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id da página: 10609 André Padoux – Compreender o Tantrismo – Dimensão Espiritual André Padoux

Padoux Espirito Tantra

André Padoux – Compreender o Tantrismo – A Palavra

PADOUX, André. Comprendre le tantrisme: les sources hindoues. Paris: Albin Michel, 2010

Dimensão espiritual do Tantra

  • A superação do ritualismo e a importância da dimensão mística no tantrismo, que, sem negar os ritos, enfatiza que a aspiração última dos tântrikas é a liberação (moksha, mukti), entendida como experiência participativa do divino.

    • O Shaivasiddhānta clássico sustenta que apenas os ritos podem apagar a impureza originária e conduzir à liberação, mas reconhece que os ritos dependem de sua inteligência interpretativa e da devoção (bhakti).
    • O shivaísmo não dualista, especialmente em Abhinavagupta, rejeita essa posição e afirma que a ignorância é a única causa da escravidão humana, sendo a gnose, ou o reconhecimento (pratyabhijñā) da natureza divina do ser, o verdadeiro caminho para a libertação.
    • Essa ênfase na gnose se encontra também no Pāñcharātra e em outras tradições vishnuítas marcadas pelo tantrismo.
  • A mística no tantrismo como dimensão menos visível nos textos, mas essencial ao universo religioso, caracterizada pela união interior do devoto a Deus, pela presença da bhakti e pela valorização da experiência espiritual não ostentatória.

    • A jīvanmukti, a liberação em vida, é vivida no corpo e no mundo, entendidos como lugar da manifestação do divino, em contraste com a tendência ascensional de outras correntes hindus.
  • A mística ritual como modalidade de união divina que se manifesta em momentos específicos de certos ritos, como a dīkshā e o japa.

    • A pūjā tântrica visa, em princípio, à fusão com a divindade, mas só em casos particulares pode ser considerada via mística.
    • Possessões e compenetrações (āveśa, samāveśa) mostram que experiência mística e rito podem se reforçar mutuamente, ainda que não sejam idênticos.
    • O ânavopāya, via ritual descrita por Abhinavagupta no Tantrāloka, exemplifica a possibilidade de experiência mística pela ação ritual, incluindo meditações sobre Bhairava, as doze Kālīs e mantras como SAUH e KHPHREM, sempre dependentes da graça divina.
    • A beleza estética dos ritos, destacada por Abhinavagupta, pode suscitar estados de alegria (śaktikṣobha) que abrem à experiência do divino, constituindo uma “mística estética”.
    • Uma “mística metafísica” também é possível, quando a interiorização de estruturas cósmicas descritas nos textos conduz a uma visão transcendental do divino.
  • A diversidade das vias espirituais e a centralidade da graça divina (anugraha, śaktipāta) nas tradições shivaítas não dualistas, que a consideram a mais alta ação da divindade.

    • O Tantrāloka organiza os meios de liberação (upāya) segundo a intensidade da graça recebida pelo adepto.
    • Anupāya: a “não-via”, reservada a seres imaculados que, pela graça suprema, percebem imediatamente a onipresença de Deus, alcançando liberação instantânea.
    • Śāmbhavopāya: a via do impulso místico, caracterizada pela adesão direta ao movimento criador de Śiva, descrita por Abhinavagupta com base em cosmogonias fonéticas e linguísticas e práticas mantricas. As estrofes finais afirmam: “Manifestando o universo em mim mesmo no éter de minha consciência, eu sou o Criador... perceber isso é ser idêntico a Bhairava” (283).
    • Śāktopāya: a via da energia, fundada no raciocínio intuitivo (sat-tarka) que transcende o discurso racional, conduzindo à experiência unitiva. Descreve a roda das energias, as doze Kālīs, os mantras SAUH e KHPHREM e a ascensão da kuṇḍalinī, em movimento de abolição das distinções no absoluto.
    • Vijñānabhairava: texto fundamental que apresenta 112 meios de alcançar a experiência mística, incluindo práticas respiratórias, concentração visual, experiências corporais, união sexual, imaginação criadora (smṛti) e estados de choque ou perda de controle, todos como portas para o absoluto.
  • A mística devocional (bhakti) no tantrismo como dimensão complementar à śakti, presente tanto em tradições dualistas quanto não dualistas.

    • A devoção é exigida nos ritos e pode se expressar até mesmo na posse (āveśa).
    • Hinos de Utpaladeva (Śivastotrāvalī) e Bhattanārāyaṇa (Stavacintāmaṇi) mesclam exaltação devocional e conceitos metafísicos, celebrando a união com Śiva.
    • Outras tradições devocionais, como a literatura em língua tâmil (Nayanmār, Tirumūlar), o Periya Purāṇam, as poesias bengalis à Dēvī, e os versos da mística Lallā (Lalleshvarī), testemunham o encontro entre bhakti e tantrismo.
    • O movimento vishnuíta dos Vaiṣṇava Sahajiyās, centrado na união mística com Rādhā e Kṛṣṇa, exemplifica a fusão da bhakti com práticas tântricas.
  • O papel essencial do guru no tantrismo como mediador da graça e transmissor da sabedoria suprema, sendo elevado à condição divina.

    • Os tantras prescrevem a veneração ao guru, considerado superior à própria divindade, como no Kulārṇavatantra: “O guru é um pai, o guru é uma mãe, o guru é Deus, o Senhor supremo.”
    • O culto ao guru inclui a adoração da linhagem iniciática (guruparamparā), das sandálias (gurupādukā) e de sua família, tida como partícipe da força espiritual.
    • Certos gurus são considerados “não formados” (akalpita), iniciados diretamente pela divindade, ou “formados-não formados” (akalpitakalpita), tendo obtido o conhecimento por bhāvanā.
    • Os Śivasūtra afirmam: “O mestre é a via (gurur upāyaḥ)” (2.6), e a Jayākhyāsaṃhitā vishnuíta declara: “O Onisciente toma a forma do guru (sarvajñaḥ gurumūrtigaḥ).”