Esta anexo vem em complemento do capítulo II do presente trabalho e propõe uma aplicação original e completa de nosso método de “constituição” ao problema particular das funções sociais em sua acepção mais estendida. O que é próprio da estrutura absoluta é estar presente à consciência como um telos imanente, mas simplesmente implícito em toda situação e ser redescoberto a cada vez pela prática da redução, - o que torna perfeitamente vão, deve-se sublinhar de passagem, todo debate para saber se essa estrutura é um dado a priori no sentido kantiano ou um produto da experiência. Partindo de um problema ou de um campo dados - aqui o campo social e sua organização funcional -, o método consiste em liberar de imediato os pares de oposições “elementares” que estruturam esse campo dois a dois, depois colocar esses pares em rotação dialética e estudar os produtos “sucessivos” dessa rotação, que se organizam eles mesmos em pares de pares. Se a polarização de base é pertinente e se a dialética é bem conduzida, o último “produto” é a emergência do Eu transcendental que vem assim fundar e validar retrospectivamente toda a construção, e a tornar no sentido estrito “constituinte”.
Perguntamos então qual é o primeiro par de oposições tão geral quanto possível que caracteriza toda sociedade: esse par só pode ser aquele que opõe e conjuga a administração das coisas e o governo dos homens, o primeiro desses dois polos sendo além disso subordinado ao segundo, e sua distância não sendo diferente daquela que separa a amplitude da intensidade, a quantidade da qualidade, ou ainda os fatores de repetição e de não-repetição que atuam em todos os níveis. No curso da história conhecida, nenhuma sociedade pôde dispensar-se de distribuir bens nem de fazer observar leis. O homem, de fato, só se associa a outros homens para proceder com eles a trocas, e essas trocas elas mesmas implicam um código de equivalências, e consequentemente o respeito de convenções que são a lei das partes. Teóricos puderam propor modelos ideais onde a sociedade se reduzia à administração das coisas, como nos sistemas saint-simoniano, proudhoniano ou marxista, que preveem a supressão ou o definhamento do Estado, mas a experiência nunca foi levada longe o suficiente nem sobretudo com o homem mais geral. A codificação das relações entre os sexos, na medida em que a mulher cessa cada vez mais de ser um objeto, implica aliás por si só a persistência cada vez mais consciente e afirmada do conteúdo “subjetivo” ligado à noção de governo: nenhum automatismo objetivante e propriamente administrativo jamais dará inteiramente conta das condições, ao mesmo tempo universais e individuais, do amor sexual, nem aliás de outras atividades individuais aparentemente marginais, e na realidade fundamentais, como as da arte: todo marxismo “radical” se prepara a este respeito para muitas surpresas. Estamos, portanto, na presença de dois polos, que se pode chamar da física e da política sociais. Como em toda relação, nota-se uma intensificação de um termo para o outro, os homens se colocando acima das coisas. O que chamamos de coisas? Tudo o que é destinado ao consumo de todos, e consequentemente os produtos sociais, sejam bens materiais ou bens intelectuais, na medida em que são comunicáveis, trocáveis, consumíveis por todos, e consequentemente banalizáveis e banalizados. Introduz-se então imediatamente, como em toda física, uma noção de entropia, ou seja, de uniformização crescente dos estados. Essa noção é abstrata, pois se trata de uma noção-limite e mesmo simplesmente tendencial, mas é capital. É o índice da tentação regressiva, igualadora e niveladora em ação em toda sociedade, tentação que outras forças contrariam e que, no entanto, existe. Mas já se deve notar a positividade dessa regressão, que é o fruto não da regressividade social considerada isoladamente, mas da composição dessa regressividade e das forças, não menos necessárias, que a combatem. Essas resistências se devem à existência das consciências individuais que, por natureza, se distanciam de todo consenso coletivo, pois se é da natureza de toda sociedade tender à entropia, é da natureza de toda consciência tender à autonomia e à personalidade. Pelas leis dessa interação, em uma sociedade onde, por exemplo, uma minoria aprendeu a ler, a subida natural da entropia se compõe com a necessidade individual, de modo que a capacidade de ler possa se desenvolver, e que finalmente todo mundo saiba ler: se nada, a longo prazo, resiste ao processo de igualização, é importante reconhecer que ele sempre fixa objetivos nivelados para cima. Existe assim uma qualidade da entropia, mas também uma tendência permanente à qualificação progressiva dessa qualidade. Em uma sociedade onde ninguém sabe ler, a entropia é máxima quanto a essa não-capacidade; mas se, em uma sociedade dita mais avançada, todo mundo sabe ler, a entropia é igualmente máxima, quanto a essa capacidade. Exceto no caso de eventos ou de coações “exteriores” à sociedade considerada e que vêm perturbar do exterior a intenção afirmada por ela (guerra, epidemia, dilúvio), essa tendência à positividade da regressão é, portanto, irreversível, sendo bem evidente que a noção abstrata de “fechamento” ou de “sistema fechado” sem a qual a própria noção de entropia não teria sentido acompanha sempre esta última, em física como em sociologia, mas não tem outra realidade senão a de uma convenção “nos limites”. Em física (segundo princípio da termodinâmica ou lei de Carnot-Clausius) é preciso, por exemplo, dispor de um vaso “fechado” para que as trocas de calor tendam, “no interior” desse vaso, à uniformização da temperatura em um valor médio. Em todo rigor, essa noção é inteiramente convencional e puramente utilitária, ela tende apenas a isolar, na infinidade não manejável das conexões da interdependência universal, certas conexões privilegiadas e de pura “aproximação” que definem fenômenos “úteis”: é aliás por essa razão que as extrapolações do segundo princípio que alienam toda noção de limite ou de fechamento, e por exemplo a noção tão difundida da “morte térmica do mundo” por resfriamento geral, são o tipo mesmo das ingenuidades naturalistas. Em sociologia, o conceito de “fechamento” é de ordem metodológica: ele comanda a aplicação da estatística aos fatos sociais. Um fato só é constituído como “fato social” pela opinião “média” dos membros da sociedade considerada, ou seja, por uma objetivação agindo no interior de um certo campo social cujos limites são os dessa objetivação ela mesma. Sem uma justa compreensão da lei de composição desse campo, é vão pretender situar o alcance puramente estatístico e probabilista de uma doutrina tão importante, por exemplo, quanto o marxismo.
Este primeiro ponto estabelecido, é claro que os dois polos considerados (física e política sociais) são eles mesmos duplos cada um em sua ordem, e encerram assim uma dinâmica. Essa dualidade é ainda a dos fatores de amplitude e de intensidade, ou de repetição e de não-repetição. A administração das coisas se dá por fim não somente a conservação do corpo social, mas também seu enriquecimento, por acréscimo da produção e do consumo dos bens materiais ou intelectuais. Os fatores não repetitivos de acréscimo se destacam sobre os fatores repetitivos de conservação como o ativo sobre o passivo, o objeto sobre o fundo do mundo, o órgão dos sentidos sobre o corpo. Diremos então que a administração das coisas conjuga duas funções, uma que será dita, por exemplo, de manutenção ou antes de execução, a outra de promoção ou antes de gestão. As mesmas observações valem para o outro polo, o do governo dos homens, onde a conservação do código das leis é de essência repetitiva e depende de uma função de poder, enquanto a melhoria, a adaptação desse mesmo código é de essência não repetitiva e depende de uma função de conhecimento. Chegamos assim a quatro ordens de funções e a quatro classes de homens “socializados”: os homens de execução, de gestão, de poder e de conhecimento, o que reproduz a classificação das quatro castas tradicionais nas Índias: os Shudras ou trabalhadores indiferenciados, os Vaisyas ou trabalhadores qualificados, os Kshatryias ou guerreiros e os Brahmanes ou sacerdotes; ou ainda, para as três castas superiores, a hierarquia dos flamines romanos.