O que é, pois, esse Algo que se oculta por trás do véu do fenomênico, fazendo do que chamamos «realidade» uma rede de símbolos em grande escala que indicam de forma vaga e obscura o que se encontra por trás deles? A resposta é imediata. É o Absoluto, a Realidade autêntica ou absoluta que Ibn Arabi chama al-haqq. Deste modo, apesar de que a suposta «realidade» não seja mais que um sonho, não se trata de uma completa ilusão. É uma aparência particular da Realidade absoluta, uma forma determinada de sua manifestação (tajalli). É um sonho com base metafísica. «O mundo do ser e do devir (kawn) é uma imaginação», diz-se, «mas é, em verdade, a Realidade em si».
Assim, pois, o mundo do ser e do devir, ou a suposta «realidade» consistente em formas, propriedades e estados diversos, é em si um variado tecido de fantasia e imaginação, mas indica, ao mesmo tempo, a Realidade, sempre e quando se saiba considerar essas formas e propriedades não em si mesmas, mas como manifestações da Realidade. O homem capaz disso alcança os mistérios mais profundos da Via (tariqah). [Toshihiko Izutsu – Sonho Realidade]
O capítulo Adão [na Sabedoria dos Profetas] começa com o Real (al-Haqq), que também pode ser traduzido como a Verdade ou a Realidade. Significa a Essência de Deus, a Realidade Última além de todas as distinções, polaridades e relativizações. A Essência ou o Si não é nem isto nem aquilo, nem é não isto ou não aquilo, estando além de todas as qualificações. Ibn al-Arabi emprega al-Haqq, assim como outros metafísicos islâmicos, não apenas como uma expressão alternativa para Allah, mas também por um senso de propriedade espiritual ou adab. Isso não quer dizer que o uso do Nome Allah como tal seja considerado uma blasfêmia ou um ato de tomar o Nome Divino em vão. Pelo contrário, o uso do Nome Allah invoca uma presença que é, de certa forma, excessiva para alguns contextos. Entre os sufis, o Nome Allah não é apenas o Nome Supremo que engloba todos os outros Nomes, mas é também o Nome pessoal de Deus, como o é para todos os crentes. Allah carrega consigo um 'tremendum' não apenas em virtude da onipotência de Deus e da Sua total transcendência, mas também como resultado da impressionante proximidade que Ele possui em virtude de ser o Nome que tudo abrange. Ao empregar um Nome como o Real, pode-se evocar a onicompreensividade e a totalidade de Deus sem abusar do Nome Allah. Em quase todos os casos em que alguma forma de identidade é implicada ou declarada entre o Divino e as Suas manifestações, um Nome diferente de Allah é usado. Não é uma questão do uso do Nome Allah como tal, mas de usá-lo com um adab pobre e com uma autoindulgência pseudomística. O uso de al-Haqq por Ibn al-Arabi em instâncias onde a divindade e a criatura parecem estar trocando de lugar no texto é uma expressão da presença operante e vivida que o Nome Allah evoca para o autor de tal obra e, tradicionalmente, para a maioria dos seus leitores. A economia do uso do Nome Allah e de outros Nomes que denotam a Essência, como al-Haqq, expressa um reconhecimento de que não se fala sobre Deus da mesma forma que se fala sobre outras categorias conceituais. [Caner Dagli, Fusus]
O princípio básico aqui é a noção de haqq, que é um substantivo e um adjetivo que significa verdade e verdadeiro, realidade e real, propriedade e próprio, retidão e reto. Como um nome divino, al-haqq significa o Real, a Verdade, o Reto, e é tipicamente justaposto com khalq, criação. Mas tudo tem um haqq que lhe pertence, o que significa que tudo tem uma situação apropriada, um modo correto de ser, uma maneira adequada de mostrar o Real para nós. O sentido de adequação e retidão em haqq é muito forte, e as palavras 'real' ou 'verdade' simplesmente não o expressam em inglês.
Dizer que tudo tem um haqq é dizer que tudo tem um modo de ser reto e apropriado e que, além disso, é nosso dever diante de Deus, o Real, reconhecê-lo e agir de acordo. O Haqq divino faz exigências sobre nós através das manifestações apropriadas de si mesmo, que são os haqqs na criação. Wujud não é simplesmente 'existência,' aquilo que é, é também aquilo que faz exigências morais e éticas sobre nós através da sua própria natureza. É haqq, o que significa que é reto, verdadeiro, e apropriado, e só ele é real. A sua realidade o torna cognitivamente indefensável ocupar-se com o irreal, e a sua retidão e adequação o tornam moralmente absurdo levar qualquer outra coisa em consideração na atividade humana. Todas as manifestações de wujud, todas as autorrevelações do Real, dirigem-se a nós pessoalmente, e nós seremos responsabilizados por reconhecer o haqq em cada coisa e agir de acordo, simplesmente porque o Real sozinho fornece os padrões para julgar a atividade reta e apropriada. Cada coisa tem um direito sobre nós, e portanto cada uma é nossa 'responsabilidade' (outra palavra que pode traduzir haqq). Dado que todas as coisas manifestam o Haqq, cada uma possui um haqq, e nós seremos responsabilizados por todos os haqqs que nos pertencem especificamente. Portanto, precisamos de uma escala pela qual possamos reconhecer os haqqs das coisas e a partir da qual possamos aprender a maneira adequada e própria de lidar com elas.
O Profeta disse, ‘O teu si tem um haqq sobre ti, o teu Senhor tem um haqq sobre ti, e o teu cônjuge tem um haqq sobre ti, então dê a cada um que tem um haqq o seu haqq.’ Em outras palavras, ‘Dê a cada coisa que tem um devido de direito’ — e tudo tem algo que lhe é devido de direito — ‘o seu devido de direito.’ Este dar às coisas os seus haqqs é para Ibn Arabi a própria definição da tarefa humana no cosmos. A palavra tahqiq, que temos traduzido aqui como ‘realização’ (‘verificação’ em SPK) significa também ‘dar às coisas o seu devido de direito’ ou ‘reconhecer o haqq de cada coisa e agir de uma maneira apropriada.’ A quinta forma da mesma raiz, tahaqquq, que também pode ser traduzida como ‘realização,’ embora tenha um sentido menos transitivo do que tahqiq, significa encontrar o haqq de cada coisa em si mesmo e viver plenamente de acordo com esse haqq. Se Ibn Arabi considera a realização como o mais alto estágio da perfeição humana, é porque os Realizadores são aqueles que vivem à altura do Real, do Reto, do Verdadeiro, do Próprio, do haqq. Eles o fazem não apenas nas suas mentes e nas suas compreensões, mas também em cada ato que realizam e em cada palavra que pronunciam. A sua atividade brota das suas características de caráter, e as suas características de caráter não são nada senão o haqq humano dos nomes divinos, nomes que exibem os seus traços em seres humanos porque as pessoas foram criadas na forma de Deus, o Haqq. Os Realizadores são aqueles que reconhecem que cada nome divino nomeia apenas al-Haqq, o Real. Eles reconhecem que o objeto nomeado, o haqq, está presente não apenas na Essência Divina, mas também na autorrevelação divina, que é o cosmos e o si. Eles reconhecem que cada nome tem um haqq específico em cada um dos seus locais de manifestação, o que significa que cada um aparece de forma apropriada e própria nas coisas criadas e cada um faz exigências sobre eles. Quando Ibn Arabi cita o versículo Corânico, Ele deu a cada coisa a sua criação (20:50), ele tipicamente quer dizer que o Real deu a cada coisa criada uma medida apropriada, um devido de direito, um vislumbre de wujud, uma teofania dos nomes divinos, um haqq. A este respeito o khalq ou ‘criação’ de cada coisa é idêntico ao seu haqq, porque o Haqq deu à coisa o seu khalq, então esta criação faz exigências sobre nós. Devemos reconhecer o haqq de cada coisa e agir de acordo. Porque apenas os seres humanos foram feitos na forma integral de Deus, eles sozinhos são capazes de reconhecer e realizar o próprio Haqq e o haqq de tudo em wujud, que é o cosmos inteiro.
Em si mesmo, o Haqq — que é o wujud Real — não tem forma, ou melhor, através da sua infinitude e ilimitação, wujud assume cada vínculo e cada forma sem se tornar vinculado e constrito. Os seres humanos foram criados na forma de Deus, o que significa que eles foram criados na forma do somatório dos nomes divinos, ou de acordo com cada aspecto e cada face do Haqq, de tal forma que cada ser humano é a forma do wujud Real. Pelo mesmo motivo, porque wujud é infinito e não constrito, a forma humana perfeita é a forma de nenhuma forma. Ser um ser humano mortal é ser delimitado e vinculado por atributos e qualidades específicos, mas ser perfeitamente humano é ser libertado de todas as limitações e constrições em virtude de ter retornado à disposição humana inata, que é wujud mesmo. Portanto, os mais altos dos seres humanos perfeitos são aqueles que alcançam a Estação de Nenhuma Estação. O seu haqq não é ser vinculado e atado por nenhum haqq específico, mas dar a cada possuidor de um haqq — a cada coisa em wujud, a cada autorrevelação do Haqq — o que lhe pertence de forma apropriada. Eles são os amigos de Deus maometanos. Como Maomé, eles manifestam toda a perfeição divina e humana, e como o próprio Deus, eles são nomeados por todos os nomes e exibem a atividade apropriada em cada situação, dando a cada possuidor de um haqq o seu haqq.
A importância suprema que Ibn Arabi dá à noção de haqq ajuda a explicar por que o versículo Corânico mais comumente citado nos seus escritos é 33:4, que é geralmente traduzido como "E Deus fala a verdade, e Ele guia no caminho." O Shaykh conclui a maioria dos capítulos, a maioria das seções dos capítulos, e a maioria das discussões semi-independentes dentro dos capítulos com este versículo. À primeira vista, e dada esta tradução, a implicação de citar este versículo parece ser que ele acaba de falar em nome de Deus e forneceu a verdade do assunto, então os seus leitores devem aceitá-lo dele. No entanto, preferimos traduzir o versículo como "E Deus fala o haqq, e Ele guia no caminho." Em outras palavras, a exposição Corânica de Deus dá à situação o seu devido de direito. A sua fala revelada expressa como a face do Real é encontrada em todas as coisas, e delineia os deveres intelectuais, espirituais, e morais dos servos de Deus no cosmos. Apenas realizando estas palavras podem os Seus servos esperar viver à altura do seu servidão e vice-regência, e isso significa não apenas reconhecer a verdade das palavras, mas também colocá-las em prática em todos os níveis. Assim, a constante repetição deste versículo por Ibn Arabi serve como um lembrete ao leitor de que o propósito da vida humana é definido pelo Haqq, que é Deus; é Ele sozinho que fala o haqq, que não é a ‘verdade’ num sentido cognitivo, lógico, ou epistêmico, mas sim a verdade existencial que é exatamente apropriada à situação real dos seres humanos em respeito ao seu propósito no cosmos. É a verdade como apenas Deus pode expressá-la, porque apenas o Haqq compreende cada haqq individual — o devido de direito de tudo no universo. [William Chittick, The Self-Disclosure of God]