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id da página: 9756 Charles Mopsik – Ritos que fazem Deus - Fazer Deus

Mopsik Fazer Deus

Charles Mopsik – Ritos que fazem Deus


MOPSIK, Charles. Les grands textes de la Cabale: les rites qui font Dieu : pratiques religieuses et efficacité théurgique dans la Cabale, des origines au milieu du XVIIIe siècle. Paris: Verdier, 1993

Na obra de João Escoto Erigena (cerca de 810-880), um dos maiores neoplatônicos cristãos da Idade Média, se encontra igualmente a ideia de que Deus é feito (deus factus). Mas ela não tem ainda o sentido que ela terá na cabala. Como escreve J. C. Foussard resumindo o pensamento do filósofo: «Se Deus se manifesta no que ele cria, se segue que Deus se cria, e portanto que em um sentido, a criação, é Deus criado, Deus feito.» Vê em que termos João Escoto formula seu pensamento:

«Porque em tudo o que é, a natureza divina aparece, enquanto que por si mesma ela é invisível, não é incongruente dizer que ela é feita.»


Em definitiva, «Deus é feito» por sua própria obra da qual ele é ao mesmo tempo o termo último e a origem primordial. A vontade e a ação conscientes dos homens não intervêm neste processo pelo qual Deus advém em plenitude através de sua criação que o «faz» de forma natural e mecânica, contrariamente à concepção cabalística segundo a qual apenas uma ação regulada pelos mandamentos divinos modela a divindade e realiza sua plenitude. No entanto na medida em que, de acordo com João Escoto, os homens são eles mesmos a mais eminente e a mais perfeita das criações, é talvez lícito dizer que eles fazem Deus em conservando e em aperfeiçoando sua natureza intrínseca, em a conformando à vontade de seu Criador. A concepção dos cabalistas e aquela de João Escoto não são portanto talvez tão afastadas como parece à primeira vista. Para nossos mistagogos, a teofania não é a manifestação do divino no sentido de uma retirada dos véus que o escondem, mas sua constituição e sua edificação no interior do mundo criado. Lhe dar a possibilidade de se manifestar no universo criado, equivale a lhe dar existência.

Uma concepção comparável encontrou um porta-voz eminente no mundo muçulmano. Henry Corbin desenvolveu por longo tempo e excelentemente temáticas semelhantes na obra que ele consagrou a Mohyiddin Ibn Arabi (1165-1240). Ele nos relata, deste grande teósofo e místico do islã medieval originário da Andaluzia, várias fórmulas que evocam aquelas de nossos cabalistas. Eis algumas amostras: «É por nossa teopatia que nós O constituímos como Deus.» «Se ele nos deu a vida e a existência por seu ser, eu lhe dou também a vida, eu, em o conhecendo em meu coração.» A relação entre o Senhor e seu fiel é tematizada por H. Corbin através do que ele chama uma unio sympathetica. Por ela o fiel «dá o ser» a seu Senhor divino (ibidem). Corbin explica:

«Isso não quer dizer que o homem substancializa a Essência divina que está para lá de toda denominação e de todo conhecimento; o que é visado, é o “Deus criado nas crenças” (al-Ilah al-makhluk fi’l-mo’taqadat), quer dizer o Deus se apresentando em cada alma na forma do que crê esta alma segundo sua aptidão e seu conhecimento, sob o símbolo que ela atualiza por conta da lei de seu ser mesmo .... De tudo isso eu “crio” o Deus em que eu creio e que eu adoro .... Contudo isso não é ainda senão um aspecto da unio sympathetica, aquele justamente que, se o isola, pode fazer ao mesmo tempo a alegria maligna do crítico racionalista e o escândalo do teólogo ortodoxo .... Porque quando se fala do “Deus criado”, é preciso perguntar: quem é na realidade o sujeito ativo que cria? É verdadeiro dizer, certamente, que sem o Divino (haqq) que é a causa de nosso ser, e sem nós que somos a causa de sua Manifestação, a ordem das coisas não seria o que ela é, e Deus não seria nem Deus nem Senhor. Mas por outra parte, se é tu, o vassalo deste Senhor, que deténs o “segredo de sua suserania”, porque ela se realiza por ti, entretanto, pelo fato que tua ação que o propõe seja sua paixão em ti, tua paixão dele, o sujeito ativo na realidade não és tu em uma autonomia fictícia. Na realidade, tu és o sujeito de um verbo no passivo (tu és o ego de um Cogitor)» (ibidem).


Em que medida estas reflexões valem elas também para nossos cabalistas? Convém antes de tudo notar que a instauração do divino tem para estes últimos um caráter menos individualista que para Ibn Arabi. Não é apenas «seu» Senhor que é modelado pelo cabalista, mas o Senhor que é tal para todos seus fiéis. Uma outra diferença, que não é sem relação com a precedente, reside na substância da ação instauradora: para o cabalista, não se trata apenas de «conhecer Deus em seu coração», ou antes este conhecimento não é um ato de adoração puramente interior, ele é tecido pelo estudo da Torá, no nível, sem dúvida, de seu sentido escondido, pela efetivação dos mandamentos e pelo culto litúrgico. Tudo acontece como se, o que é interioridade pessoal para Ibn Arabi, fosse, para nossos cabalistas, a Torá ela mesma, objeto de meditação e reservatório das leis divinas. A Torá não é apenas um livro revelado, ela é a teofania por excelência através da qual Aquele que revela Se revela, advém na criação, «nela Se cria» por sua vez. A condição que o objeto «Torá» seja assumido como um livro de estudo, que haja homens para o receber, o cumprir e fazer dele o que ele é. O «fazer Deus» para os cabalistas tem uma tonalidade mais prática, mais nitidamente «teúrgica» que para Ibn Arabi, de acordo com a explicação que H. Corbin deu dela. Os cabalistas parecem menos libertos da religião coletiva e das observâncias materiais da Lei que não parece o ser Ibn Arabi que as interioriza mais. Fica que uma parentela entre estes espirituais platonizantes de diversas origens não pode ser negada, ela se impõe mesmo com força, apesar da distância das pertenças confessionais. As homologias dificilmente contestáveis entre as concepções teúrgicas do hermetismo egípcio helenizado, do neoplatonismo greco-romano tardio, da teosofia sufi, do neoplatonismo erigeniano e da mistagogia judaica não devem certamente nos fazer esquecer as profundas diferenças culturais, religiosas e doutrinais que os separam. Mas estas diferenças, muito reais, não chegam a apagar a comunidade de intuição que reúne estas espiritualidades, monoteístas ou não, para as quais a existência de Deus depende dos homens, pelo menos a um certo grau.

Os cabalistas ligaram estreitamente esta dependência às observâncias da religião coletiva, que eles perceberam como o único meio de conferir à divindade uma atualidade vivente nos tempos do Exílio. E esta divindade vivificada pelo cumprimento dos mandamentos da Torá foi identificada com esta, e isso de forma deliberada e com a ajuda de todo um arsenal especulativo e exegético. Ao invés de serem olhadas como um fator de equilíbrio para a sociedade, as regras da Lei foram consideradas como as condições de existência e de harmonia da divindade. A sociedade mesma cessou de ser separada de Deus e se tornou uma sorte de hipóstase. Uma célebre fórmula de um cabalista do século XVIII resume perfeitamente esta situação: «Deus, a Lei e Israel são o mesmo.» Embora esta sentença possa ser entendida como a expressão mística a mais forte e a mais impressionante de um iluminado, nós preferimos a tomar por uma sorte de constatação traduzindo em termos teosóficos uma realidade de ordem sociológica inscrita na mentalidade coletiva do povo judeu desde a Idade Média e sem dúvida mesmo antes: a consciência de ser o grupo humano que, único no mundo, cumpre a vontade do verdadeiro Deus gravada em Sua Lei. Este povo, este Deus, esta Lei, são, a vista desta consciência, três facetas de uma única realidade. A tradução teosófica e teúrgica deste dado relevando da história das mentalidades e da sociologia histórica é uma forma de revelar um precioso «segredo», que é menos um mistério teológico que o conteúdo implícito do pensamento de uma sociedade e de uma cultura religiosa. A propósito de iniciação aos mistérios divinos, é uma verdadeira introdução à estrutura íntima da psicologia da sociedade que a cabala teúrgica oferece a seus adeptos. Se o cabalista pode crer que o homem fiel à Lei «faz Deus», é que ele conseguiu a objetivar um conteúdo implícito do pensamento espontâneo da sociedade à qual ele pertence; que ele chegou a dar uma forma explícita ao fato social universal entrevisto por Mauss: não é Deus que faz o culto, é o culto que faz Deus. Em conferindo a este uma forma estável no tempo, em fixando sua representação no espírito dos homens e em estabelecendo uma comunicação regular entre os membros de uma sociedade e uma potencia que a ultrapassa e onde ela se projeta, o culto age muito eficazmente para modelar uma personalidade divina e assegurar sua perenidade contra o desgaste natural. Perenidade que é ao mesmo tempo aquela da sociedade. Em agindo sobre Deus, a sociedade age sobre ela mesma com eficácia e rigor.