VIDE: ANASTASIS; PAIXÃO; CORPO DE RESSURREIÇÃO; RESSURREIÇÃO DO JOVEM; RESSURREIÇÃO E JUÍZO FINAL; RESSURREIÇÃO E MATERNIDADE VIRGINAL
François Chenique: SARÇA ARDENTE
Na Ressurreição, a alma toma consciência que Deus só é real; ela reencontra a princípio em Deus tudo aquilo de que se destacou nos mistérios doloroso, segundo a fórmula: Tudo o que amo é infinitamente me Deus.
Roberto Pla:
Evangelho de Tomé - Logion 58
Somente por conta da humildade completa está a luz do Cristo “oculto”, não visível, cuja presença ou vinda interior cresce e se faz mais perceptível a medida que o peso da alma decresce por negação de si mesma. Desse Cristo falava em especial Jesus a seus discípulos quando os disse: “Dentro de pouco não me vereis e pouco depois voltareis a me ver” (Jo 16, 16-19).
Jesus falava de sua ressurreição segura e além do mais, do outro mistério cristão não fundado na morte e nova vida De Cristo manifesto, senão na Vida eterna, sem morte, do Cristo oculto, pronto a “ressuscitar” de seu cativeiro temporal, resplandecente como corôa da Vida, para quem suporta e vence a prova do sofrimento pela fé. Esta foi a promessa feita aos que o amam.
Segundo se diz no evangelho, em um sopro de Cristo é enviado o Espírito da Verdade, ao qual o conhecemos sem sabê-lo como espírito ou essência de nossa consciência, do “nós mesmos”, pois dele se disse: “Mora convosco e em vós está”. Com efeito, por conta das línguas de fogo do conhecimento que se expandem desde o espírito, é possível ver, embora “o mundo” não veja em toda ocasião, a luz resplandecente do Cristo oculto, e nesse dia de contemplação, tal como disse Jesus, sabereis que “eu vivo, e vós vivereis” (Jo 14, 17.19)
Jesus descreve em parábola a primeira presença (a primeira intuição dessa presença eterna), ou vinda interior do Cristo “oculto” no homem, com a imagem da tristeza de uma mãe quando chegou a hora do parto, eu gozo que o sobrevém depois, quando vê que nasceu um homem novo no mundo (Jo 16, 21-25). Do que fala Jesus verdadeiramente é do nascimento na alma do Filho do Homem, o vindo do alto, o ressuscitado “dentre os mortos”. É assim como Jesus fala em parábola do Cristo eterno, “levantado” na consciência.
Tanto a consolação que vem do Espírito da Verdade, com a vida eterna, consistem em ser a corôa de plenitude reservada para o bem-aventurado que supera os sofrimento da prova da fé. O primeiro passo para a redenção, árduo e prolongado às vezes, se funda, não há que esquecê-lo, na fé do que crê com firmeza que o Cristo, o Cristo “oculto” está sempre presente nele, tal como se disse ao promulgar a Boa Nova: “O Reino está próximo”. Em verdade, o Reino, e com ele o Cristo, está próximo, muito próximo, do que crê, embora pareça muito distante, muito afastado, para o que ainda não crê.
Jesus explica tudo isso:
“Naquele dia compreendereis que eu estou em meu Pai, e vós em mim e eu em vós” (Jo 14,20).
Acerca da ressurreição dos corpos, não neste mundo terreno no qual Jesus fez, segundo ficaram consignadas, várias ressurreições “temporais”, senão “naquele mundo”, no Reino (eterno) dos Céus, muito pouco se diz nos evangelhos. Se se exclui deles a ressurreição de Jesus e suas aparições corporais (incorpóreas ou não), que pertencem a um âmbito de exceção não só pelo duplo sentido oculto e manifesto, senão pela extrema dignidade da pessoa de Jesus, não há outro testemunho do reviver de um morto vivente corporal.
- Se dizemos “temporais”, é porque aqueles “bem-aventurados” que foram ressuscitados, tiveram breve ventura pois continuaram sendo mortais. Em verdade, a filha de Jairo, o filho da viúva de Naim e Lázaro, morreram duas vezes, e não se sabe se isto deve ser qualificado de ventura, ou de desgraça.
Só Mateus transmite uma notícia de caráter escatológico, mas dado que não pôde ter conhecimento direto do dado que consigna, nem explica o testemunho indireto ao qual teve acesso, não pode ser tomada sem reservas, quer dizer, segundo a vertente manifesta, o que pode ser uma interpretação de signo oculto: “Se abriram os sepulcros e muitos corpos (incorpóreos ou corpóreos? ) de santos defuntos ressuscitaram” Calvário.
No entanto, frente à escassez de informação a respeito do acesso dos corpos à glorificação, há abundância de passagens evangélicas onde se menciona e confirma a condição intrinsecamente corporal do corpo, sem nenhum outro horizonte de ressurreição: “Não temais aos que matam o corpo, mas não podem matar à alma; temei mais àquele que pode levar à perdição alma e corpo na geena”. O não temor à morte somente do corpo nesta passagem, parece confirmar a nula implicação do corpo com a consciência, com o “sujeito” pessoal, e sua simples valoração como vestimenta privilegiada da alma. Como ao dizer: “(Não é) o corpo mais que a vestimenta?”
Quanto à ressurreição, na única perícope em que fala Jesus diretamente da ressurreição, no diálogo que sustenta com os saduceus sobre a ressurreição dos mortos, explica Jesus bem claro que os que alcancem a ser dignos de ter parte “naquele mundo” (o Reino de Deus), e na ressurreição dentre os mortos, não podem já morrer, “porque são como anjos”, quer dizer, “puros espíritos sem corpo”, que veem continuamente o rosto do Pai.