Satan – Études Carmélitaines. Paris: Desclée de Brouwer
O príncipe das trevas em seu reino
Possa tu libertar-me deste profundo nada,
do abismo tenebroso que é pura consumação,
que nada é senão torturas, feridas até a morte,
e onde nem socorro nem amigo se encontram!
Jamais, em tempo algum, a salvação ali se encontra.
Tudo está pleno de trevas...,
tudo está pleno de prisões; nenhuma saída ali se encontra,
e um só fere com golpes todos os que ali chegam.
Árido de secura, queimado pelo vento tórrido,
nenhuma verdura jamais ali se encontra.
Quem me libertará disso, e de tudo o que fere,
e quem me salvará da angústia infernal?
E choro por mim: “Que eu disso seja libertado,
e das criaturas que se devoram entre si!
E os corpos dos humanos, as aves do espaço,
e os peixes dos mares, as feras e os demônios,
quem me afastará disso e me libertará
dos Infernos destruidores, sem volta nem saída?”
Salmo maniqueu de Tourfan.
(Fragmento T II D 178 (em parto ou “iraniano do norte”). Texto e tradução alemã em E. WALDSCHMIDT e W. LENTZ, Die Stellung Jesu im Manichäismus (APAW = Abhandlungen der Preussischen Akademie der Wissenschaften, 1926, IV, pp. 112-113). A tradução francesa aqui reproduzida é de M. É. BENVENISTE e foi publicada no número de 25 de agosto de 1937 da revista Yggdrasill, p. 9).
Há no maniqueísmo uma profusão inumerável de demônios ou entidades maléficas (Arcontes, Potências das Trevas, Devân ou Devs, Yakshas, Peris, Raksas, Razan, Mazandaran, Abortivos, etc.). (Sobre essas denominações e outras designações que seria ocioso enumerar aqui, ver, por exemplo, os textos publicados por E. WALDSCHMIDT e W. LENTZ (APAW, 1926, IV, p. 101), por F. C. ANDREAS e W. HENNING (SPAW = Sitzungsberichte der Preussischen Akademie der Wissenschaften, 1932, pp. 182-183, pp. 184-186, e 1934, p. 875) ou por W. HENNING (NGGW = Nachrichten von der Gesellschaft der Wissenschaften zu Göttingen, 1932, pp. 215-223, e BSOAS = Bulletin of the School of Oriental and African Studies, XII, 1947, pp. 39-57). Essa progênie infernal, contudo, não se encontra sem divisão em certas classes, nem tal multiplicidade deixa de comportar uma hierarquia. Do conjunto, que domina, emerge a figura de um chefe, de um Arquidêmonio que é, ao mesmo tempo, um Anti-deus e que, nas formas mais simples, senão as mais primitivas, do sistema, traz o nome sinistro e prestigioso de “Rei” ou “Príncipe das Trevas”.
Dessa encarnação maior do Mal, desse Diabo ou, ao menos, desse equivalente do Satã cristão, a melhor e mais completa descrição é dada pelos próprios maniqueus nos capítulos XXVII e VI de seus Kephalaia, coleção de diálogos — reais ou supostos — de Mani com seus discípulos, descoberta em 1931 em Medinet Madi, no Egito, juntamente com outros escritos da seita também traduzidos em copta subakhmímico. Como a estranheza desses textos, o artifício que marca a composição do segundo deles, suas lacunas, e a obscuridade de certos detalhes podem desconcertar o leitor, faz-se seguir sua tradução de uma espécie de comentário geral que, por mais sucinto que seja, bastará, espera-se, para dissipar a maioria das dificuldades e, com o auxílio de traços paralelos ou novos, reforçar o retrato da personagem.