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id da página: 8236 Nishida – Jacynthe Tremblay – Experiência e Tempo

Nishida Tremblay Experiencia Tempo

Nishida – Experiência pura e Tempo

NISHIDA, Kitarō. L’éveil à soi. Ed. Jacynthe Tremblay. Paris: CNRS éd, 2004

A filosofia de Nishida conheceu vários desenvolvimentos, desde seus primórdios até sua fase final. Ele iniciou sua trajetória pela apreensão da experiência da indistinção entre sujeito e objeto como uma “experiência pura”, princípio da filosofia a partir do qual todas as coisas poderiam então ser explicadas. Nishida reconheceu, entretanto, posteriormente, que a experiência pura continha uma deficiência; com efeito, era abordada do ponto de vista da “consciência” subjetiva, o que se revelaria sem saída.

Ao termo de uma luta desesperada, Nishida estabeleceu que se deve compreender como “si” os atos recíprocos da intuição e da reflexão, isto é, as ações da “vontade absoluta”, tomada como ato da realidade. Mostrou, além disso, que as polarizações dos atos dinâmicos desse si, a saber, o sujeito e o objeto, são plenamente apreendidas no “despertar de si”, pelo qual “o si se reflete em si mesmo”. Os atos dinâmicos da vontade absoluta passaram, doravante, a ser considerados como “despertar de si”.

Mas subsistia, com o “despertar de si”, outro temor: o de ver a independência do individual ser absorvida pelo universal. Nishida, dando mais uma vez meia-volta, alcançou então a posição do basho (lugar). Inspirada na chōra da filosofia de Platão, essa noção muito original foi, pela primeira vez, capaz de apreender o caráter dinâmico da realidade. Esse caráter dinâmico permite, ao mesmo tempo, mostrar que o individual e o universal são as polarizações dos atos dessa mesma realidade.

Em suma, Nishida fez da experiência pura um fundamento e, em seguida, deu-lhe a forma do despertar de si. Simultaneamente, mostrou que a verdadeira realidade, continuando a manifestar-se por si mesma no mundo da atualidade, é a forma do desenvolvimento da realidade na qual o nada absoluto se autodetermina como basho.

A forma de lógica que permite dar conta disso é a “lógica do basho”. Na medida em que o despertar de si não é o despertar de si do sujeito, mas o despertar de si do basho — isto é, na medida em que se encontra no seio da ação de despertar de si do mundo histórico (tomado como universal) —, ele é plenamente capaz de suscitar um tipo de lógica que possa discernir o lugar onde o despertar de si individual é constituído simultaneamente, de maneira independente. A lógica do basho permite, assim, apreender de um só golpe toda a estrutura contraditória e dinâmica do universal (o mundo) e do individual (que pode designar tanto o “eu” quanto o “tu” e o “ele”).

O ensaio de Nishida intitulado “Eu e tu” testemunha o uso dessa lógica do basho, preservando a originalidade de cada um de seus aspectos. Por meio de uma explicação, a partir dessa lógica, das consequências das diversas ações da realidade, Nishida evidencia a necessidade de apreender o duplo significado do ato de despertar de si, a saber: que o mundo histórico se auto-desperta ao mesmo tempo em que se auto-desperta o individual que nele se encontra.

Pode-se, portanto, afirmar que “Eu e tu” é a obra que marca a viragem para o último período da filosofia de Nishida. Jacynthe Tremblay, de modo simultaneamente muito cuidadoso e muito fiel, logra verter esse ensaio para o francês sem destruir-lhe o verdadeiro sentido.


[...] [Nishida] busca elucidar o modo de pensar o irracional que se encontra no fundo da realidade. Esforça-se por ver a lógica a partir do despertar de si, e não o contrário. Neste volume, o ensaio intitulado “O temporal e o intemporal” ocupa o sexto lugar. Ele constitui a continuação do ensaio precedente, intitulado “A autodeterminação do agora eterno”. Nishida mostra que tudo o que existe situa-se no tempo, o qual é a forma fundamental da realidade. O devir de todas as coisas neste mundo, incluindo o devir do mundo histórico no qual o ser humano está ligado ao próprio corpo e ao outro, situa-se no tempo.

O tempo é, ele próprio, a autodeterminação do agora eterno — ou do “que é absolutamente nada”. Nesse sentido, ele nasce e desaparece a cada instante no agora eterno. Segundo a expressão de Nishida, “o tempo gira no agora eterno”. Daí a caracterização nishidiana do tempo como “continuidade da descontinuidade”. O agora eterno, que funda e engloba o tempo, é uma determinação espacial na qual se situa toda coisa, inclusive o corpo humano.

Estar situado no tempo consiste, pelo próprio fato, em estar situado no presente, uma vez que Nishida concebe o tempo como um “círculo sem circunferência” cujo centro é o presente. Este último, que engloba o passado, o presente e o futuro agostinianos, é o meio de onde procede toda coisa e no qual toda coisa é determinada. Meio no qual o ser humano se encontra, ele existe onde o si se autodetermina em retorno como personalidade livre, onde desperta para si mesmo enquanto indivíduo. Convém mencionar também que Nishida chama “instante” o limite da determinação do presente. Na realidade, o instante é o verdadeiro presente.

Sendo tudo o que existe determinado deste ponto de vista temporal, Nishida aplica-se, também no ensaio “O temporal e o intemporal”, a discernir a forma da autodeterminação do agora eterno e, a partir desta, trata da oposição e da relação entre o temporal e o intemporal. Segundo as definições de Nishida, o mundo temporal é o mundo mais concreto, aquele em que o presente se autodetermina. Quanto ao intemporal, ele é “o mundo da vida interior que se autodetermina expressivamente”. Nishida trata igualmente do mundo do sujeito e do mundo do objeto, bem como dos mundos do pensamento e da realidade.