BUGAULT, Guy. L’Inde pense-t-elle ? Paris: Presses universitaires de France, 1994
NAGARJUNA: O AUTOR E SUAS OBRAS
Embora sua historicidade seja certa, sabemos muito pouco sobre a vida desse monge budista indiano, além de afabulações mais ou menos lendárias. Acredita-se que ele tenha vivido no século II ou III, sete ou oito séculos após o Buda (560-480 a.C., de acordo com a datação antiga). Ele é o fundador da chamada Escola Média e o autor das Estrofes Médias por excelência (Madhyamakakārikā). As afinidades entre sua escola e a literatura de Prajñāpāramitā ou sapiência última são óbvias, embora os detalhes de sua relação precisem ser esclarecidos de acordo com o desejo de P. Demiéville. Nem mesmo o fato de Nāgārjuna pertencer à corrente do Grande Veículo ou Mahāyāna (em oposição ao Veículo Menor ou Hīnayāna, de nossa era em diante) foi questionado por A.K. Warder. Entretanto, a menção de Nāgārjuna à "carreira do bodhisattva" e o argumento de D.S. Ruegg nos encorajam a manter a visão tradicional sobre esse assunto.
Quanto às suas obras, devemos distinguir entre aquelas cuja autenticidade ninguém contesta; aquelas que são atribuídas a ele, mas que poderiam ser de um discípulo e pertencer, de qualquer forma, à mesma corrente de pensamento; e aquelas, finalmente, que têm todas as chances de serem apócrifas. Vamos desconsiderar esses últimos. Na segunda categoria, vamos citar o importantíssimo Tratado sobre a Grande Virtude da Sabedoria (Mahāprajñāpāramitāśāstra). D.S. Ruegg reconheceu prontamente a maneira como Nāgārjuna o fez. No entanto, o tradutor da obra, Monsenhor E. Lamotte, que a está retransmitindo para nós a partir da versão chinesa (já que o original em sânscrito foi perdido), prefere pensar que seu autor é do século IV, embora seja ente a continuidade de Nāgārjuna. Tão rica quanto consistente com o pensamento do mestre, ela é inestimável por lançar luz sobre alguns dos textos elípticos do mestre. Quatro hinos (Catuḥstava) são geralmente atribuídos a Nāgārjuna. Seu interesse está em destacar um fervor lírico e devocional, que pode escapar completamente ao leitor apressado dos textos que estamos prestes a examinar. Por fim, entre as obras cuja autenticidade é plenamente reconhecida, mencionemos a Guirlanda de Joias (Ratnāvāli), a Epístola Amistosa (Suhṛlleka) ao Rei Gautamīputra e, acima de tudo, dois textos em que seu virtuosismo lógico-dialético brilha: Para Afastar Discussões Vãs (Vigrahavyāvartanī) e as Estâncias do Meio por excelência (Madhyamakakārikā). As estrofes são, de longe, seu trabalho mais fundamental, e é nelas que concentraremos toda a nossa atenção.
SITUAÇÃO HISTÓRICA DE NAGARJUNA: SEUS INTERLOCUTORES
O trabalho comporta 447 karika, estrofes ou versos de caráter didático e mnemônico, 449 se se incluírem as estrofes dedicatórias iniciais. Cada estrofe, que se apresenta aos olhos sob a forma de dístico, conta 32 sílabas que se decompõem em quatro grupos de oito sílabas ou pada. O gênero karika é conciso ao extremo, até sibilino no caso de Nagarjuna, dado o viés paradoxal de sua mente e sua destreza em desvanecer-se quando se crê capturá-lo. Pariksa tende para parijna: examinado a fundo o objeto sobre o qual se disputa transparece-desaparece. Não se estranhará, portanto, que as Estrofes tenham suscitado ao menos oito Comentários, dos quais o mais célebre é o de Candrakirti, a Prasannapada (início do século VII). Nela se encontra inserida a única recensão sânscrita das Estrofes de que se dispõe, ao lado de cinco versões tibetanas e três chinesas. Considerar-se-á aqui apenas o original sânscrito.
O conjunto do texto é distribuído em 27 capítulos, cada um versando sobre um tópico familiar à comunidade budista. Pois a discussão exerce-se, antes de tudo, no interior da comunidade. Nagarjuna tem por interlocutores e adversários privilegiados alguns de seus correligionários, mais precisamente os Abhidharmika, partidários da Escolástica que se elaborou, ao longo dos séculos, entre as seitas budistas, particularmente entre os Vaibhasika-Sarvastivadin. De passagem e acessoriamente, visa-se também os lógicos bramânicos, os Naiyayika, que têm o erro, a seus olhos, de serem realistas e substancialistas. Não é realmente o caso de seus adversários budistas. Estes professam a ausência de um eu substancial, mas têm o erro de supor sob o processo fenomenal suportes, evanescentes certamente mas ainda dotados de um mínimo de ser discreto e autônomo, os dharma, espécies de pontos-instantes cuja fulguração engendra a série de aparições e desaparições, o devir carmico. Além disso, hipostasiam aspectos da experiência (dor, impermanência, o ato, o tempo, etc.) concebidos como outras tantas entidades escolásticas, ou seja, imaginárias, nas quais se deixam aprisionar em seguida: estando então em perigo de reconstituir uma quase-ontologia, uma quase-metafísica, todas coisas contra as quais o Buda havia, cuidadosamente, colocado em guarda seus discípulos. Pois seu ensinamento era essencialmente prático e terapêutico.
Como, então, se formou, apesar de tudo, uma escolástica no seio da comunidade, eis o que importa compreender para situar corretamente a discussão entre Nagarjuna e seus correligionários Abhidharmika. Tanto quanto se possa julgar pelo Cânone pali, uns dois ou três séculos após a morte do Buda, este definiu sua doutrina com maior frequência de uma maneira ocasional, em situação. Isso é verdadeiro para a regra monástica, o Vinaya, quanto para o ensinamento propriamente dito, os Sutra. O Buda não entrou no detalhe da vida monástica no momento de fundar sua comunidade, como se depositam hoje os estatutos de uma associação no momento de declará-la. É antes, por ocasião de um caso litigioso que lhe é submetido, que o Bem-aventurado decide “proíbo-vos, ó monges” ou bem “permito-vos, ó monges”. É um pouco a mesma coisa para os Sutra ou a doutrina propriamente dita. Cada Sutra começa pela fórmula estereotipada, colocada na boca de uma testemunha, evam maya srutam ekasmin samaye, “eis o que ouvi em tal circunstância”. Assim autenticado, o ensinamento é igualmente circunstanciado. Encontra-se inserido em um relato, uma situação terapêutica. Daí, também, respostas adaptadas e graduais, ad hominem, até diferentes por ocasião de diversos encontros com um mesmo interlocutor. Assim com o célebre religioso errante Vacchagotta. Em um caso, o Buda devolve suas questões sem resposta, como nas antinomias kantianas. Em outro, Vacchagotta perguntando-lhe: “Venerável Gotama, há, um atman?”, o Buda não responde, não responde.
Os monges podiam, portanto, ficar perplexos, após a morte do mestre, e discutir sobre isso nos dias de chuva. É a uma dupla necessidade de elucidação e de ordenação que a edificação da Escolástica respondeu. Quando o Buda forneceu respostas variadas a uma mesma pergunta, esforçou-se por encontrar a razão dessas variantes, eventualmente por propor uma hierarquia nas respostas, da mais exterior à mais profunda, segundo o estado de avanço dos discípulos. Não disse o próprio Buda, de sua doutrina: “eu a ensino como dupla”, distinguindo o caminho da pureza mundana e aquele da pureza supramundana? Agora, quando ele não responde porque o problema lhe parece mal colocado e não comporta um sentido definido, estabelece-se a lista desses quatorze pontos (caturdasavyakrtavastuni) destituídos de referente positivo, e que correspondem praticamente a nossos problemas metafísicos. Enfim, obedecendo à tendência classificatória que é muito forte em todos os indianos, os budistas sentiram a necessidade de reagrupar comodamente sob rubricas temáticas os ensinamentos dispersos nos Sutra. Fizeram-se, de certa forma, catálogos analíticos ou por matérias. Se se quisesse saber, doravante, o que o Bem-aventurado pensou ou não sobre tal assunto, e também as opiniões que surgiram ulteriormente, bastava, para sabê-lo, consultar os repertórios em questão.
Esse trabalho realizado nas escolas apresentou vantagens e inconvenientes. Os primeiros são óbvios no plano da conceituação e da memorização, sem falar para nós da informação. Mas havia, também, aspectos negativos. Ao abstrair as circunstâncias humanas do encontro e do diálogo, corria-se o risco de endurecer em sistema o que que havia sido, em grande medida, uma praxis nas mãos do “mestre em remédios” (bhaisajya-guru) que era o Buda. Ao fazê-lo, os Abhidharmika inventaram o budismo, bem antes dos Ocidentais. Enfim, esse esforço de unificação teve por consequência paradoxal, apesar dos concílios e por ocasião deles, de desenvolver cismas e querelas entre as seitas.
Vejamos, agora, a reação de Nagarjuna, tal como se desenvolve em sua principal obra, as Estrofes do meio por excelência. Ela interessa-nos ainda hoje, na medida em que o modo de pensar de seus adversários Abhidharmika, onde suas categorias e noções comuns (causalidade, movimento, chegada, partida, começo e fim; o ato responsável e suas consequências afetivas; as “coisas”, o “eu”, etc.) continuam a ser muito frequentemente as nossas, não somente ao nível do bom senso na vida cotidiana mas até na elaboração de uma tese filosófica. Ler Nagarjuna é, portanto, um exercício para nos recolocar a nós mesmos em questão, para nos constranger a uma emendatio intellectus, da qual se verá mais adiante que funciona — para Nagarjuna — como uma propedêutica, purgativa e ablativa, a uma soteriologia.