QUANTIDADE E A QUALIDADE (comentários)
Estas duas categorias aristotélicas exigem alguns comentários, quando comparadas, pois são férteis em muitas distinções importantes.
Só as quantidades são comparáveis, e à razão cabe a função da comparação. O que é comparável da qualidade é o quantitativo da qualidade, o grau de intensidade, o que é quantitativamente redutível. Não podemos comparar uma qualidade com outra, uma cor com um sabor, mas podemos comparar um amarelo com um menos amarelo. Na quantidade, o acrescentamento aumenta; na qualidade, não. Um verde mais um verde não formam duas vezes verdes, enquanto uma medida, quantitativa e outra igual formam duas. Só podemos comparar, qualitativamente, quando há duas qualidades especificamente iguais.
Então, o que comparamos é o quantitativo: um objeto, mais ou menos pesado do que outro; um amarelo, mais ou menos amarelo que outro.
As qualidades são heterogêneas. Cada uma forma uma ordem, uma ordem própria, e quando se passa de uma qualidade para outra, passa-se de uma. ordem para outra. Não comparamos o verde com o pesado, a cor com o sabor. As quantidades, como qualidades, são incomparáveis e incomensuráveis. Quando dizemos que a cor tal é o resultado de tantas vibrações, e comparamos quantitativamente com outra cor de vibrações luminosas de menor número, comparamos apenas o quantitativo, o número das vibrações, não a qualidade. Não se deve argumentar com as comparações estéticas, que falam de um som verde, ou de um som azul, porque não são comparações, mas transposições, substituições, metáforas.
Os psicofísicos quiseram comparar as qualidades sob a base das intensidades, reduzindo-as à extensão. A razão prefere a quantidade. E vamos mostrar por que.
O que aparece é a qualidade. (A figura, estereométrica, dos corpos é uma delimitação qualitativa da quantidade. Esta, em si, não é captada pelos sentidos, mas sempre no conjunto qualitativo-quantitativo, pois o tato, que é o sentido em que há predominância do quantitativo, nunca exclui a qualidade). Nós vemos objetos que são amarelos, azuis, encarnados, pesados, leves, velozes, etc. A quantidade revela-se logo. A razão busca o mais firme, o mais sólido; e não o que aparece, o que muda, cambia. Procura a quantidade, porque esta permite a comparação. Podemos comparar quantitativamente um livro com uma mesa e dizer que aquela contém 10 livros deste de largura. Mas as qualidades já não podemos fazê-lo do mesmo modo. A qualidade, por definição, tende para o diferente. Pela quantidade a razão une, sintetiza. Boutroux (1845-1921) combate o que ele chama de racionalismo quantitativo, que tende para reduzir a qualidade à quantidade. “...a, hipótese de uma quantidade pura de toda qualidade. . ., mas que idéia se pode fazer de tal objeto? Uma quantidade não pode ser senão uma grandeza ou um grau de qualquer coisa, e essa qualquer coisa é precisamente a qualidade . . .”
Em suma: a quantidade é incompreensível sem a qualidade. Uma implica a outra. São dois conceitos, um da razão e outro da intuição, que se implicam dialeticamente. A abstração pura da quantidade, como da qualidade, leva a um «impasse» da razão, como se vê no racionalismo. Ambas, abstratamente (tomada em separado), tornam-se ininteligíveis. Concretamente consideradas (dialeticamente), em conjunto consideradas, completam-se. É mais um antagonismo que se complementa, porque é resultado do funcionamento dialético da inteligência.