FERNANDO PESSOA. ROSEA CRUZ. Lisboa: Edições Manuel Lencastre 1989. Textos em grande parte inéditos, estabelecidos, coordenados e apresentados por PEDRO TEIXEIRA DA MOTA
Os textos que agora apresentamos provêm do espólio de Fernando Pessoa depositado na Biblioteca Nacional de Lisboa. Dispersos por vários envelopes de catalogações temáticas diferentes, foram recolhidos ao longo destes últimos três anos e constituem uma publicação exaustiva dos textos intitulados R.C., ou dos que, intitulados Ocultismo, Franco-Maçonaria, Átrio, Subsolo, Caminho da Serpente, Iniciação e Ordem Templária de Portugal, contêm referências rosi-crucianas. Para além destes, procurámos nas mais diversas cotas do espólio os que pudessem ter referências à Rosa Cruz. Se a grande maioria dos textos é inédita, alguns, sobretudo os dactilografados, já foram publicados por outros estudiosos.
Muitos fragmentos só conseguiram ser lidos após pacientes labores de decifração e uns poucos ficaram ainda nesse limbo do indecifrável ou de leitura incerta, dos quais reproduzimos alguns, em fac-símile, para possíveis desvendações ou rectificações. Aos poucos foram-se estabelecendo ligações entre os diversos fragmentos, desde os tipos de papéis usados, às grafias e temáticas e, aprofundando-se a compreensão e a sintonia, foi emergindo uma possível datação, paralela à evolução de Fernando Pessoa nestes assuntos e em si mesmo. Ê assim da nossa responsabilidade a arrumação cronológico-temática dos textos.
A compreensão do percurso e da obra de Fernando Pessoa, sobretudo no seu aspecto hermético, tem ainda que ser considerada provisória face aos textos inéditos existentes no espólio e à subtileza do tema, que exige uma capacidade interior, quase diríamos, Rosa Cruz, difícil nos nossos dias. Sendo tão numerosos os escritos que publicamos, estes requerem, naturalmente, uma escolha pessoal do que, meditados e vividos, poderão suscitar alguma luz e amor. Os nossos comentários e notas serão poucos, não só para não sobrecarregar o leitor, como também por outras razões. Entre estas sobrevalerá a necessidade de estes escritos serem dados a conhecer o mais cedo possível, de modo a permitir um melhor aprofundamento da vida e obra de Fernando Pessoa e da Iniciação, que é o cerne da demanda da Rosea Cruz.
A Demanda de Fernando Pessoa ao longo dos anos pode parecer um percurso labiríntico, mas o fio foi encontrado, e a saída ou centro intuídos e registados, podendo nós agora partilhar deste caminho. Os seus textos sobre a Rosea Cruz oferecem-nos este ensejo.
Desde muito jovem interessado pelo mistério e pela metafísica, como o testemunham poemas intitulados «Metempsicose», «O Círculo» e «Nirvana», ou fragmentos de ensaios, numa precocidade que ia já de encontro à sua tese «o génio é um iniciado de nascença», será, contudo, com a idade que, ao receber mais conhecimentos e ao despertar a sua consciência, conseguirá desvendar algumas dessas interrogações misteriosas. Mas quanto trabalho e sofrimento para retomar esse fio de Ariane...
Há um carta datada de 1915, dirigida ao seu malogrado amigo Mário de Sá Carneiro, onde Fernando Pessoa escreve, a propósito da leitura dos livros teosóficos que fora convidado a traduzir: «O carácter extraordinariamente vasto desta religião filosofia; a noção de força de domínio, de conhecimento superior extra-humano que ressumam as obras teosóficas, perturbaram-me muito. Cousa idêntica acontecera há muito tempo com a leitura de um livro inglês sobre Os Ritos e os Mistérios dos Rosa-Cruz. A possibilidade de que ali, na Teosofia, esteja a verdade real me hante.» (sic)
Será esse livro de Hargrave Jennings, que tanto o impressionou, que efectuará a sua primeira ligação com a Tradição hermética rosicruciana (se bem que já tivesse lido algumas obras sobre ocultismo). Atestam-no várias anotações ao livro, mais de uma vez consultado, bem como as citações frequentes nos fragmentos escritos e agora transcritos. Essa obra, embora contivesse algumas relações histórico-simbólicas algo aleatórias, ocultava certas indicações iniciáticas para quem as soubesse receber e, com certeza, para o jovem Fernando Pessoa, pois não foi em vão que vibrou animicamente... Acrescente-se o fato de Jennings ter pertencido à «Societas Rosicruciana in Anglia», com Bulwer Lytton, o autor do «Zanoni», fundada em 1867, e donde, em 1888, saiu a «Golden Dawn», ordem a que pertenceram Mathers, Crowley e Yeats e da qual Fernando Pessoa recebeu alguns ensinamentos mais tarde.
A seguir apresentamos alguns excertos e relacionamos páginas com citações extraídas desta obra.
Excertos e citações
- Pessoa: Os herméticos
- Pessoa: Philosopho Hermetico I
- Pessoa: Philosopho Hermetico II
- Pessoa: Philosopho Hermetico III
- Pessoa: Ciência Oculta
- Fernando Pessoa - Bem e Mal