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id da página: 8212 Rosenzweig – Estrela da Redenção – A figura ou o sobre-mundo eterno – Pórtico Serafim Rose

Rosenzweig Pórtico

Franz Rosenzweig — ESTRELA DA REDENÇÃO

Terceira parte: A figura ou o sobre-mundo eterno

  • PÓRTICO
    • Retrospectiva: A Face da Figura
      • Face de Deus
      • Dia de Deus
      • Tempo de Deus
      • Os deuses eternos
      • O Deus dos deuses
      • A face do homem
    • Perspectiva: o Cotidiano da Vida
      • A última realidade
      • A primeira realidade

I. A FIGURAÇÃO DA VERDADE E A FACE DE DEUS

  • O que é eterno tomou figura na verdade, e a verdade não é nada mais que o rosto desta figura.

  • A verdade é o único rosto dessa figura.

  • A advertência sobre a forma da revelação no contexto da Escritura:

    • "Vocês não viram uma figura, vocês ouviram somente uma voz", conforme dito no contexto e no quadro da Revelação.
  • A inversão da experiência na redenção

    • No mundo posterior e superior, o mundo que recebeu a Redenção, a palavra se cala.
    • Neste mundo achegado e pacificado, é dito: "Que Ele faça brilhar sobre ti a Sua face."
  • O Rosto de Deus como única verdade

    • Esta luz irradiada pela face divina é a única a ser a verdade.
    • Não é uma figura que flutua livremente para si, mas exclusivamente o rosto de Deus que se ilumina.
    • Fazer luir o rosto sobre alguém significa que Ele se volta para essa pessoa, permitindo que o conheçamos.
  • A natureza autêntica e inautêntica do conhecimento da verdade

    • Este conhecimento não é impróprio, mas conhece a verdade tal como ela é em Deus: como Seu rosto e Sua parte.
    • Mesmo quando este rosto se volta para nós e a parte de Deus se torna nosso quinhão, ela não se torna verdade inautêntica; ao contrário, como verdade autêntica por excelência, ela nunca seria nada mais que parte e rosto.
  • A Estrela da Redenção como figuração da verdade divina

    • Na Estrela da Redenção, a verdade divina torna-se figura, e nada mais se ilumina senão o rosto que Deus virou para nós em todo o Seu esplendor.
    • No rosto divino, se reconhecerá novamente a Estrela da Redenção através da figura em que ela finalmente se levantou para nós.
    • A conhecimento da Estrela da Redenção só se completará nesta sua nova forma de reconhecimento.

II. O DIA DE DEUS E A ORDENANÇA DOS ELEMENTOS ORIGINAIS

  • O conhecimento da via sem a contemplação da figura impedia a fixação da ordenança dos elementos originários.
  • A ordenança mútua dos elementos no tempo da via
    • O "talvez", que estendia por toda parte seu império ilimitado, havia se desmoronado.
    • A ordenança mútua segura de Deus, mundo e homem imbricados se dava na via.
    • A sequência das três horas que marcam o Dia de Deus atribuía inabalavelmente a relação mútua dos elementos do Todo.
    • A via foi assim reconhecida como a via do astro ao qual pertencem estes elementos.
  • A possibilidade de permutação na aparição da Estrela
    • No momento em que a Estrela apareceu, parecia que ela pudesse ainda girar sobre si mesma.
    • O mundo e o homem pareciam viver o seu dia próprio, distinto do Dia de Deus, dentro do desenrolar solidamente fixado dos três tempos do Dia de Deus.
  • A Redenção sob diferentes perspectivas
    • Para Deus somente, a Redenção era realmente a realidade última.
    • Para o homem, a Criação à imagem de Deus significava a Redenção recebida para todas as realizações possíveis.
    • Para o mundo, a descida de Deus na Revelação significava a Redenção recebida para todas as realizações possíveis.
  • A Terceira Parte e a anulação da permutabilidade
    • O esforço da terceira parte, que falava da eternidade do supra-mundo, era mostrar que não é assim.
    • A aparente possibilidade de permutação foi cercada por figuras que tiveram sua posição firmemente atribuída na eterna verdade do Dia de Deus.
  • A antecipação da Redenção do mundo na Revelação
    • Na vida eterna, o mundo via sua Redenção antecipada graças à Revelação, na qual já há tudo.
    • A Revelação ao povo único plantou a Vida eterna, a qual não se transforma mais.
    • Esta vida eterna reaparecerá um dia no fruto da Redenção tal como foi plantada.
    • No mundo visível, já está implantada realmente uma parte da Redenção, e se verifica que, vista a partir do mundo, a Revelação é no fundo já a Redenção.
  • A Criação como Redenção do homem
    • A via eterna recomeça com o homem feito à imagem de Deus, imagem inata em si.
    • A Revelação se produz no novo Adão, sem pecado e sem queda, e está já presente nele.
    • O homem habitado de alma se apropria desta criação renovada à imagem de Deus com o nascimento miraculoso do segundo Adão, e é herdeiro da Redenção.
    • O estado de Redenção lhe pertence em próprio desde a origem, aspirando intensamente a essa apropriação.
    • Verifica-se que, vista a partir do homem, a Criação é no fundo já a Redenção.

III. O TEMPO DE DEUS E AS RELAÇÕES DOS TRÊS TEMPOS

  • As relações entre os três tempos entram em sua disposição mais exata.
  • A sucessão temporal simples e natural para o homem
    • Na Revelação, o homem foi criado como homem, e na Redenção, podia e devia se revelar.
    • Esta relação simples, onde a Criação precede a Revelação, fundamenta o desenrolar da via eterna através do mundo.
    • Fundamenta a cronologia própria, a consciência que se encontra em todo presente situado entre o passado e o futuro e no caminho que leva de um ao outro.
  • A inversão específica da sucessão temporal para o mundo
    • A inversão da sucessão temporal para o mundo recebe sua confirmação visível.
    • Na sua Criação, o mundo experimenta o despertar de sua própria consciência manifesta de si mesmo, ou seja, a consciência de ser criatura.
    • Somente na Redenção é que ele é criado no sentido próprio, adquirindo uma duração estável e a vida permanente, em vez do ser/estar-aí sempre novo surgido no instante.
    • Nesta inversão, o despertar precede o ser no que diz respeito ao mundo.
    • Esta inversão fundamenta a vida do povo eterno.
  • A negação do tempo pela vida eterna do povo eterno
    • A vida eterna do povo eterno antecipa constantemente o fim para torná-lo o começo.
    • Nesta inversão, ela nega o tempo tão resolutamente quanto possível, para se colocar fora dele.
    • Viver fora do tempo, que é exigido de quem quer viver a vida eterna, requer negar o "entre-dois" temporal.
    • Esta negação deve passar ao ato, na inversão, para que resulte um "viver-eternamente" positivo.
    • Inverter um "entre-dois" significa fazer de seu "depois" um "antes" e de seu "antes" um "depois", de sua fim um começo e de seu começo uma fim.
    • O povo eterno age já como se estivesse feito dos mundos e do mundo.
    • Em seus Sábados, celebra o cumprimento sabático do mundo e o torna o ponto de partida de sua existência.
    • O que seria simples ponto de partida no tempo (a Lei), fixa-o como objetivo.
    • Vive precisamente a inversão do entre-dois, negando assim a toda-potência do entre-dois e o tempo que é experimentado na via eterna.

IV. OS DEUSES ETERNOS E O DEUS DOS DEUSES

  • A consolidação das "vistas" do mundo e do homem

    • Sob os signos da vida eterna e da via eterna, as duas "vistas" tornam-se figuras visíveis.
    • Elas se colocam sob o único signo da verdade eterna.
  • A simplificação da questão do ordem dos três momentos

    • A verdade eterna foi reconhecida como a verdade que estará na fim e que jorra na origem de Deus no começo.
    • Verifica-se que unicamente a ordem a partir de Deus, onde a Redenção é realmente a realidade última, faz justiça à verdade última.
  • A habitação das ordenanças do mundo e do homem na ordenança de Deus

    • É precisamente nesta ordenança a partir de Deus que as ordenanças aparentemente possíveis a partir do mundo ou do homem encontram sua morada.
    • Tais ordenanças são figuras necessárias e visíveis, que permanecem seguras sob o reino da eterna verdade e podem pronunciar seu "verdadeiro!".
  • O aprisionamento do paganismo pelo verdadeiro Deus

    • Os deuses eternos do paganismo (o Estado e as artes) são lançados nas cadeias pelo verdadeiro Deus.
    • O Estado, ídolo dos deuses objetivos, e as artes, ídolo dos deuses pessoais, podem reivindicar o lugar supremo no universo, mas o Criador se diverte com suas agitações.
  • A limitação do mundo e do homem divinizados

    • O Criador opõe às agitações conflitivas a ação silenciosa da natureza criada.
    • O mundo deificado encontra sua limite na sua verdade e se estrutura para adquirir da vida eterna.
    • O homem divinizado deve se inclinar e é mandado para se render sobre a via eterna.
    • Ambos, mundo e homem, estão juntos submetidos ao poder de Deus.
  • O aplanamento da luta entre Estado e arte na natureza dominada por Deus

    • O Estado e a arte deveriam se esgotar mutuamente na luta pelo tempo, mas este combate é aplanado na natureza dominada por Deus.
    • Na eternidade da vida e na eternidade da via, o mundo e o homem encontram um lugar um ao lado do outro, invadidos por Deus sem serem divinizados.
  • O Deus dos deuses

    • Somente diante da verdade a megalomania de todo paganismo desmorona.
    • A vontade cega e ébria de se ver a si mesma (que culmina na eterna luta entre o Estado e a arte) é posta diante da potência tranquila e soberana da verdade divina.
    • Esta potência pode indicar a cada um sua parte e pôr ordem no Todo, porque tudo está a seus pés como uma imensa e única natureza.
    • O Estado e a arte, ao se considerarem todo-poderosos, reivindicam possuir a natureza inteira como sua "matéria".
    • Ao limitá-los, a verdade era a única capaz de liberar a natureza desta dupla escravidão e de fazer dela uma natureza da qual o Estado e a arte tomam sua parte, mas não mais.
  • A fonte da força da verdade

    • A verdade tira sua força de pilar portando o Todo da natureza unicamente do Deus que se dá figura nela.
  • O fim do "possível" e do "se"

    • Diante do olhar da verdade, não somente o "talvez" cessa de ter curso (desapareceu há muito tempo), mas ainda o "possível".
    • A Estrela da Redenção onde a verdade toma figura não percorre uma elipse.
    • Visões do mundo e da vida e "ismos" de todas as espécies não ousam mais se manifestar diante deste olhar simples e último da verdade.
    • Os pontos de vista se abismam na única visão permanente, e os "ismos" se esvaem diante do astro da Redenção que se levanta.
    • O que se vê é um fato, e não um "ismo", havendo um alto e um baixo impossíveis de permutar e inconvertíveis.
    • Mesmo aquele que conhece não está mais no direito de dizer "se", sendo subjugado pelo "assim", o "assim-e-não-de-outra-maneira".
  • A imagem necessária do Rosto de Deus

    • Pela razão de haver na Verdade um alto e um baixo impossíveis de permutar, se pode e se deve chamá-la de o rosto de Deus.
    • Fala-se em imagens, mas as imagens não são arbitrárias, havendo imagens necessárias e contingentes.
    • A natureza irreversível da verdade só é expressível através da imagem de um ser vivente, pois só no vivente está inscrita, por natureza, um alto e um baixo.
    • No vivente, a consciência de si desta inscrição reside no homem, que tem um alto e um baixo em sua própria corporeidade.
    • A Estrela deve se refletir no que, no interior da corporeidade, representa o alto: o rosto.
    • Quando a Escritura fala da face de Deus e do detalhe de suas diferentes partes, não são quimeras humanas, pois é impossível exprimir a verdade de outra forma.
    • É somente quando se vê na Estrela um rosto que se está para além de toda possibilidade das possibilidades e na simples visão.

V. O ROSTO DO HOMEM

  • A reflexão da Estrela no rosto
    • A Estrela refletia seus elementos e sua composição em dois triângulos superpostos, formando uma via única.
    • De modo semelhante, os órgãos do rosto também se dividem em dois níveis.
  • O nível fundamental dos órgãos receptivos (primeiro triângulo)
    • Os pontos viventes do rosto são aqueles que o fazem entrar em relação com o mundo circundante, seja esta relação receptiva ou ativa.
    • O nível fundamental é ordenado segundo os órgãos receptivos, sendo as pedras de construção a partir das quais o rosto, a máscara, se compõe: a testa e as faces.
    • Às faces pertencem as orelhas e à testa o nariz.
    • Orelhas e nariz são os órgãos da pura recepção.
    • O nariz pertence à testa e na língua santa aparece para designar o rosto em seu conjunto.
    • O odor dos sacrifícios se dirige a ele, assim como o movimento dos lábios à orelha.
    • Este primeiro triângulo elementar é formado pelo meio da testa (ponto dominante) e pelo meio das faces.
  • O segundo triângulo dos órgãos ativos
    • Sobre o primeiro triângulo se superpõe um segundo, composto pelos órgãos cujo jogo dá vida à máscara fixa: os olhos e a boca.
    • Os olhos não estão em equivalência mimética.
    • O olho esquerdo olha de maneira mais receptiva e mais igual, enquanto o olho direito olha com um olhar penetrante fixo em um ponto.
    • Somente o olho direito "cintila", uma divisão do trabalho que muitas vezes marca a carne que recobre a órbita em cabeças de velhos, tornando-se perceptível de frente, não só na diferença conhecida dos dois perfis.
  • A boca como centro de consumação da expressão
    • Assim como a estrutura do rosto é dominada pela testa, sua vida, que gira em torno dos olhos, concentra-se na boca.
    • A boca cumpre e consome toda expressão da qual o rosto é capaz, seja no discurso, seja no silêncio em que o discurso retorna a se abismar: no beijo.
  • O selo de Deus e o selo do homem
    • É nos olhos que o rosto eterno do homem brilha, e é das palavras da boca que o homem vive.
    • A vida de nosso mestre Moisés, que em vida pôde apenas contemplar e não pisar a terra da nostalgia, foi selada com um beijo de Sua boca.
    • Este é o selo de Deus e também o selo do homem.

VI. PERSPECTIVA: O QUOTIDIANO DA VIDA

  • A realidade última e a visão no santuário

    • No santuário mais interior da verdade divina, o mundo inteiro e o homem próprio deveriam, segundo sua expectativa, decair ao nível de metáfora do que se contemplará lá.
    • Em realidade, o homem não percebe lá nada além de um rosto semelhante ao seu.
    • A Estrela da Redenção se tornou rosto que me olha e a partir do qual eu olho.
    • Não é Deus, mas a verdade de Deus, que se tornou um espelho.
  • A fronteira da vida e a visão permitida

    • Deus, que é o Primeiro e o Último, abriu as portas do santuário construído no centro mais interior.
    • Conduziu a esta fronteira da vida onde a visão é permitida, pois nenhum homem que O vê permanece vivo.
    • O santuário onde a visão foi permitida deve ser ele mesmo, no mundo, uma parte do supra-mundo, uma vida além da vida.
    • O que foi dado a ver neste além da vida é o mesmo que se podia já perceber no centro da vida, com a diferença de que agora se vê ao invés de somente ouvir.
    • As visões sobre os cumes do supra-mundo tocado pela Redenção mostram apenas o que a palavra da Revelação quis significar no coração da vida.
    • Marchar à luz da face divina é dado somente a quem segue as palavras da boca divina.
    • "Ele te fez saber, homem, o que é bom e o que o Eterno teu Deus reclama de ti: nada mais que realizar a justiça, amar com ternura e caminhar simplesmente com teu Deus".
  • A primeira realidade e o incondicional

    • Esta realidade última não é a última, mas algo sempre próximo, sendo a primeira das realidades.
    • Realizar a justiça e amar com ternura ainda têm aparência de objetivo a ser alcançado.
    • Enquanto houver um objetivo, o querer pode respirar um pouco.
    • Caminhar simplesmente com teu Deus não é mais um objetivo; é tão incondicional, livre de toda condição e de todo "primeiro ainda" e de todo "depois de amanhã", é tão hoje e tão eterno quanto a vida e a via.
    • Participa tão imediatamente quanto a vida e a via da verdade eterna.
    • Caminhar simplesmente com teu Deus — nada mais é reclamado aqui senão uma confiança totalmente atual.
    • A "confiança" é a semente que faz brotar a fé, a esperança e a caridade, e o fruto que elas fazem amadurecer, sendo a coisa mais simples de todas e por isso a mais difícil.
    • A confiança ousa dizer "verdadeiro!" à verdade a todo instante.
    • Caminhar simplesmente com teu Deus são as palavras sobre o pórtico que leva para fora do esplendor misterioso e admirável do santuário divino onde nenhum homem pode permanecer vivo.
    • O pórtico se abre para a vida.