MATSUMARU, Hisao; ARISAKA, Yōko; SCHULTZ, Lucy Christine. Tetsugaku companion to Nishida Kitarō. Cham: Springer, 2022
Estudar Nishida exige imergir nas águas conceituais e linguísticas variadas que definem a filosofia japonesa. Quando comecei a debruçar-me sobre alguns volumes das Obras Completas de Nishida Kitarō (Nishida Kitarō Zenshū) em seu japonês original, o texto pareceu-me formidavelmente estrangeiro. Cada volume se abre naquilo que eu considerava “a parte de trás” do livro. As linhas de texto, escritas verticalmente, progridem da direita para a esquerda. O próprio sistema de escrita reúne numerosas línguas. Compostos de kanji (de origem chinesa), densos em traços de pincel e, portanto, sobrecarregados de significados, são conectados a hiragana, um dos dois silabários japoneses. Os nomes dos filósofos europeus, escritos em katakana — o outro silabário, reservado à transliteração de palavras não japonesas —, pontuam as páginas. Ocasionalmente, aparece uma palavra escrita em grego ou em romaji (alfabeto romano). Acrescentando complexidade, Nishida por vezes incorpora estruturas gramaticais alemãs para exprimir certas ideias, o que torna sua escrita notoriamente difícil, mesmo para falantes nativos de japonês. As convoluções envolvidas no estudo da filosofia de Nishida são ao mesmo tempo avassaladoras e inspiradoras. Cada página de sua obra é ricamente tecida com palavras, conceitos e formas de escrita provenientes de diferentes continentes e períodos históricos. Quando combinada à profundidade das ideias expressas por sua linguagem, a obra de Nishida resplandece como uma verdadeira tour de force filosófica de alcance mundial.
A complexidade linguística e o caráter transcontinental da filosofia de Nishida deram origem às respostas multilíngues e interculturais que compõem este manual. Foi um privilégio colaborar com estudiosos de Nishida de todo o mundo, a fim de adaptar suas sutis compreensões da obscura filosofia de Nishida às convenções da expressão e da redação acadêmica em língua inglesa. Encontrar as palavras adequadas para exprimir ideias é um desafio inerente a toda escrita, independentemente do idioma. Todavia, esse desafio torna-se intensamente ampliado ao traduzir ideias filosóficas para uma língua na qual se está menos “em casa”. Ao editar os capítulos deste volume redigidos por autores cuja língua materna não é o inglês, procurei alterar o mínimo possível, a fim de preservar as vozes originais dos autores e a especificidade de suas ideias. Leitores provenientes de regiões anglófonas podem encontrar dificuldades em certas formas de expressão de alguns autores. Contudo, em muitos casos, a sutileza das ideias está vinculada a suas formulações particulares na linguagem; e diferenças mais gerais no estilo acadêmico também transmitem tonalidades adequadas a distintas atitudes filosóficas. A atenção a essas variações pode ampliar o conhecimento e a sensibilidade filosófica de modo essencial ao trabalho no campo da filosofia mundial. Este volume tem por objetivo oferecer uma ponte entre os estudiosos de Nishida que trabalham em diversos idiomas, ao mesmo tempo em que proporciona uma introdução abrangente àqueles que desejam familiarizar-se com os debates em curso em torno de sua obra.
Lucy Christine Schultz
16 de fevereiro de 2021