Julius Evola. Il Cammino del Cinabro.
Do alemão, por incumbência da editora Longanesi traduzi, entre outras coisas, sempre no mesmo período, a conhecida grande obra de Oswald Spengler, O Declínio do Ocidente. Isso me ofereceu a oportunidade de precisar, em uma introdução, o significado e as limitações desta obra que em sua época tinha tido uma ressonância mundial. Spengler pertence ao grupo daqueles escritores que abandonaram as fantasias progressistas e historicistas do período anterior e que se deram conta do caráter crepuscular da época em que vivemos: porém sem dispor de adequados pontos de referência em princípios de caráter tradicional, mantendo em vez disso ideias distorcidas próprias dos últimos tempos. Na minha introdução ressaltei como um dos méritos principais de Spengler sua contribuição para a superação da concepção linear e evolutiva da história, com um considerável alargamento e enriquecimento de horizontes. A contrapartida negativa é, no entanto, a afirmação de um pluralismo e, portanto, de um relativismo histórico. Para Spengler, não existe a «civilização» no singular, mas existem muitas civilizações distintas e descontínuas umas em relação às outras, constituindo cada uma uma unidade fechada, tendo cada uma, como os organismos biológicos, um nascimento, uma juventude, uma maturidade e um inevitável declínio, tal ciclo se repetindo para cada uma delas com as mesmas fases e o mesmo esquema. Uma concepção semelhante só pode valer para o lado mais exterior e episódico das várias civilizações, e é demasiado simplista. Além disso, na morfologia spengleriana trata-se muito menos de uma filosofia ou metafísica das civilizações do que de uma espécie de psicologia delas, baseada em um material muito espúrio e secundário. De qualquer forma, notou-se que o essencial é reconhecer, além do pluralismo das civilizações, um dualismo essencial: civilizações (ou fases de civilizações) tradicionais opostas a civilizações (ou fases de civilizações) de tipo «moderno». Tal dualismo, exposto na minha Revolta contra o mundo moderno, corresponde em parte à bem conhecida oposição de Spengler entre Kultur e Zivilisation, o primeiro termo designando, para ele, as formas ou fases de uma civilização de caráter qualitativo, orgânico, diferenciado e vivente, o segundo as de uma civilização de caráter racionalista, cidadão, mecanicista, informe, desanimado. Se Spengler foi bastante feliz em descrever a fisionomia de tudo o que é Zivilisation, fase terminal crepuscular (para ele) de cada ciclo, ele, no entanto, devido à mencionada falta de adequados pontos de referência doutrinários e de seu sucumbir, em vez disso, precisamente aos mitos de uma Zivilisation, do que é uma Kultur, ou seja, se diria, do que é uma civilização tradicional, não teve senão uma ideia muito incompleta e inadequada.
A ele faltou totalmente o sentido da dimensão metafísica ou da transcendência, que em toda verdadeira Kultur constitui o essencial. A distorção é, ainda, patente quando Spengler refere em vez disso a Kultur à «vida», ao «instinto», à raça, ao substrato «materno», irracional e quase inconsciente do ser e da existência, contraposto às formas do «ser desperto» intelectualizado e «espiritualizado». No que é evidente a influência deletéria das modernas filosofias da vida e do irracional. Ora, também em outras ocasiões e fora do campo da história (por último, por exemplo, no ensaio «O símbolo, o mito e o desvio irracionalista», publicado em 1960 na revista alemã Antaios) se tinha posto em evidência que ideias do gênero refletem apenas a dissociação existencial a que conduziu um processo degenerativo: Erleben, simples experiência vivida e identificação vital regressiva por um lado, consciência abstrata intelectualista por outro - «ser» desprovido de clareza intelectual e clareza intelectual avulsa do ser, são apenas os dois fragmentos de uma unidade superior e anterior, não a apreendendo também a verdadeira compreensão do centro de toda verdadeira Kultur, do mundo das origens, das civilizações de tipo não-moderno permanece impossível. O esclarecimento deste ponto me pareceu tanto mais oportuno, porquanto várias novas reavaliações modernas do que é símbolo e mito ressentem-se justamente do equívoco irracionalista. Juntamente com Spengler, um Klages chegou, nessa linha, até a confundir com o «espírito» o que é simples Verstand, o intelecto abstrato, «antagonista da vida» ou da «alma»: e já se viu que Jung se move em uma direção não muito diferente.
Por generosidade, e também porque no âmbito da introdução a uma tradução de tal coisa não era o caso, não se deteve para indicar todos os erros e desvios que na obra de Spengler são muito mais numerosos do que as intuições felizes: por exemplo, as coisas de fazer espantar que ele diz sobre o budismo, sobre o taoismo e também sobre o estoicismo, sobre a civilização greco-romana como uma simples civilização do «corpóreo», e assim por diante. Uma consideração particular teria merecido a famosa concepção spengleriana do «homem faustiano», a fim de indicar na aparição do tipo deste homem em que se quis ver a expressão da nossa última Kultur, um dos fatores principais da crise do Ocidente. (Em outra ocasião deduziu-se o impulso «faustiano», juntamente com aquele às explorações e à expansão ilimitada que se afirmou significativamente em sincronia com a chamada «Renascença» e com o humanismo, o efeito do descarregar para o exterior, «horizontalmente», daquela tensão metafísica que no período precedente era dirigida para o alto, «verticalmente»). Em vez disso, se considerou válidas as ideias de Spengler sobre o «cesarismo» como fenômeno precípuo da fase mais avançada de uma Zivilisation: quando uma civilização orgânica e qualitativa está terminada e se encontra diante de massas de indivíduos desenraizados, intervêm formas violentas de unidade apoiadas no poder informe e puramente pessoal, desprovido de qualquer crisma, das «grandes individualidades» em uma época da «política absoluta». As mesmas ideias já tinham sido expostas na crítica ao «totalitarismo» contida em Os Homens e as Ruínas.
Embora sumária, esta tomada de posição diante das visões de Spengler, para a qual a minha tradução de sua obra principal me forneceu a ocasião, era tornada oportuna também pelo fato de que, por vezes, as ideias sobre o mundo moderno por mim expostas têm sido consideradas «spenglerianas». Em vez disso, os meus pontos de referência são totalmente diferentes; a influência de Spengler sobre mim pode ser dita nula: já foi indicado que, se tanto, é a linha do pensamento «tradicional» representado nos tempos modernos essencialmente pela corrente guenoniana, que teve, a tal respeito, uma importância.