Glória Ribeiro: Excertos de "Ensaios de Filosofia"
No sermão "A excelência de Marta sobre Maria", Eckhart lança por terra a primeira impressão que nos causa esta passagem, qual seja: a de que a atitude contemplativa de Maria seja uma atitude privilegiada face à praticidade que caracteriza a ação de Marta. Ao analisar o modo como Jesus, ao responder às solicitações de Marta, a chama duas vezes pelo nome, Eckhart nos mostra que o que está em jogo nesta passagem é a primazia de Marta sobre Maria. Não no sentido de a atitude de Marta ser mais importante do que a de Maria, mas no de ser primeira. Ou seja, é desde a ação de Marta que a atitude de Maria pode se dar. Mas, antes de entrarmos propriamente na análise feita por Eckhart, é necessário elencar as imagens que compõem esta passagem do evangelho.
Jesus: é um viajante, enquanto tal, é aquele que não tem morada fixa. Todos os lugares onde é acolhido são sempre provisórios. São, concomitantemente, o lugar ao qual chega, e do qual parte; o limiar, o ponto de "repouso" entre a chegada e a partida. Sendo que, ao ser recebido pelas irmãs, este viajante (este errante) emerge como o elemento fundamental que torna patente o modo de ser de cada uma delas. E ainda: é ele quem dá medida à atitude de Marta, Ele lhe mostra o quão desnecessária é a sua preocupação com Maria.
Marta e Maria: são irmãs, ou seja, possuem a mesma proveniência, o mesmo sangue as anima e as mantém. Cada qual, à sua maneira, acolhe Jesus na casa que lhes pertence.
Maria: é aquela que não se ocupa com os preparativos que devem tornar a casa apropriada para acolher Jesus. Ela apenas anseia por contemplá-lo, por colher os seus ensinamentos.
Marta: é aquela que se ocupa com os serviços da casa, de modo a torná-la acolhedora para melhor receber Jesus. Sendo que, nesta ocupação, permanece quase indiferente à presença do seu hóspede.
A casa: é onde as irmãs recebem Jesus. Compreendida como uma construção, a casa é o lugar onde habitamos, no qual se concretiza de forma imediata os nossos cuidados e desmazelos. Ou seja, ela expressa o que somos, a nossa intimidade. De outro modo dizemos, por exemplo, que Roboão pertence à casa de Davi, para indicar que ele pertence à mesma geração de Davi. Poderíamos então dizer que a casa nos remete para o nosso ser mais íntimo, para aquilo a que pertencemos.
Elencadas as imagens que compõem esta passagem do evangelho, é preciso agora situá-las dentro do sermão de Eckhart. Não sem alguma precipitação, diremos: Maria representa o saber teórico, o saber contemplativo por excelência; Marta o não saber, ou, se se quer, o saber prático; Jesus, o Uno no momento em que este se faz presente no homem; a casa à qual pertencem Marta e Maria, a alma que deve acolher o Uno, o Ser Absoluto. Mas, o que se quer compreender aqui por alma?
VIDE Alma e Imagem, Saber e Não-Saber e Marta