Matos Soares
Desejo ardente de voltar a ver o templo
1 Para o fim: Instrução dos filhos de Coré.
2 Assim como o servo suspira pelas fontes das águas, assim a minha alma suspira por ti, ó Deus.
3 A minha alma tem sede do Deus forte e vivo. Quando irei e aparecerei diante da face de Deus?
4 As minhas lágrimas foram o meu pão de dia e de noite, enquanto me dizem todos os dias : Onde está o teu Deus ?
5 Lembrei-me destas coisas, e derramei a minha alma dentro de mim mesmo, porque eu passarei ao lugar do tabernáculo admirável, até à casa de Deus, entre cânticos de alegria e de louvor, (semelhantes) ao ruído dum festim.
6 Por que estás triste, minha alma ? E por que me conturbas ? Espera em Deus, porque eu ainda o hei-de louvar, a ele que é a salvação do meu rosto 7 e o meu Deus.
7 Dentro de mim mesmo está conturbada a minha alma; pelo que me lembrei de ti, na terra do Jordão e de Hermon, e desde o monte pequeno.
8 Um abismo chama outro abismo, ao ruído das tuas cataratas. (E assim) todas as tuas vagas amontoadas e as tuas torrentes passaram sobre mim.
9 Durante o dia enviou o Senhor a sua misericórdia, e de noite o seu cântico. Dentro de mim orarei ao Deus da minha vida,
10 Direi a Deus : Tu és o ¿neu defensor ; por que te esqueceste de mim ? E por que hei-de andar triste, enquanto me aflige o inimigo ?
11 Enquanto os meus ossos são quebrados, improperam-me os meus inimigos que me perseguem, dizendo-me todos os dias: Onde está o teu Deus ?
12 Por que estás triste, minha alma ? E por que me conturbas ? Espera em Deus, porque eu ainda o hei-de louvar, a ele que é a salvação do meu rosto, e o meu Deus.André Chouraqui
Tradução de Paulo Neves
1 Ao corego2
. Perspicaz3
. Dos Benéi Qorah4
.
2 Como o cervo5 brama junto às águas dos riachos assim meu ser brama por ti6 , Elohims.
3 Meu ser tem sede7 de Elohims, do El vivo. Quando8 virei ver as faces de Elohims?
4 Minha lágrima é meu pão9 , dia e noite, quando me é dito todo o dia: «Onde está teu Elohims?»
5 Disso me lembro e derramo sobre mim meu ser: sim, eu passava sob a arcada, deambulava até a casa de Elohims com a voz, o júbilo, a piedade de uma multidão em festa10 .
6 Quê! tu te prosternas, meu ser? E gemes contra mim? Espera Elohims11 , sim, celebrarei ainda as salvações de suas faces.
7 Elohai, contra mim meu ser se prosterna. Assim te memorizo em terra do Iarden, dos Hermons12 , do monte Mis'ar13 .
8 O abismo ao abismo clama à voz de tuas cataratas14 . Todas as tuas rebentações, tuas ondas15 , sobre mim passam.
9 De dia IHWH ordena seu bem-querer, e de noite seu poema16 comigo, a prece ao El de minha vida.
10 Digo a El, meu rochedo17 : Por que me esqueceste? Por que, triste, vou sob a opressão do inimigo?
11 Ao assassínio, em meus ossos, eles me afrontam, meus opressores, dizendo-me todo o dia: «Onde está teu Elohims?»18
12 Quê! tu te prosternas, meu ser? E gemes contra mim? Espera Elohims, sim, celebrarei ainda as salvações de suas faces. Elohai!19Padres
Agostinho de Hipona
- Augustin : DISCOURS SUR LE PSAUME XLI
Jerônimo
Tradução de Antonio Carneiro das páginas 985, 987 e 989
Tratados Vários — VIII Sobre o Salmo XLI, dirigido aos neófitos
Repassando com sagaz atenção o Saltério, não encontrei em nenhuma passagem que os filhos de Coré tenham cantado algo triste, mas sim que seus salmos se mostram alegres e jubilosos: (411) desprezando o terreno e rateiro, desejam sempre alcançar o celestial e eterno, fazendo honra ao significado de seu nome, já que Coré significa "calvície". Por isso, dado que Nosso Senhor e Salvador foi crucificado e sepultado no Calvário, os que creem em sua cruz e sua ressurreição recebem o nome de "filhos de Coré", quer dizer, "filhos do Calvário". Os meninos judeus burlam do Calvário, desde quando Nosso Senhor, o verdadeiro Eliseu, depois de sua ressurreição ascendeu ao reino dos céus; mas os ursos devoraram aqueles que riram dele20 . Em relação ao título, basta o que brevemente acabamos de dizer. Voltemos agora ao princípio do salmo.
Igual como o cervo anseia os mananciais de água, assim, oh Deus, te anseia minh'alma
(Sal 41,2). É próprio dos cervos desprezar o veneno das serpentes; com seus focinhos fazem-nas sair de suas tocas para matá-las e esquartejá-las; e quando o veneno destas começa a arder em seu interior, não chega à causar-lhes a morte, mas desperta neles uma ardente e devoradora sede; então anseiam as fontes e naquelas águas puríssimas extinguem o ardor desse veneno. Do mesmo modo que os cervos anseia pelas fontes, assim também nossos cervos, que, afastando-se do Egito deste mundo, fizeram perecer o faraó em suas próprias águas e deram no batismo morte a todo seu exército, depois de exterminar o diabo, desejam as fontes da Igreja, ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Está escrito em Jeremias (2,13): "Rechaçaram-me, fonte de água viva, e escavaram-se cisternas rachadas incapazes de reter a água". A propósito do Filho podemos ler em outra passagem: "Abandonaram a fonte da sabedoria" (Bar 3,12). Em fim, em relação ao Espírito Santo se afirma: "Quem beber da água que eu der, brotará nele um manancial que manará água até a vida eterna" (Jo 4,13ss), frase que o evangelista esclarece a seguir apostilando que, estas palavras, o Salvador se referia ao Espírito Santo (Jo 7,39). Com isto se ratifica com toda clareza que os três mananciais da Igreja representam o mistério da Trindade.
A alma do crente deseja alcançar estes três mananciais. A alma do batizado também os deseja e por isso disse: Minh'alma sentiu sede de Deus, fonte viva (Sal 41,2). Não quis, pois, ver a Deus ligeiramente, mas sim que desejou com toda sua paixão, sentiu por Ele uma sede ardente.(412) Antes de receber o batismo falavam entre si e diziam uns aos outros: Quando irei e poderei contemplar o rosto de Deus ? (Sal 41,3). Eis aqui que viram cumprida sua petição: chegaram, estiveram em presença do rosto de Deus e se apresentaram diante do altar e o mistério do Salvador. Não merecem contemplá-lo mais aqueles que desde sua consciência e desde o fundo de seu coração dizem: Dia e noite minhas lágrimas foram meu pão (Sal 41,3). Com efeito, durante toda a Quaresma entregaram-se à oração e ao jejum, e dormiram em enxergas e entre cinzas buscando alcançar a vida futura mediante a confissão de seus pecados. Por derramar lágrimas e mostrar-se tristes dizem-lhe: "Quem semeia pranto, colhe alegrias" (Sal 125, 5) e "Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados" (Mt 5,5).
Por tudo isso, ainda que o demônio se mofe deles dizendo-lhes: E onde está teu Deus ? (Sal 41,4), admitidos agora no corpo de Cristo e renascidos na fonte da vida, respondem confiantemente e dizem: Acudirei ao lugar onde se acha o admirável tabernáculo, à casa de Deus (Sal 41,5). A casa de Deus é a Igreja, quer dizer, o admirável tabernáculo, pois nela habita a voz do alvoroço e da louvação e os sons festivos dos banquetes. No céu, anjos e potestades todos se alegram, certamente, de que nossos irmãos sejam agora merecedores de receber a fé e de que alcancem a vida eterna. Se os anjos se enchem de fruição e alegria e de que alcancem a vida eterna. Se os anjos se enchem de fruição e alegria por um pecador arrependido e por uma ovelhinha doente levada aos ombros do pastor, quanto mais não se regozijarão os reinos dos céus por tantos irmãos renascidos e purificados na fonte da vida, e ao ver que os homens, já limpos de seu antigo pecado, se dispõem a ser seus moradores?
Vós, que agora os encontrais revestidos de Cristo e que, seguindo nosso guia, com a palavra de Deus haveis sacados das águas deste mundo, como peixinhos com um anzol, proclamai: "Nós somos de outra natureza". Certo é que os peixes, ao ser extraídos do mar, morrem; mas a nós os apóstolos nos extraíram do mar deste mundo e nos pescaram para revivermos dentre os mortos. Enquanto neste mundo nos achávamos, nossos olhos jaziam no abismo e nossa vida na lama, mas, depois que fomos retirados dentre as ondas, começamos a ver então o sol e a contemplar a luz verdadeira e, transportados por uma excelsa alegria, lhe dirigimos a nossa alma as seguintes palavras: Tem esperança em Deus, pois seguirei dando testemunho d' Ele; salva meu rosto, pois és meu Deus. (Sal 41,6). E logo: Por isso me lembrarei de Ti desde a terra do Jordão e desde Hermon, desde o pequeno monte21 (Sal 41,6). Clamemos também nós ao Senhor desde a terra de Jordão, isto é, desde o rio em que Ele foi batizado; desde o Hermon, quer dizer, desde a maldição deste mundo, pois Hermon significa "anátema"22 ; (413) desde o pequeno monte deste mundo, pois, ainda que um seja santo, enquanto viva neste mundo, não se achará em um grrande monte elevado, mas sim em um pequeno e de pouca altura. E interpretemos os abismos das Escrituras por meio de outros testemunhos tirados delas mesmas. A partir das passagens obscuras do Novo testamento poderemos desentranhar, em meio do fragor das cascadas de Deus, quer dizer, na palavra dos profetas e dos apóstolos, aqueles textos do Antigo Testamento que encerram um mistério para nós e que não alcançamos compreender. Tem passado sobre nós todas as grandezas do Senhor e o sinuoso curso do rio que alegra a cidade de Deus.NOTAS