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id da página: 44 Raimon Panikkar – O Ritmo do Ser Raimon Panikkar

Panikkar Ritmo Ser

Raimon Panikkar – O Ritmo do Ser

PANIKKAR, Raimundo. The rhythm of being: the unbroken trinity: The Gifford Lectures Edinburgh University. Maryknoll, New York: Orbis Books, 2013

A. Locus Philosophicus

  • Aceitar o convite para as Conferências Gifford do Centenário é um ato de profunda responsabilidade, sendo eu o primeiro orador de origens catalã, espanhola, indiana e asiática, o que me impulsiona a tentar transmitir algo da sabedoria acumulada dessas vastas regiões do mundo.
  • O mundo contemporâneo, marcado por guerras, colapsos imperiais, tecnocracia e o encontro forçado de tradições, já não se deixa apreender pelos velhos debates entre razão e fé, exigindo antes que detetemos uma mutação profunda na própria realidade, uma verdadeira metanoia ou superação do nous, e não um mero ajuste de paradigma.
  • O desejo de Lord Gifford era que enfrentássemos a realidade com pressupostos diferentes dos das instituições estabelecidas, um desafio que ecoa a admiração de Hegel por Espinosa e que encontra conforto na sentença de Chuang Tzu sobre a mente sábia como espelho do universo.
  • Para que a palavra seja autêntica, o Espírito deve descer sobre o orador e a audiência, libertando-nos do medo e de todas as formas de opressão, inclusive a mais sutil opressão do pensamento convencional, um apelo de urgência queimante no seio da academia.
  • O meu locus philosophicus situa-se na experiência humana dos últimos seis milênios, procurando cristalizar a sua sabedoria para, a partir daí, superar a história e vislumbrar o mito emergente para a aventura pós-histórica da humanidade.
  • A minha originalidade, se alguma existe, não está na busca do novo, mas num regresso às origens como recoletor, recolhendo a vida do imenso campo da experiência humana desde que os nossos antepassados fixaram a sua aventura na escrita.
  • Tudo o que aqui trago é, contudo, radicalmente novo no sentido de uma creatio continua, sendo as ideias expostas o fruto de uma experiência pessoal depurada pelo crivo da sabedoria dos que me precederam e me são contemporâneos.
  • É um erro profundo imaginar o que os antigos diriam no nosso lugar, pois o tempo não é um acidente externo; se Sócrates ou Jesus vivessem hoje, não seriam os mesmos, uma vez que cada existência é "tempiterna", um conceito central para o "Ritmo do Ser" que é perpetuamente antigo e novo.
  • A nossa tarefa é assimilar a sabedoria das tradições e, fazendo-a nossa, permitir que ela cresça, pois a vida é criação, implicando simultaneamente rutura e continuidade, e não mera repetição ou prolongamento.
  • Tal como Plotino descreveu a Natureza a criar a partir do silêncio da sua contemplação, o crescimento humano genuíno é uma parceria contemplativa no próprio ato criativo da realidade, uma ideia que estabelece o clima desejado para o estudo da Teologia Natural no sentido mais lato.
  • Devemos rejeitar a visão do tempo como uma sequência linear e externa, compreendendo-o antes como um aspecto intrínseco de tudo o que existe, vivendo no Ritmo do Ser, e recusar a redução do humano a uma máquina cibernética, afirmando com Bonaventura que cada um de nós é um co-criador.

B. Uma Nota sobre a Linguagem

  • Este livro está escrito numa koiné inglesa, um inglês universal e não nacional, que acolhe no seu seio citações e referências de todo o mundo, e onde a minha própria expressão em inglês é tão morena como a minha pele.
  • Quase cada linha deste trabalho está grávida de ecos e presenças de inúmeros autores do Oriente e Ocidente, com cada palavra carregando a ressonância consciente da sua etimologia, e onde a supressão de notas de rodapé é uma opção deliberada para combater o monoculturalismo ocidental ainda reinante.
  • A forma de exposição predominante no Ocidente moderno, linear e conceptual, contrasta com a tradição oral e circular de muitas línguas, onde as palavras conotam mais do que denotam e o entendimento é um processo sinfónico e rítmico entre autor, leitor e a realidade, algo que os escritos fixos dificilmente capturam.
  • As limitações do inglês contemporâneo, como a distinção radical entre humanos (he/she) e não-humanos (it) e a ausência de gênero gramatical para ideias abstratas, são obstáculos para expressar uma visão de mundo mais integrada, pleiteando-se pelo uso de um utrum (um termo que abarca ambos) e pela recuperação do dual gramatical para facilitar uma linguagem advaita.
  • Estamos condicionados pela visão de mundo embutida na linguagem, onde metáforas como "progresso" ou "Deus" como substantivo nos moldam, mas a saída não é o silêncio ou o relativismo, mas uma atitude de paciência, contingência e humildade, aceitando a provisoriedade de cada palavra enquanto veículo contingente da verdade.

C. Perspectiva do Livro

  • Após vinte anos de gestação, a grande tentação teria sido mergulhar nas discussões contemporâneas sobre justiça ou política, mas optei antes por um solo tímido, cantando a partir de uma perspectiva diferente que visa superar o monoculturalismo dominante, mesmo usando as palavras consagradas da tradição ocidental.
  • A perspectiva deste livro é dupla: primeiro, procura superar o monoculturalismo, reconhecendo que palavras como "Mundo", "Ser" e "Deus" não são universais, mas veículos de uma visão particular, um antídoto necessário na presente conjuntura histórica.
  • Em segundo lugar, pretende ser uma obra contemplativa, onde cada frase é o fruto de uma experiência vivida, pois nenhuma palavra deve ser proferida se não brotar da contemplação, e nenhuma contemplação é autêntica se não for alimentada pela ação de uma vida plenamente vivida.
  • O fio condutor da obra, embora sob um novo título, permanece sendo "A Morada do Divino no Mundo Contemporâneo", desenvolvendo não uma cosmologia ou antropologia, mas uma teologia que recusa a compartimentalização do saber.
  • Este livro constitui, em última instância, a resposta acumulada a milhares de cartas não respondidas e a renovação da minha comunhão com uma imensa comunidade de irmãos do passado e do presente, tornando-se assim uma empresa comunitária.