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Nada

COSMOLOGIAONTOLOGIASER — NADA


VIDE: Martin Heidegger, Apophasis

NADA (NICHTS: nada, o não ser, a privação, a finitude)

Dizemos que nada é privação do ser. Como tal, nada nem sequer é oposto ao ser. Não há, simplesmente. Talvez, ens rationis, ente lógico, se é que não é "fantasma da mente". Se no pensamento medieval Deus é o ser propriamente dito, todo o ser, o ser em plenitude, e assim, fora de Deus nada é ou é nada, pode haver no pensamento medieval algo que não seja Deus? Não ser Deus significa, portanto, não ser? E se atribuímos aos "algos" que não são Deus o "qualificativo" de ente ou ser, Deus não pode ser algo no sentido da entidade num tal modo. Assim, Deus não é ente, pois o ser de Deus tem sentido do ser totalmente diferente ao da entidade algo. Em Deus não sendo, isto é, não-ente, podemos dizer que Deus é nada. Numa tal sequência de raciocínio que dá voltas a partir e dentro de um sentido do ser abstrato lógico, de imediato se percebe que nada assim empostado não faz jus à causa ela mesma da fala do nada, dentro do pensamento medieval. Para que, aqui, de alguma forma, possamos nos mover com maior aderência ao pensamento medieval, é necessário colocar a fala acerca do nada na ambiência do início da criação. Ali se diz: Deus criou o universo ex nihilo sui et subiecti (do nada de si e do substrato prejacente). Essa niilidade não se refere, portanto, ao ente prejacente "objetivo", nem ao ente previamente "existente" enquanto ente sujeito e agente de uma ação eficiente, na produção artesanal de confecção de uma obra a partir de uma dada matéria em vista de um determinado fim (portanto, causa eficiente, final, material e formal), mas sim, diz respeito a quê? Podemos dizer: da niilidade do desprendimento, da Abgeschiedenheif! Com outras palavras, a criação não é outra coisa do que (cf. em Nicolau de Cusa o conceito de non aliud) o vir à fala do Deus da Abgeschiedenheif, desprendido, ab-soluto, no que há de mais próprio dele mesmo: A pura liberdade da gratuidade, a cordialidade, tomando corpo no mistério da encarnação. A criação é a bela graça do esplendor do corpo de Deus: Pai, Filho Unigênito, no Espírito Santo, na sua unicidade absoluta, feito homem, em Jesus Cristo, e o homem, com toda a sua circunstância, feito filho no Filho, na liberdade dos filhos de Deus. Se isto for de alguma forma viável na interpretação do mundo medieval, então o nada não é privação do ser, não é a possibilidade de não-contradição do ser do lógico-matemático-formal, mas sim a presença entranhada da dinâmica intratrinitária, a vida íntima da deidade, como cintilações (scintilla)1 da sua benignidade, na filiação divina, como o mistério da encarnação. Nada então pode significar de um lado a liberdade, o desprendimento, a soltura ab-soluta do sim da doação cordial da deidade, de si mesma na jovialidade decidida da sua liberdade, o deixar-ser, o estar à vontade da sua gratuidade. E o ente criado é também nada, não enquanto privação ou negação da entidade, mas é o em sendo concreto, de-finido, portanto bem decidido da grata receptividade e também desprendida, solta, ab-soluta, partícipe, prenhe da gratuidade desse Deus, cujo ser, cuja deidade se chama o Um, o "Uno" desprendido da dinâmica da "geração e processão" trinitária.

Quando se esquece que no pensamento medieval da criação tudo que a ela se refere, em parte e em todo, foi subsumido pelo ontologicum da filiação divina, na dinâmica da vida intratrinitária, e que este é o "horizonte" a partir e dentro do qual se pronuncia a fala medieval, se dá a queda de nível na manutenção da limpidez dimensional de interpretação, e surgem problemas como o do panteísmo, dualismo, maniqueísmo, realismo, conceptualismo, idealismo da teoria de conhecimento, projetados para dentro do pensamento medieval; todos eles de alguma forma provenientes da dominação operativa de um determinado sentido do ser, talvez até certo ponto inadequado para explicitação do "mundo" de entidades do tipo físico-material, mas insuficiente para o aclaramento da realidade viva, no vigor e na ternura da liberdade.

Quint (tomo I p. 15 nota 1 de p. 14): «Es decir, que Dios recoge la nada del alma». En cuanto al contraste de algo y nada «se piensa en la contradicción entre el ser-alma individual (=iht) y el no-ser-alma (=niht)». No se trata pues, de la nada absoluta sino de la «privación del ser propio del alma». «Se ubica por debajo» = «understân» corresponde, según Quint (ibídem) exactamente a «substare» en latín = ser substancia, cuya traducción es difícil. Acaso se podría decir: «se hace substancia por debajo de su nada».


[Mestre Eckhart: Excertos do glossário do tradutor, Enio Paulo Giachini, da ótima versão portuguesa dos "Sermões Alemães" de Mestre Eckhart]

NOTAS:
1 Eckhart usa as palavras Fünklein der Seele (faiscazinha da alma), scintilla (centelha) e Burg, Bürglein der Seele (burgo, castelo, cidade, cidadela, castelinho da alma).


Boehme repete que Deus é tudo. No entanto é preciso que este tudo aceda ao Ser, pois nela mesma a Divindade primordial é o puro Nada. É este puro Nada que vai aspirar a se manifestar e para isto fazer, é preciso que algo seja que de certo modo lhe sirva de suporte para nos aparecer e para se aparecer a si mesmo. Aspirar a ser conhecido, é desejar este algo. O ciclo da manifestação divina não faz passar do puro Nada a algo.

Falar da Divindade primordial como de um puro Nada, não é de jeito nenhum fazer profissão de ateísmo. Este puro Nada é para Boehme a transcendência absoluta. Sua existência se dá por si, simplesmente a Divindade primeira nos escapa totalmente. O que é ela nela mesma, não manifestada? Não nos podemos representá-la senão como a negação absoluta de tudo o que é, quer dizer de tudo o que se oferece a nossa percepção. Sua perfeita transcendência significa que ela é absolutamente separada disto que somos e percebemos. Com efeito, não apreenderemos jamais senão nosso próprio ser. Para se fazer conhecer, a Divindade deverá aí se acomodar a fim de poder habitá-lo.

Para falar em linguagem moderna, é necessário que esta transcendência se torne imanente. Ora, esta imanência não se concebe senão em razão deste algo que não existe de toda eternidade e que é preciso fazer surgir do Nada. É neste algo que Deus vai se engendrar pelo homem e por ele mesmo. [Pierre Deghaye: O Nascimento de Deus]


O nada não é algo propriamente tal que se dê ademais do ser, mas unicamente sua falta ou deficiência. Em todos os idiomas do mundo o que se conceitua como nada é uma negação de ser.

Costuma-se distinguir:

1) Nada relativo: ausência de certa realidade ser real (exemplo: nesta sala não há nada...; sobre este livro não há nada...). Esta ideia de nada é positiva. Apresenta-se de várias espécies:

a) pura negação, quando consiste na simples ausência de uma coisa que não é normal possuir;

b) privação, que consiste na ausência de uma coisa que é natural ter. A cegueira, numa pedra, é uma simples ausência (carência); no homem ou no animal, uma privação.

2) Nada absoluto: ausência total de toda a realidade.

Esta segunda nega não só a realidade mas a possibilidade, enquanto a primeira nega apenas a possibilidade.

Assim na frase bíblica: “Deus criou o mundo do nada”, este termo é tomado na primeira acepção. O mundo era ainda nada como realidade, não porém nada como possibilidade de ser.

O ser é concebido por si mesmo. Já o mesmo não se dá com o nada. Se digo que este livro é insensível, é porque sei o que é, e como é um ser sensível. Daí considerar-se o mal como um nada de bem, que só é conhecido pelo bem do qual é ele uma ausência ou uma privação. A imperfeição é a ausência de um bem ou de algo melhor; a falta, a privação de um bem que se deveria normalmente possuir; a desordem, então, seria a falta de ordem, concebida pela ordem que deveria estar em seu lugar; a imperfeição, pela perfeição, pois julgo da imperfeição de uma circunferência traçada, comparando-a & circunferência perfeita que posso conceber (exemplo: da timesis parabólica, já por nós estudada em outras obras).

Dessa forma, o nada é obtido pela representação de um ser real ao qual negamos realidade.


A ideia do nada é uma pseudo-ideia. Pensar nele é pensar em alguma coisa, cuja essência consiste em não existir. O nada é impossível, a passagem dele ao ser é um pseudo-problema.

É o ser que não precisa de explicação e não o nada. (Era o que sentia Bergson, reafirmando uma velha tese da filosofia).

Realmente a ideia dele implica sempre a ideia de alguma coisa à qual se nega existência. É uma ideia negativa. Mas, como ideia, é verdadeira toda ideia negativa, e a do nada absoluto não é contraditória em si. O que é contraditório é admitir existência do nada, um nada existindo, como ser real, espécie de reserva misteriosa de onde o criador tirou o real. Ele não é positivo; é a negação de toda realidade positiva.

Lembremo-nos da frase de Bossuet ao negá-lo: “Que haja apenas um momento em que nada exista, e eternamente nada será . Não se vê que suprimindo pelo pensamento tudo o que existe, observamos logo que suprimimos, em sua fonte, toda possibilidade de existência?

Em resumo: Há três posições possíveis sobre o nada:

1) que absolutamente não é;

2) que é, mas é outra coisa diferente que o nada;

3) que é apenas nada.

A primeira é a tese de Parmênides. Só o ser é; unicamente o ser é. A afirmação do ser do nada é uma ilusão. Para Demócrito, o nada é o vazio que separa os átomos. Os átomos são o ser de Parmênides, cortados em pequenas partes, porque há o nada.

Portanto é, mas diferente do nada absoluto: é a ideia de Platão. A diversidade só pode explicar-se pelo nada não-absoluto. Ele é a alteridade. Spinoza, mais tarde, dirá que toda determinação é negação. Platão diz que para determinar uma ideia é preciso que ela não seja tal outra ideia... O não ser é; o nada é, porque toda coisa é o que ela é, precisamente porque não é tal, ou tal outra coisa.

Para Aristóteles, naturalmente, não há nada absoluto, mas relativo. As coisas podem ser em ato ou em potência.

A ideia do ser puro implica a do nada, diz Hegel, pois ao pensar naquele vemo-lo logo em face deste. A ideia do ser puro leva-nos a ele, mas a do devir leva-nos ao domínio do real e do concreto.

Também, para Hegel, não há o nada absoluto.

Para Heidegger, a negação só é possível porque há um nada anterior. Não é a negação que torna o nada possível, mas este que torna a negação possível. Como o ser não pode ser atribuído a ele, Heidegger criou o têrmo nichten (nadificar, anihilar). O nada não é, ele nadifica; nadifica a si mesmo e nadifica as outras coisas. É uma atividade de destruição, cuja realidade ele afirma.

O nada absoluto é indefinível como o próprio ser. No entanto, é verdade, que em seus últimos trabalhos, Heidegger não considera o nada um absoluto negativo, mas quer vislumbrar, nele, um véu do ser através do qual talvez Deus se anuncie de maneira incompleta para nós. De qualquer forma, Heidegger termina por conceder-lhe uma atividade e, consequentemente, atribuir-lhe um ato, uma eficacidade e, finalmente, um ser. Desde que se lhe dê uma eficacidade, não o excluímos mais do ser, transitando, portanto, de nada para um conteúdo de ser. Surge ainda, em filósofos modernos, uma especulação sobre ele, decorrente da problemática que apresentam as negatividades, sobretudo neste momento histórico, em que o impulso acósmico atua de tal modo ante a agudeza dos problemas sociais, que favorece o surto que se observa, desde dias do século passado, das atitudes nihilistas. A presença desse problema com suas características é bem um símbolo de nossa época, e a postulação do nada é o melhor símbolo do acósmico.