ANGELUS SILESIUS. L’errant chérubinique. Tradução: Roger Munier. Paris: Éditions Planète, 1970
Resumo
"O meu reino não é deste mundo". Deste célebre dito dos Evangelhos (Jo 18:36), se dá freqüentemente uma interpretação triste; aqui estamos longe de Deus; uma espera paciente e impaciente no vale das lágrimas seria nossa única relação com um Paraíso futuro. Pode-se interpretar de outra forma o dito dos Evangelhos: como Deus não pertence ao mundo visível e tangível, certamente convém se distanciar do mundo e dos homens, mas este retiro, ao invés de desaguar na ausência árida do exílio, conduziria ao contrário a uma descoberta maravilhosa: desde aqui em baixo, em resposta à oração do Pater, o reino de Deus vem e o homem pode saborear um gostinho do Paraíso. Vivendo neste mundo, o místico é aquele que desde já pertence ao Outro mundo, movimento pelo qual a Eternidade antecipa seu próprio tempo posto que vai além daquilo que se considera ordinariamente como inelutável preâmbulo de sua vinda: a Morte, movimento afirmado com força por este aforismo de Angelus Silesius:
Pensar que o reino de Deus é possível desde este mundo é já muito, e no entanto Angelus Silesius não se contenta desta afirmação: em uma fórmula que vale por sua concisão, por seu toque — por isto a forma dos aforismo é necessária — fórmula que arrisca passar por uma ofensa, mas que rigorosamente visa advertir, a despertar o leitor, Angelus Silesius diz:
Lendo todos os aforismo pode-se experimentar um certo tédio, pois existem várias repetições, mas certas afirmações são tão inesperadas, tão novas e desconcertantes que a ição pode ser ouvida, levada a sério e aplicada na condição de ser redita, segundo Silesius:
Pare, para onde corres? O céu está em ti. Buscas Deus primeiro, tu o negligencias sem fim (I, 82).
A meta de Angelus Silesius é clara: entrar desde este mundo no reino de Deus, mas se o divino pode se encarnar, ele não poderia se humanizar sem perder sua transcendência, por conseguinte sem se perder ele mesmo, e eis porque cabe ao homem tornar-se Deus, de assim tornar-se pela graça aquilo que Deus é por natureza ou, mais exatamente, de se deixar divinizar por Deus (vide theosis): “Tornar-se sensível a Deus, escreve Angelus Silesius, é o mais alto culto. (IV, 150). Quando se lê Angelus Silesius, percebe-se rapidamente que de pronto o mundo e os homens são postos a parte: restam apenas em presença um homem se não é divinizado, pelo manos angelizado: um Querubim, e Deus mesmo, mas este diálogo é somente uma etapa provisória posto que o que é buscado é a união com Deus ou, melhor ainda, a Unidade, ponto ômega jamais definitivamente alcançado onde o homem seria tão absorvido e reabsorvido em Deus que não restaria nada mais que Deus. Como alcançar à Unidade? Em imitando o Cristo. Não parece que Angelus Silesius vê a princípio em Jesus o Crucificado, mas sim a Criança-Deus:
O melhor é ser uma criança. Posto que Deus mesmo, o maior, se fez pequenino, Todo meu desejo será de ser como uma criança (III, 25).