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id da página: 4412 Guy Bugault – Nagarjuna – IDENTIDADE

Nagarjuna Identidade


BUGAULT, Guy. L’Inde pense-t-elle ? Paris: Presses universitaires de France, 1994

  • Identidade e hecceidade nos "MK"

    • Definições: Princípio de Identidade, Conceito de Identidade, hecceidade
      • O princípio de razão conduz, ainda que negativamente, ao princípio de identidade.
      • Para um budista, o pratitya-samutpada opõe-se diretamente ao princípio de identidade.
      • Constatação budista de que, na experiência, A é na realidade composto (samskrta) de muitas outras coisas.
      • Distinção entre princípio de identidade, conceito de identidade e hecceidade.
    • Princípio de identidade: "o que é é, A é A".
      • Observação ocidental sobre uma fingida alteridade na afirmação "A é A".
      • O princípio de identidade é o inverso artificial do princípio de contradição.
      • Vivencia-se o princípio nos intercâmbios humanos, contratos e conversação.
      • Subentende-se uma pensamento ou visada da identidade: identidade das palavras e das coisas.
      • Articulação e proferimento de A como ato natural e fundamental.
    • Essências discretas e sua identidade singular consigo mesmas.
      • Questão sobre a possibilidade de mostrar ou fazer tocar com o dedo tais essências.
      • A hecceidade é veiculada na língua pelos demonstrativos: "este", "aquele", "idam", "asau".
      • Verbos que expressam o constatativo: "vidyate/na vidyate" (encontra-se/não se encontra), "drsyate/na drsyate" (vê-se/não se vê), "grhyate/na grhyate" (apreende-se/não se apreende).
      • A hecceidade como um dos braços da tenaz dialética de Nagarjuna.
      • Nagarjuna desafia os adversários a encontrar (VID-) as entidades (bhava) que alegam.
      • A hecceidade como pedra de toque da identidade.
  • Funcionamento desta Tríplice Instância nos "MK"

    • O princípio de identidade
      • Segundo R.H. Robinson, "a lei da identidade não é afirmada nem negada em nenhum lugar das Estâncias".
      • Investigação sobre se esta lei é objeto de um enunciado nos "MK".
      • Identificação do princípio de forma negativa e ocasional na argumentação.
      • Exemplo em "MK, 17, 28 cd": "Aquele que degusta os frutos do ato não é outro que o autor do ato, não é também aquele mesmo, a rigor.".
      • Fórmula identificadora "sa eva sah" (A é A) virtualmente decifrável, mas recusada.
      • Equilíbrio com um enunciado de alteridade, ambos recusados, indicando a via média budista.
      • Exemplo em "MK, 18, 10": "Tudo o que vem à existência em contrapartida de outra coisa não é, por isso, exatamente idêntico a essa coisa. Mas também não é diferente. Por isso a coisa em questão não é aniquilada nem eterna.".
      • Possibilidade de extrair "tad eva tat" (isso é bem isso) da fórmula negativa, mas isso seria atribuir a um budista uma celebração do pleno.
      • Conclusão de que o princípio de identidade não é negado nem afirmado, estando presente apenas virtualmente e em negativo.
    • O conceito de identidade
      • Uso intenso do conceito de identidade nos "MK".
      • A prova do conceito de identidade e dos procedimentos de identificação está no cerne da crítica nagarjuniana.
      • Componentes da exigência de identidade: poder definir e identificar, e confiar nisso de uma vez por todas.
      • Vocábulos sânscritos principais para denunciar o pensamento costumeiro da identidade.
        • Adjetivos e pronomes: "tad", "tad eva", em contraste com "anya" ou "para"; "ka"; "kascid".
        • Substantivos que expressam substância: "svabhava" (ser em si), "atman" (eu), "prakrti" (matéria), "astitva" (ser de um ser).
        • Termos de contraparada negativa: "nihsvabhava", "nihsbhavatas".
      • Constelação de vocábulos para arruinar as pretensões à identidade.
        • "pratitya" (em relação a), "apratitya" (sem relação a) - 27 ocorrências.
        • "pratyaya" (condição) - 36 ocorrências.
        • O princípio de razão suficiente mina a crença na identidade.
        • "upadaya" (em referência a), "anupadaya".
        • "a gamya" (encontro com, com base em).
        • "apeksya" (tomando em consideração).
        • Dependência recíproca: "parasparaapeksiki siddhi".
      • Termos que designam o contra-pé da condicionalidade: "anapeksya", "nirapeksya", "tiraskrtya", "nirmukta", "vinirmukta", "vina", "rte".
      • Denúncia de uma fabulação por omissão, que gera individualidades separadas (prthak).
      • Consciência de duas imaginações: uma que adiciona, outra que subtrai.
      • A abstração, quando opera à revelia, é um ato de imaginação que gera entidades metafísicas.
    • A hecceidade
      • A hecceidade como pedra de toque das existências supostamente idênticas a si mesmas.
      • Nagarjuna exige que o interlocutor mostre a entidade em questão, o "tad eva".
      • A entidade brilha por sua ausência: "na vidyate" (não se encontra).
      • A fórmula "na vidyate" e locuções similares soam 74 vezes nos "MK".
      • Fidelidade de Nagarjuna ao espírito budista de avaliar as coisas da vida.
      • Citação do "Alagaddupamasutta": o Buddha questiona teorias da alma que geram sofrimento.
      • Critério da ordem do constatativo positivo: ver e encontrar (PAS-, (an)-upa-LABH-).
      • Uso de "na vidyate", "adrsyamane" nos "MK" para constatar a ausência de pseudo-realidades.
      • Atualização do ensino prático dos textos antigos face à Escolástica budista.
      • A palavra "hi" (de fato) como portadora de intenção positiva.
      • "hi" como palavra-chave que encarna os dois aspectos da dialética nagarjuniana: mostrar e demonstrar.
      • Exemplo em "MK, 7, 28": "De fato, um mesmo estado não põe fim a um mesmo estado. Também não é um outro estado que põe fim a um outro estado.".
      • Exemplo em "MK, 12, 2 d": "Mas, de fato, tais grupos de fenômenos vêm à existência em função de tais outros.".
    • Balanço filológico e semântico
      • Resultados da investigação sobre identidade e hecceidade distribuídos em cinco classes.
      • Classe 1: Haeccéidade como critério empírico.
        • "na vidyate" (61 ocorrências) e locuções similares, totalizando 74 empregos.
        • Empregos de "hi" no sentido de "de fato".
      • Classe 2: Vocábulos que designam o pensamento do Mesmo.
        • "tad eva tat", oposto a "anya" ou "para".
        • "ka", "kascid", "prthak".
        • "tad" como palavra mais importante, por vezes com "ka" ("kim tad eva").
      • Classe 3: Pretensões de identidade intrínseca.
        • "sva", "svayam", "svabhava" (ser em si), "prakrti" (natureza fundamental), "atman" (eu), "astitva" (ser de um ser).
        • Todas sem correspondente na experiência.
        • O que reina é a ausência universal de aseidade (svabhava-sunya).
      • Classe 4: Vocábulos que "colam" à experiência da interdependência.
        • "sambhavati" (vem à existência), "pratyaya-samutpannam" (produzido por condições).
        • "pratitya", "upadaya", "a gamya", "apeksya".
      • Classe 5: Contraprova negativa.
        • "apratitya", "anapeksya", "nirapeksa", "nirapeksatva", "tiraskrtya", "nirmukta", "vinirmukta", "vina", "rte".
        • Considerar um ser abstraindo de seu processo de produção faz parecer existente, mas ao restaurar o processo, o ser se esvanece.
        • O nirvana pode ser entendido como este esvanecer.
  • Discussão com R.H. Robinson. Identidade Diferencial e Identidade Absoluta. Identidade Sincrônica e Identidade Diacrônica

    • Retomada da discussão com R.H. Robinson sobre a lei da identidade não ser afirmada nem negada.
    • Nagarjuna trata do conceito de identidade, dando exemplos.
    • Interpretação de Robinson: não é uma negação do conceito, mas uma negação de que identidade à exclusão da diferença possa ser atribuída a algo existencial.
    • Investigação sobre esta interpretação.
    • O verdadeiro problema não está na equação "A é A", mas no que "A" designa.
    • A resposta nagarjuniana: "A iti na vidyate" (A, assim dito, não se encontra).
    • Identidade relacional ou diferencial (parabhava) é válida ao nível do "vyavahara" e do "samvrtisatya".
    • Procedimentos de identificação (passaporte) pressupõem a diferença.
    • Nagarjuna não põe em causa este ser relacional no âmbito convencional.
    • O que é perseguido é a identidade intrínseca de uma coisa consigo mesma (tad eva, svabhava).
    • Tudo que existe é vazio de identidade intrínseca (svabhava-sunya) por resultar de condições (pratyaya-samutpanna).
    • A interpretação de Robinson convém para a identidade relacional, mas não para a identidade intrínseca no âmbito do "paramartha".
    • O conceito de identidade intrínseca tem uma dupla dimensão: sincrônica e diacrônica.
      • Dimensão sincrônica: determinação precisa de uma existência, confinando a uma essência.
      • Impossibilidade de decoupar unidades discretas (kevala, prthak) no real, pois tudo se mantém (sarvam pratyaya-samutpannam).
      • Comparação com um tricot: vemos as malhas, mas não sua confecção.
      • Nossa percepção cotidiana é cheia de impercebidos; decoupamos os seres sobre um fundo.
      • Denúncia do esquecimento das relações por termos como "rte", "vina", "tiraskrtya".
      • No plano existencial, "A" é um não-senso, e "A = A" é um não-senso sobre um não-senso.
      • "A" é uma maneira de falar (prajñapti) ao nível das verdades convencionais (samvrtisatya).
      • A dialética nagarjuniana lembra a vigilância contra a reificação.
      • Ser é sempre inter-ser.
      • Dimensão diacrônica: constância no tempo.
      • A experiência mostra que tudo é transitório, impermanente (sarvam anityam).
      • A impermanência é essencial ao budismo, fundamentando a dor universal (sarvam duhkham).
      • A rejeição da identidade, pessoal ou nas coisas, ocupa um lugar orgânico na via budista.
      • Para um Madhyamika, a impermanência estende-se aos seres vivos (sattva) e às coisas (bhava), inclusive aos "dharma".
    • Resumo da dupla dimensão do conceito de identidade e dos constatos de Nagarjuna.
      • Identidade sincrônica: "tad eva" (a coisa mesma) - mas "sarvam pratitya-samutpannam".
      • Identidade diacrônica: "nitya" (a mesma coisa) - mas "sarvam anityam".
  • Vaculdade e Lógica Simbólica

    • Avaliação das possibilidades e limites da aplicação da lógica simbólica à dialética de Nagarjuna.
    • A lógica bivalente de Aristote impossibilita a compreensão do tetralemma indiano e da via do meio budista.
    • Ponto positivo da lógica moderna: evidenciar uma terceira possibilidade - o absurdo, a questão mal posta.
    • Abertura libertadora no modo de raciocinar dos Madhyamika.
    • Tentativas de transcrição da lógica "literária" de Nagarjuna em lógica simbólica.
      • Menção a H. Nakamura, R.H. Robinson, B.K. Matilal, J.F. Staal, J.L. Shaw, Sibajiban Bhattacharyya, R.N. Ghose, Ng Yu-Kwan, Claus Oetke, Tom J.F. Tillemans.
      • Abordagem semiótica por L. Mall e J. Kristeva.
      • Livro de Harold W. Noonan sobre identidade relativa.
      • Aplicação de métodos da ciência contemporânea a textos indianos no "Journal of Indian Philosophy".
      • Afinidades com a filosofia anglo-saxônica na análise de enunciados.
    • Obstáculos a uma transcrição pertinente.
      • Diferença de intencionalidade.
        • Lógica contemporânea: ambição teórica e especulativa, inventário de procedimentos mentais.
        • Nagarjuna: intenção terapêutica e libertadora, extinção do eu.
      • Mal-entendido sobre conceitos e instrumentos operatórios.
        • No nível do "vyavahara" e do "samvrtisatya", a transposição é possível.
        • No nível do "paramartha" e do "nirvana", a transposição falha.
        • A lógica simbólica funda-se em termos definidos univocamente e postula a identidade sincrônica.
        • Nagarjuna recusa a identidade sincrônica quando se considera as coisas fora do código ("paramarthatas").
        • É impossível conceptualizar totalmente um itinerário "lisiologico".
        • Nem termos conhecidos (A, B) nem desconhecidos (x, y) são adequados, pois são virtualmente determinados.
        • A dialética madhyamika tem por horizonte sua própria abolição e a evacuação das categorias de sujeito e objeto.
        • Há uma infinição em toda definição, daí o "nobre silêncio" ("aryas tusnibhavah").
      • Problemática do zero.
        • "sunya" denota o valor zero em sânscrito.
        • Dúvida sobre se o zero da lógica simbólica e a vacuidade ("sunyata") são a mesma coisa.
        • Lógica das proposições: valor 0 = enunciado falso.
        • Lógica dos conceitos: zero membro = classe vazia = "abhava" "nastitva".
        • O que corresponde ao conceito de classe nula nos "MK" é "sunya" e "sunyatva", não "sunyata".
        • "sunyata" é o constato empírico de uma falta ("abhava") onde se esperava algo ("bhava").
        • A vacuidade não se confunde com a inexistência ou o não-ser.
        • "sunyata" é a evacuação das categorias de ser e não-ser.
        • A vacuidade não é uma categoria existencial, mas concerne a enunciados, pertencendo a uma metalinguagem.
        • Citação de "MK, 13, 8": "A vacuidade é o afastamento de todos os pontos de vista...".
        • Valor lógico 0 (falso) não pode ser o índice da vacuidade.
        • Diferença entre zero algébrico (neutro, vacuidade) e zero aritmético (inexistência).
        • Fidelidade de Nagarjuna ao uso prático da vacuidade pelo Buddha, como nos "sutta" "Culasunnatasutta" e "Mahasunnatasutta".
        • O objetivo é um suspenso de toda afirmação e negação, um estado neutro, um ponto de equilíbrio.
        • Se simbolizado por zero, deve ser o zero algébrico, não o aritmético.
        • Diferença entre "sunyata" e "abhava", entre Madhyamika e Nastika.