SCHAYA, Léo. La Création en Dieu: à la lumière du judaïsme, du christianisme et de l’islam. Paris: Dervy, 1983
VIDE: Schaya In principio creavit Deus
A própria frase inicial da Bíblia, esta frase que, lembramos, resume, segundo o conjunto dos comentadores judeus com autoridade, todos os mistérios da criação, não começa, em sua tradução latina, por: Ex nihilo creavit Dem, mas por: In principio creavit Deus. Isto constitui uma primeira indicação direta da creatio in divinis, visto que in principio significa, segundo a exegese espiritual, in divinis. Mas antes de penetrar mais profundamente neste dado escriturário fundamental, traduzamos toda a frase inicial da Bíblia a partir do hebraico: Be-reshith bara Elohim eth ha-shamayim ve-eth ha-arets. [Em hebraico, Be-reshith se escreve, na realidade, em uma única palavra: bereshith; mas separamos aqui de passagem a preposição be do substantivo reshith, para facilitar aos leitores não hebraizantes a compreensão do que se segue. Isto também se aplica a ha-shamayim, we-eth e ha-arets, escritos em hebraico sem hífen.] É em latim: In principio creavit Deus caelum et terram, e em português: “No começo, Deus criou o céu e a terra”; todavia, também poderíamos traduzir: “os dois e a terra”, sendo a palavra hebraica sha-mayim ao mesmo tempo o singular e o plural de “céu”.
Ora, para voltar à tradução latina de be-reshith, a saber in principio, ela reproduz mais completamente o sentido do que a tradução portuguesa “no começo”. Esta, de fato, sugere antes de tudo o simbolismo de um início temporal, enquanto a preposição latina in traduzindo o hebraico be e implicando o sentido local “em”, se junta à simbologia do espaço e situa a criação “no Princípio”. Mas, acabamos de dizer, trata-se, em um caso como no outro, de expressões simbólicas, pois o princípio em questão aqui se situa ele mesmo, tanto além do espaço quanto do tempo, que fazem parte do que ele criou. Seja como for, ao texto original hebraico be-reshith, pelo qual a Bíblia começa, correspondem tanto a tradução “in principio” quanto a tradução portuguesa “no começo”, o próprio termo “começo”, em sua etimologia latina “cum initium”, implicando, por si, os sentidos: “com o princípio”, “com a origem” “com o fundamento”. Ora, todos os significados que acabamos de abordar estão compreendidos em be-reshith, a começar pela preposição be com múltiplos sentidos, a saber, entre outros: “a”, “em”, “por”, “para”, “com”. E da mesma forma que principium tem sua origem em caput, “cabeça”, “ponta”, “chefe”, “parte principal”, “personagem capital” ou “ponto capital”, etc., da mesma forma reshith — o “começo” ou a “origem” — deriva de rosh “cabeça”, “cume”, “chefe”, “o primeiro” ou “o principal”, “antes”, “começo”, “princípio”, “essência”.
Assim, be-reshith, “no começo”, implica eminentemente os seguintes significados: “Em, com, por e para o Princípio essencial, a Origem, o Primeiro” que Ele é Ele mesmo, Deus criou os céus e a terra. Ele é a Causa inicial, o Contenedor infinito, o Conteúdo essencial e a Causa final: “Eu sou o Primeiro (rishon, derivando de rosh), e Eu sou o Último (aharon), e fora de Mim não há Deus” (Isaías, XLIV, 6). “Sou Eu, YHVH (a Essência Divina), quem faz tudo; Eu inclino os céus, Eu sozinho; Eu estendo a terra (com ou) a partir de Mim mesmo (mei-iti)” (ibid., XLIV, 24). “Sou Eu, YHVH, quem os cria” (ibid., XLV, 8). “Porque não há nada exceto Eu” (ibid., XLV, 6) Sendo o único Real, “YHVH fez tudo para Ele” (Provérbios, XVI, 4) e em Ele. “Todas as coisas são dEle, por Ele e nEle”, como também atesta São Paulo: “Ex ipso, per ipsum et in ipso sunt omnia (in ipso implicando ao mesmo tempo o sentido de em e para Ele)” (Romanos, XI, 36). Ele é a Origem, o Ser e a Finalidade da criação, sem fazer “parte integrante” dela; é, pelo contrário, a criação que, por sua natureza finita, se encontra integrada na Infinidade do Criador. Assim, Ele, a Causa, é também, o Contenedor: ela é feita “por e no que é antes (be-reshith)” dela, ou seja, acabamos de ver, por e no “Primeiro”, Rishon, cujo nome deriva de rosh, “antes”. O Criador “precede” eternamente a criação, da mesma forma que está eternamente “depois” dela, como o “Último”, Aharon, — nome que tem sua origem em ahar, “depois”. Mas o “antes” e o “depois”, repetimos, são aqui apenas símbolos temporais indicando o Princípio causal e a Finalidade libertadora e deificante das coisas, a saber, Aquele que as transcende eternamente e infinitamente, ao mesmo tempo que também é a Realidade pura, o Conteúdo essencial e absoluto de sua existência efêmera e relativa, que vai, nEle, dEle para Ele. A água é suas ondas, ao mesmo tempo em que precede e segue seu movimento que acaba por se acalmar nela; então, as ondas não são mais do que sua substância, a qual não sofreu qualquer alteração por sua existência. A Substância ou Essência causal e divina é o Começo (reshith) “sem começo” (beli reshith), — como afirmam os Judeus em sua oração diária, — e é por e neste “Começo sem começo” que todas as coisas criadas começam; da mesma forma, Ele é sua Finalidade (takhlithiuth) “sem fim” (beli takhlith): o finito termina no Infinito, que é sua Substância ou Essência eterna e absoluta. [Não entramos aqui em certas contestações tão raras quanto absurdas do significado fundamental e universalmente reconhecido do termo bereshith, que é o do divino “Começo” ou “Princípio” de todas as coisas. Para citar apenas o exemplo deste “cabalista” moderno, que a substitui por uma das implicações esotéricas — um aspecto particular — do bereshith (escrito BaRAeShITh) que é seu anagrama BeRITh AeSh, “Aliança do Fogo”. Isso mostra simplesmente um desconhecimento do sentido ao mesmo tempo mais profundo e mais universal do bereshith, tal como o expomos em vários capítulos da presente obra.]
O início da Bíblia: Bereshith, “No começo” designa, portanto, este Começo eterno e infinito, cuja Essência pura é o Absoluto; não significa, como tal, o começo cósmico ou a primeira parte mesma das coisas criadas e finitas. Este divino Começo sem começo, que também é a Finalidade sem fim, é indicado sob este duplo aspecto na continuação da primeira frase bíblica: Bereshith bara Elohim eth ha-shamayim ve-eth ha-arets, “No começo, Deus criou os dois (eth ha-shamayim) e a terra (ve-eth ha-arets).” De fato, a partícula eth (escrito Aeth), precedendo o artigo ha (os) shamayim (céus) e ha (a) arets (terra), partícula que indica o acusativo determinado, é composta da primeira e da última letra do alfabeto hebraico, Aleph e Taw e significa aqui o eterno Alfa e Omega dos céus e da terra. Ele é o Princípio que, ao mesmo tempo, transcende e compreende, não apenas o começo e o fim do tempo e do espaço, mas também a expansão e a duração celestes que superam indefinidamente estas condições terrestres; e este Princípio, este “Começo”, por e no qual os céus e a terra foram criados, não é ele mesmo senão um “aspecto divino”. Este aspecto causal é a conditio sine qua non da criação, senão teria bastado que a Escritura dissesse: “Deus criou os céus e a terra”. Ela fez preceder esta afirmação por bereshith ou in principio, para mostrar, portanto, que é por seu aspecto causal que Deus criou todas as coisas, e, por conseguinte, que Ele é em si mais do que este aspecto. Em si, Ele não é apenas o Princípio criador, o Ser causal, mas o Ser que repousa em sua própria Essência pura e suprema, — que está escondido em seu Sobre-Ser não-causal, sua Realidade absoluta. É o que a primeira frase do relato cosmogônico da Bíblia revela implicitamente, e o último trecho deste relato (cf. Gen., II, 1-3), que fala do “repouso” de Deus após a “conclusão de sua obra”, repouso além de toda causalidade e relatividade, na pura Absolutidade de seu eterno Sábado, revela explicitamente. Mas o Ser que repousa não negligencia, por isso, sua possibilidade causal: Ele é Aquele que, enquanto repousa, cria todas as coisas a partir desta possibilidade.