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id da página: 3395 Plotino Tratado 53 Brehier Plotino

Plotino Tratado 53 Brehier

Plotino — Enéadas (traduzidas por E. Bréhier)

VIDE Bréhier: Traité 53 (I, 1) — Qu’est-ce que l’animal ? Qu’est-ce que l’homme ?

Minha tradução, em andamento

I, 1 (53) — O que é o animal? O que é o homem?

1.

A que sujeito pertencem prazer e dor, medo e confiança, desejo e aversão? A alma? A alma usando o corpo? A um terceiro ser composto da alma e do corpo? E esta última questão se desdobra — é a mistura ele mesma? É a uma coisa diferente resultante da mistura? As mesmas questões se colocam para as ações e as opiniões que resultam destas paixões. Para as reflexões e as opiniões, deve-se investigar se todas ou somente algumas dentre elas pertencem ao mesmo sujeito que as paixões. Ainda é necessário considerar a natureza dos atos da inteligência e o sujeito ao qual pertencem; enfim, é preciso ver o que é esta parte de nós mesmos que faz este exame, coloca todas estas questões e as resolve.

É por aí que convém começar, já que as paixões são sensações ou, pelo menos, não existem sem estas.

2.

Mas a respeito da alma, por conseguinte, é preciso investigar se a alma é diferente do ser da alma. Se assim é, a alma é um composto ; e não é absurdo que ela receba formas, que experimente paixões das quais falei, caso a razão lhe permita, e em geral que ela admita hábitos e disposições boas e más. Mas se a alma é idêntica ao ser da alma, ela é uma forma; ela não admite portanto nela nenhum dos atos que é capaz de produzir em um sujeito diferente dela; ela tem um ato imanente e interior a ela; qualquer que seja, a razão no-lo descobre. Neste caso, é verdadeiro afirmar também que ela é imortal; pois um ser imortal e incorruptível não deve sofrer; dele mesmo informa os outros seres; mas não recebe nada deles, senão seres que lhe são anteriores, dos quais não é em nada separado, como por um corte, e que lhe são superiores. Que deveria temer um tal ser, posto que não admite nele nada de estrangeiro? Reservemos o temor ao ser capaz de sofrer. A confiança também não existe nele; ela é própria aos seres que podem ter a temer. Os desejos também não; há os que se satisfazem preenchendo ou esvaziando o corpo; não é a alma que sofre estes estados de plenitude e estes esvaziamentos. Como experimentará ela o desejo de misturar a outra coisa? Um essência permanece sem mistura. Porque desajará ela introduzir nela aquilo que aí não está? Ou do mesmo modo buscar não ser o que ela é. O sofrimento está também muito longe dela. Como e de que ela se afligirá? Um ser simples é suficiente para si mesmo, e permanece tal qual é em sua própria essência. Ela não tem mais também prazer, posto que o bem não se ajunta a ela e não sucede nela; pois ela é sempre aquilo que ela é. Sem sensação, nem reflexão, nem opinião nela; pois a sensação consiste em receber a forma ou as maneiras de ser de um corpo; a reflexão e a opinião revêm à sensação.

Quanto aos atos da inteligência, se os deixamos à alma, temos que examinar como existem nela; do mesmo modo o puro prazer, no caso que possa existir na alma só.

3.

Consideremos agora a alma no corpo, se ela existe a princípio antes dele ou somente nele; dela e do corpo se forma o todo denominado animal. Se o corpo é para ela como um instrumento do qual se serve, ela não se restringe a acolher nela as afecções do corpo, do mesmo modo que o artesão não se ressente do que experimentam seus instrumentos: Mas talvez seja preciso que disto tenha a sensação, porque é preciso que ela conheça pela sensação, as afecções exteriores do corpo, para se servir dele como de um instrumento: se servir dos olhos, é ver. Ora, ela apode ser alcançada em sua visão, e por conseqüente, passar por penas, sofrimentos, e tudo aquilo que acontece ao corpo; ela experimenta também desejos, quando ela busca cuidar de um órgão doente.

Mas como estas paixões virão do corpo até ela? Um corpo comunica suas propriedades a um outro corpo ; mas à alma? Seria dizer que um ser sofre a paixão de um outro. Enquanto a alma é um princípio que se serve do corpo, e o corpo um instrumento da alma, eles permanecem separados um do outro; e se se admite que a alma é um princípio que se serve do corpo, se a separa. Mas antes que se tenha atingido esta separação pela prática da filosofia, que era isto? Eles estão misturados: mas como? Ou é uma das espécies de mistura ; ou há entrelaçamento recíproco; ou a alma é como a forma do corpo, e não é separada dele; ou ela é uma forma que toca o corpo, como o piloto toca seu timão; ou uma parte da alma está separada do corpo e se serve dele, e uma outra parte aí é uma mistura e passa ela mesma à classe de órgão; a filosofia faz então retornar esta segunda parte à primeira, e ela desvia esta, tanto quanto nossas necessidades o permitem, do corpo da qual se serve, para que ela não passe todo seu tempo a dele se servir.

4.

Ei-los portanto misturados. Por esta união, o elemento pior se aprimora, e o elemento melhor piora: O corpo se aprimora, tomando parte na vida ; a alma piora participando da morte e do desvario. Como a uma alma, da qual a vida é retirada, se juntará o poder de sentir? Ao contrário, recebendo a vida, o corpo toma sua parte das sensações e das afeições que dele derivam. Logo, ele terá o desejo : Pois é ele que desfruta das coisas que ele deseja. Experimentará o temor por ele mesmo; pois é ele que sentirá falta do prazer e que será destruído.

Busquemos ainda o modo de união da alma e do corpo. Talvez não seja nada mais que, por exemplo, aquela de uma linha e da cor branca, quer dizer de duas naturezas diferentes. É um entrelaçamento ? O entrelaçamento não faz a simpatia ; coisas entrelaçadas nada podem experimentar umas das outras; a alma, estando toda difundida através do corpo, poderia dele não experimentar as paixões e ser como a luz, sobretudo se se pode considerá-la como entrelaçada ao meio que ela atravessa. A alma não experimentará as paixões do corpo, devido a aí estar entrelaçada; ela estará no corpo como a forma está na matéria. Mas posto que ela é uma substância, a alma será uma forma separada do corpo, e será preferível considerá-la como se servindo do corpo. Ela é como a forma que se dá ao ferro para fabricar o machado? É então o machado, combinação do ferro e da forma, que age, é o ferro dotado de uma certa forma; e ele age segundo esta forma. É por conseguinte ao corpo que se deve atribuir as paixões que partilha com a alma, mas ao corpo vivo, entendo o “corpo natural, organizado e possuindo a vida em potência”. (Aristóteles) disse bem com efeito que se e absurdo pretender que é a alma que tece, é absurdo também pretender que é ela que deseja e que sofre; é de preferência o animal.

5.

Mas o que é o animal ? O corpo vivo, o conjunto da alma e do corpo, ou uma terceira coisa oriunda das duas primeiras ? O que quer que seja, ou a alma deve, permanecendo impassível, ser, para o corpo, a causa das paixões, ou ela deve sofrer com ele; e se ela sofre com ele, ela experimenta ou a mesma paixão que ele, ou uma paixão semelhante (por exemplo, a um desejo de animal corresponde um ato ou uma paixão na faculdade de desejar).

Examinaremos mais tarde como padece o corpo organizado ; busquemos agora como padece o composto da alma e do corpo, e, por exemplo, como ele sofre. É porque há tal disposição do corpo, pois esta afeição é transmitida aos sentidos, para enfim a sensação alcançar a alma? — Mas não se vê ainda bem como nasce a sensação. Em seguida, há casos onde a pena começa por uma opinião ou um juízo enunciando que uma infelicidade nos atinja a nós mesmos ou a algum de nossos próximos; daí vem a modificação penosa que se estende ao corpo e ao animal inteiro. — Mas não se sabe se é à alma ou ao composto que se deve atribuir esta opinião. Além do mais, uma opinião sobre o mal não guarda a emoção da pena; esta opinião pode existir, sem que a pena aí se ajunte de todo; pode-se também julgar que se é menosprezado, sem ressentir cólera, ou pode-se pensar em um bem, sem ser movido de desejo.

Em que sentido esta paixões são portanto comuns à alma e ao corpo? É porque o desejo vem da faculdade de desejar, a cólera do apetite irascível, e, em geral, a tendência da faculdade das inclinações? Mas então, as paixões não são comuns à alma e ao corpo; elas pertencem à alma somente. Não, diz-se, ao corpo também; pois é preciso um borbulhar do sangue e da bílis e, em geral, uma certa disposição do corpo para emocionar nossos desejos, por exemplo o desejo sexual. Por outro lado, a tendência ao bem não é uma afeição comum, mas uma afeição própria ao homem, e assim é para várias outras tendências; e há certos argumentos que não permitem relacionar todas as tendências ao composto. Enfim, quando um homem ressente os desejos do amor, é certamente este homem que deseja; mas, em outro sentido, é sua faculdade de desejar. Em que sentido? É o homem que começa a desejar, e a faculdade de desejo segue ? Mas como o homem pode desejar, se sua faculdade de desejar não está em movimento? É portanto ela que começa ; mas como começará, se, de antemão, o corpo não tenha recebido tal ou tal disposição?