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id da página: 3302 Parábolas evangélicas em São Irineu – Rico e Lázaro segundo os heterodoxos Antonio Orbe

Orbe PESI Rico Lazaro Heterodoxos


Parábolas EvangélicasRico e Lázaro

Exegeses dos Heterodoxos


Marcion

  • As visões de Marcião sobre a parábola de Lázaro e o rico
    • A visão de Marcião sobre o relato de Lucas 16,19ss como uma história verdadeira, e não uma alegoria.
    • A afirmação de Tertuliano de que o relato de Lucas se relaciona com a menção de João maltratado e Herodes mal casado, “deformando o desfecho de ambos, os tormentos de Herodes e os refrigérios de João”.
    • O demiurgo marcionita concede prêmio de descanso ou tortura aos que obedecerem ou não à Lei e aos Profetas.
    • O contraste entre a escatologia dos cristãos e a dos devotos de Yahweh, segundo Marcião:
      • O Deus bom não tem duplo prêmio, mas um único, “o seio e porta do céu”.
      • O relato de Lucas define a escatologia psíquica dos judeus, ou devotos de Yahweh.
    • A crença de Marcião de que o corpo, por ser de origem terrena, é incapaz de salvação e está destinado à corrupção.

  • O contraste de lugares na escatologia
    • O contraste entre os locais de recompensa segundo Marcião.
      • A recompensa do demiurgo se cumpre “nos infernos” (apud inferos), tanto o lugar de tormento quanto o de refrigério.
      • O prêmio do Deus bom, “no céu” (caelestem... sinum et portum), muito acima da terra.
    • A dificuldade de entender por que Marcião situa o seio de Abraão sob a terra, já que o relato de Lucas 16,22 omite isso, e a ideia é contrária à passagem “foi levado pelos anjos ao seio de Abraão”.
    • A explicação de Marcião para a localização do seio de Abraão nos infernos (in inferis):
      • A doutrina do descensus ad inferos (descida aos infernos), em que a alma de Cristo desceu ao coração da terra no tríduo pascal e de lá tirou os que creram.
      • Os justos do Antigo Testamento também estavam “nos infernos”.
      • Marcião acolhia a situação subterrânea do seio de Abraão, para que o demiurgo, criador do mundo visível, retivesse as almas sob seu poder.
      • A crença da antiguidade, como a de Platão (Fédon 111E-112A), e a crença hebraica do sheol, com seus quatro compartimentos, também apoiavam essa ideia.

  • A evolução do significado do termo in inferis
    • O termo “inferi” não significa necessariamente um lugar subterrâneo, mas sim um lugar relativo, “o de baixo”.
    • O autor de Beausobre explica os infernos de Marcião sem a necessidade de situá-los sob a terra, como viver no corpo terreno, um lugar de morte.
    • A distinção feita pelo salmista e por Agostinho entre um “inferno inferior” e um “inferno superior”.
      • O inferno superior seria a terra em que vivemos, e o inferior, o lugar dos mortos.
      • Agostinho sugere a existência de uma parte inferior nos infernos para os ímpios, e uma superior, onde as almas dos justos descansavam.
    • A visão de alguns, na época de São Justino e Santo Irineu, de que os “infernos” se identificavam com a terra (resp. com o corpo).
    • O simbolismo não local, mas ontológico, onde “infernos” são o corpo, a condição terrena, a vida terrestre.
    • Marcião não pertencia a essa corrente, pois não era adepto de alegorias. Para ele, os “inferi” indicavam uma região subterrânea.
    • Orígenes se antecipa a Agostinho ao distinguir entre o inferno superior (a terra) e o inferior (o “hades” ou inferno dos mortos).
    • A versão de Rufino introduziu o “Hades” e o seio de Abraão no inferno inferior, de acordo com a ideologia de Orígenes dos infernos ante Christum.
    • A conclusão de que Marcião, como Tertuliano, via os “inferi” como uma região subterrânea, o “Hades”.

  • O destino das almas segundo Marcião
    • A crença de Marcião de que os pré-cristãos iam, bons e maus, para os infernos, enquanto os cristãos se elevavam ao céu.
    • O destino eterno dos cristãos, que sobem ao reino de Deus como um porto definitivo.
    • O destino parcial dos pré-cristãos:
      • Os apóstatas de Yahweh, como Caim, sodomitas e egípcios, se converteram após a descida de Cristo aos infernos e foram para o reino de Deus.
      • Os justos do Antigo Testamento, devotos de Yahweh, foram refratários à pregação de Cristo e permaneceram onde estavam.
      • A confirmação dessa visão por Irineu: “Caim e aqueles que são semelhantes a ele e os sodomitas e os egípcios e os semelhantes a eles e todas as nações, que andaram em toda mistura de maldade, foram salvos pelo Senhor, quando ele desceu aos infernos e eles correram para ele, e ele os assumiu em seu reino. Abel, porém, e Enoque e Noé e os restantes justos e aqueles que são com o patriarca Abraão com todos os profetas e aqueles que agradaram a Deus não participaram da salvação, o que a serpente que estava em Marcião proclamou. Pois, ele disse, porque eles sabiam que seu deus os tentava sempre e então desconfiaram de que ele os tentava não correram para Jesus nem creram em seu anúncio; e por isso ele disse que as almas deles permaneceram nos infernos”.
    • A eternização do seio de Abraão para os justos de Yahweh e do lugar de tormentos para os pecadores pós-cristãos.
      • O seio de Abraão, que era temporário na economia de Yahweh, se torna eterno por causa da incredulidade dos justos do Antigo Testamento à pregação de Cristo.
      • O lugar de tormentos, o “ignis creatoris”, que era temporário, se torna eterno por causa da incredulidade dos maus do Novo Testamento.

  • A oposição de Marcião a Moisés e a lei
    • A razão de Marcião ter retido em seu evangelho páginas que representavam uma economia periclita: a oposição entre os dois regimes, o psíquico e o espiritual.
    • A contraposição que Marcião faz de duas recomendações: uma de Abraão, que representa a vontade de Yahweh, e a outra do Pai, que representa a vontade do Deus bom.
    • A vontade de Yahweh formulada em Lc 16,29: “Abraão lhe diz (ao rico): Têm Moisés e os profetas. Ouçam-nos (audiant illos)”.
    • A vontade do Pai manifestada na transfiguração: “E veio uma voz da nuvem: Este é meu Filho querido; escutem-no (Mc 9,7)”.
    • Segundo o texto de Lucas, retido por Marcião: “(Veio) uma voz do céu (talvez melhor da nuvem): ‘Este é meu Filho querido; ouçam-no’ (Lc 9,35)”.
    • A interpretação de Marcião sobre a voz do Tabor: “o que se entende por esta voz do céu: ‘Este é meu Filho amado, ouçam-no’: isto é, não Moisés já e Elias. Portanto bastava a voz sozinha sem a ostentação de Moisés e Elias. Pois definindo a quem deveriam ouvir, ele teria vetado que qualquer outro fosse ouvido.”
    • A desqualificação que Marcião faz do regime de Yahweh, fundado na obediência a Moisés e aos profetas.
    • A necessidade de Marcião de considerar a perícope de Lc 16,19-31 como uma história, e não uma parábola, para que a frase de Abraão adquirisse uma dimensão análoga à da voz do Pai no monte.

  • Obras pseudoclementinas e o parentesco com a doutrina marcionita
    • A notícia de escritos pseudoclementinos que apresentam parentesco com a doutrina de Marcião.
    • O interesse relativo para a crítica textual, como a contaminação de Lc 13,29 e Mt 8,11 com Lc 16,23.
    • A crença de que as almas dos que morrem com anseios por Deus são levadas para o “seio de Deus” (is ton autou kolpon pherontai).
    • A concepção da alma como um eflúvio da substância divina, uma visão muito marcionítica, e como uma emissão (probole) análoga ao Unigênito.
    • A distinção marcionita entre o reino de Deus (nas alturas) e o seio de Abraão (subterrâneo) não está presente na perspectiva pseudoclementina.
    • A analogia da alma com o vapor das montanhas, que se torna imortal (athanatoi) no seio de Deus.

  • A escatologia nas Reconhecimentos
    • O fragmento da primeira Reconhecimento que aborda a questão do destino dos que morreram antes da vinda de Cristo.
    • A doutrina de que Cristo assiste desde o início os piedosos, especialmente os que o aguardam.
    • O galardão do justo: a longevidade (ut qui inveniretur iustus diutius permaneret in corpore) ou a transladação ao paraíso (ut ad paradisum translati serventur ad regnum), à espera da ressurreição final.
    • Para os justos “pela metade”, a morte ordinária: os corpos se desfazem, mas as almas vão para regiões belas e alegres, até a ressurreição.
    • A conclusão de que todos, no fim, em corpo e alma, gozarão da herança eterna.

  • A imortalidade da alma e a justiça de Deus
    • O fragmento de maior importância sobre a imortalidade da alma e a justiça de Deus.
    • A crença de que “por força, quem diga que Deus é naturalmente (physei) justo, crerá também que as almas dos homens são imortais”.
    • A prova da justiça de Deus: o ímpio que aqui recebeu os bens sofrerá castigo no Hades, enquanto o bom, que aqui sofreu castigo, herdará os bens no seio dos justos (hos en kolpois dikaion).
    • A perícopa lucana (Lc 16,19ss) demonstra a justiça de Deus, com o mau indo para o “Hades” e o bom para o “seio dos justos” (Abraão, Isaque e Jacó).
    • A imortalidade é imposta pela justiça de Deus em ambos os casos.
    • A luta de Simão Pedro contra a doutrina marcionita que excluía a justiça do Deus verdadeiro.
    • Marcião admitia a imortalidade sui generis das almas segundo a justiça de Yahweh, mas colocava acima disso uma outra athanasia mais sublime para os que creem no Deus verdadeiro.
    • A conclusão de que o litígio entre os dois Simões é teológico, e não filosófico, e se refere à justiça ou não de Deus.

  • A visão de Basílides sobre a parábola
    • A notícia de que Basílides escreveu um comentário (Exegetika) em 24 livros sobre o Evangelho, e no livro XIII falava da perícope do rico e do pobre.
    • Basílides via a perícope como uma “parábola”, e não uma história, com um caráter dogmático sobre a “natureza sem princípio (sine radice) e infinita (et sine loco) que sobreveio aos seres”.
    • A natureza “sem raiz e sem lugar” seria dupla, como na doutrina de Simão.
    • A analogia com os simonianos que resolve o paradoxo de “dois brotos” (paraphyades) que procedem de uma só raiz, “sem princípio nem fim”.
    • O relato de Basílides da cosmogonia: luz e trevas, ambos sem princípio.
      • As trevas, tomadas de “concupiscência” pela luz, desejam participar dela.
      • A luz, por sua vez, não participa das trevas, mas um “simples reflexo” (emphasis) dela vem ao poder das trevas.
      • A criação sensível é o resultado desta união imperfeita.

  • A interpretação de Basílides da parábola do rico e do pobre
    • A hipótese de que Basílides vinculou a parábola do rico e do pobre a sua cosmogonia, vendo nela a luta entre a luz e as trevas.
    • O contraste entre o rico, que não busca nada no pobre, e este, que mendiga tudo do rico.
    • O έπιθυμών (epithymon) de Lucas 16,20s (o estado de ânimo do mendigo) corresponde à concupiscência das trevas, que desejam participar na luz.
    • A paráfrase da enigmática frase do livro XIII de Basílides, que dá a conhecer a origem daquela natureza sem princípio, com seu duplo princípio: a luz (simbolizada pelo rico) e as trevas (simbolizadas pelo mendigo Lázaro).
    • A interpretação de que Lázaro, por sua indigência, simboliza o mal, que sobrevive “em virtude do que obtém dos bens dos outros”.
    • A variante da interpretação, que relaciona a “natureza sem raiz e sem lugar” com a questão do mal.

  • As reminiscências da parábola em obras apócrifas
    • As notícias dos “Atos de Tomé” (Acta Thomae), que abundam em reminiscências de Lucas.
    • O sermão de João, onde ele diz que “Aquele que não comunica (seus bens) com os indigentes e, tendo riquezas, as (retém em) depósito, depois que for libertado deste corpo, (se) abrasado no fogo pede a alguém misericórdia (en pyri phlegomenos), não haverá quem tenha compaixão dele (ton eleounta)”.
    • A alusão à perícope é clara, mas a doutrina parenética denuncia a composição tardia do fragmento.
    • O relato do rei Gundaforo e seu irmão Gad, que, após a morte, é levado ao céu pelos anjos e vê o palácio construído por Tomé com o dinheiro das esmolas.
    • A súplica de Gad aos anjos para que o deixem voltar à terra e comprar o palácio de seu irmão.
    • O esquema narrativo se inspira em Lucas: as riquezas terrenas não servem para construir um palácio terreno, mas um incorruptível no céu.

  • O “Evangelho dos Nazarenos” e a antinomia entre o rico e Lázaro
    • O fragmento do “Evangelho dos Nazarenos” em um comentário de Orígenes a São Mateus, que ilumina a antinomia entre o rico e Lázaro.
    • O diálogo entre um dos ricos e Jesus:
      • O homem pergunta a Jesus: “Mestre, o que fazendo de bom viverei?”.
      • Jesus lhe responde: “Homem, faze as leis e os profetas”.
      • Após o homem dizer que as fez, Jesus lhe diz: “Vai, vende tudo o que possuis e divide com os pobres e vem, segue-me”.
    • O homem rico coça a cabeça, e Jesus lhe diz: “Como dizes: A Lei e os profetas eu fiz? Porque está escrito na Lei: Amarás teu próximo como a ti mesmo; e eis que muitos de teus irmãos, filhos de Abraão, estão cobertos de esterco, morrendo de fome, e tua casa está cheia de muitos bens, e nada sai dela para eles”.
    • A visão de que a miséria dos filhos de Abraão é análoga à de Lázaro em Lc 16,20.
    • A dúvida de que o fragmento pertença à obra original de Orígenes.