VIDE: ABBA
DEUS-PAI NOS PROFETAS
Somente nos profetas é que o conceito de Deus como Pai adquire todo o seu sentido no Antigo Testamento. Quantas vezes os profetas não foram obrigados a repetir que Israel só correspondia ao amor paternal de Deus por uma constante ingratidão. A maior parte dos textos proféticos referentes a Deus como Pai denunciam com insistência e paixão a contradição que se manifesta entre a filiação de Israel e sua impiedade. . .
E agora me invocas, não é verdade?
"Meu Pai,
vós sois o companheiro da minha juventude!
Terá que guardar eterno rancor?
Terá que conservar ressentimento para sempre?"
Assim falas; mas depois fazes o mal que podes! (Jr 3,4s).
E eu disse: "Como posso colocar-te
entre os meus filhos
e dar-te uma terra invejável,
a gema das nações como herança?"
E acrescentei: "Chamar-me-eis pai,
e não hesitareis em vir após mim".
Como, porém, uma mulher é infiel
ao seu amante,
assim vós me fostes infiéis,
ó filhos de Israel, diz o Senhor (Jr 3,19s).
Um filho honra seu pai,
e um servo teme o seu senhor.
Mas se eu sou Pai,
onde está a honra que me corresponde?
E se sou senhor,
onde está o temor que se me deve? (Ml 1,6).
A resposta constante de Israel a este apelo à penitência é: "Tu és o meu (ou o nosso) Pai" — Abbinu atta. No trito-Isaías, este grito tornou-se um apelo supremo à misericórdia e ao perdão de Deus:
Contemplai do céu e observai
da vossa santa, magnífica morada:
Onde estão o vosso zelo e a vossa força,
a ternura de vossas entranhas
e a vossa misericórdia?
Não fiqueis insensível,
porque sois nosso Pai (abbinu atta).
Não é Abraão que se preocupa conosco,
Israel nem sabe quem somos,
mas vós, Senhor, sois o nosso Pai,
e nosso Víndice, desde todos os tempos,
é o vosso nome (Is 63,15s).
E, no entanto, Senhor, vós sois
o nosso Pai,
nós somos a argila e vós o nosso oleiro;
somos todos obra de vossas mãos.
Não vos irriteis em extremo, Senhor,
e não vos lembreis eternamente da culpa (Is 64,7s).
Deus responde a este apelo de Israel pelo perdão. Os 11,1-11 faz disto uma descrição comovente. Compara-se Deus com um pai que, ensinando a andar ao seu filho Efraim, carregava-o nos braços:
E eu ensinava Efraim a andar,
tomava-o nos braços. . .
Como te hei de abandonar, Efraim?
Deixar-te à mercê de outros, ó Israel? (Os 11,3.8).
Do mesmo modo o profeta Jeremias encontrou os acentos mais tocantes para expressar o perdão de Deus:
Com lágrimas partiram,
no meio de consolações os trarei de volta;
levá-los-ei aos arroios de água,
por um caminho reto, que os não cansará,
pois serei um pai para Israel
e Efraim será meu primogênito (Jr 31,9).
A misericórdia paternal de Deus ultrapassa toda compreensão humana:
Mas é Efraim para mim um filho tão caro,
filhinho de caricias. . .
Com efeito, apenas falo dele,
ou mesmo quando tão só dele me lembro,
basta-me isto para que se me comovam
por ele as entranhas
sinto deveras compaixão dele (Jr 31,20).
A última palavra do Antigo Testamento sobre a paternidade divina é esse "saber" da incompreensível misericórdia de Deus e de seu perdão.