “coisa secreta”, ou ainda “arcana sacra”, os “mistérios sagrados”, etc.; é com efeito este termo que se encontra nos melhores escritores, como equivalente de “mysterion”, e é portanto ele que poderia ser escolhido (vide Disciplina do Arcano). Havia no entanto em “sacramentum” uma significação que não se encontrava expressa em “arcanum”, o qual indica quase somente uma ideia de oculto ou de secreto: é a significação de “ato secreto”. Eis porque pode-se estimar que o “sacramentum” latino contribuiu para um uso mais claramente sacramentário; não é portanto sem ter influenciado a passagem do mistério doutrinal ao mistério ritual que aqui se trata.
Qual era o sentido primeiro de “sacramentum”? O termo é emprestado da linguagem jurídica: designa a soma de dinheiro depositado entre as mãos dos pontífices pelas partes demandantes em um processo: a aposta da parte derrotada era “consagrado” ao serviço dos deuses; designa além disso o “juramento” (derivação popular de “sacramentum”) que pronunciava o soldado romano e pelo qual consagrava diante dos deuses seu engajamento militar. Trata-se portanto, nos dois casos, de separar uma coisa ou um homem da ordem profana e de uni-los a uma ordem sagrada. Esta con-sagração, no caso do “sacramentum militiae” (= “juramento de milícia”), era por vezes atestado por um sinal, o “fidei signaculum”, o sinal da fé (jurada). Todos estes termos e as ideias que exprimem desempenharam um grande papel na elaboração da doutrina sacramentária.
A história da palavra “sacramentum” foi bem estudada. Encontra-se o essencial no D.T.C. t. XIV, col 485-495 (artigo “Sacramento”) que resume a obra clássica de J. Ghellinck. E. de Backer, J. Poukens: Pela história da palavra “sacramentum”, Louvain, 1924. Adicionemos que os cristãos não foram únicos a transpôr o “sacramentum militiae” do domínio militar ao domínio religioso propriamente dito. Os romanos eles mesmo englobavam “por vezes sob este termo um mundo de coisas misteriosas, relegando um pouco a segundo plano a realidade precisa que tinha justificado seu emprego” (Dom Bernard Capelle, Bulletin de théologie ancienne et médiévale, t. I, pp. 154-155). Por outro lado, os adeptos do culto de Mitra assimilavam a confraria mitraica a uma “santa milícia”: “aí entrando, o neófito era obrigado a um juramento (sacramentum) similar àquele que se exigia dos recrutas do exército” (Franz Cumont, Les religions orientales dans le paganisme romain). Aqui portanto “sacramentum” recebe incontestavelmente o sentido de Iniciação (cf. P. Battifol, Études d'histoire e de théologie positive, 1907).
Vê-se melhor assim as conotações que predestinavam o “sacramentum” pagão a servir de nome próprio ao sacramento cristão. Reata no entanto que ele traduz então o “mysterium” grego e que dele transmite a significação central de “realidade divina invisivelmente presente e agente em uma forma humana, linguageira e gestual”. Esta dimensão “esotérica” é sempre premente no emprego que os escritores cristão fazem deste termo, e logo na consciência da Igreja. Mesmo quando “sacramentum” será reservado à designação exclusiva do sacramento (em geral), guardará sua conotação de mistério.
NOTAS