Excertos do livro "Instruções Espeiriuais — Diálogos como Motovilov", trad. de Helena Livramento
A verdadeira meta da vida cristã
A oração, o jejum, as vigílias e outras atividades cristãs, tão boas quanto possam parecer em si, não constituem a finalidade da vida cristã, ainda que ajudem a chegar a ela. O verdadeiro objetivo da vida cristã consiste na aquisição do Espírito Santo de Deus. Quanto à oração, ao jejum, às vigílias, à esmola e qualquer outra boa ação feita em nome de Cristo, são apenas meios para a aquisição do Espírito Santo.
Em nome de Cristo
Observai que uma só boa ação feita em nome de Cristo nos obtém os frutos do Espírito Santo. Tudo o que não for feito em seu nome, mesmo o bem, não nos obtém nenhuma recompensa no século futuro e, nesta vida, também não nos alcança a graça divina. Por isso o Senhor Jesus Cristo dizia: "Quem não ajunta comigo, dispersa" (Lc 11,23).
Somos portanto obrigados a denominar uma boa ação, de "ajuntar" ou colheita, pois mesmo que ela não seja feita em nome de Cristo ela permanece boa. A Escritura diz: "em qualquer nação quem teme a Deus e pratica a justiça lhe é agradável" (At 10, 35). O centurião Cornélio, que temia a Deus e agia de acordo com a justiça, foi visitado, enquanto se achava em oração, por um anjo do Senhor que lhe disse: "Envia alguns homens a Jope à casa de Simão o curtidor e aí encontrarás um certo Pedro que te fará ouvir palavras de vida eterna pelas quais serás salvo tu e toda a tua casa" (At 10) sic.
Vê-se pois que o Senhor emprega seus meios divinos para permitir a tal homem não ficar privado, na eternidade, da recompensa que lhe é devida. Mas para obtê-la é preciso que desde a terra ele comece a crer em nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus descido à terra para salvar os pecadores, bem como para adquirir a graça do Espírito Santo que introduz nos nossos corações o Reino de Deus e nos abre o caminho da beatitude do século futuro. Aí se resolve acerca da satisfação que as boas ações, que não são realizadas em nome de Cristo, procuram obter de Deus. O Senhor nos dá os meios para completá-las. Ao homem cabe aproveitá-los ou não. Por isso o Senhor disse aos judeus "Se fôsseis cegos não teríeis culpa; mas dizeis: Nós vemos! Vosso pecado permanece" (Jo 9,41). Quando um homem como Cornélio cuja ação não foi feita em nome de Cristo, mas que foi agradável a Deus, começa a crer, esta obra lhe é contada como feita em nome de Cristo por causa de sua fé nele (Hb 11,6). Caso contrário, o homem não tem direito a lamentar-se de que o bem realizado não lhe tenha sido proveitoso. Isso jamais acontece quando uma boa ação foi feita em nome de Cristo, pois o bem realizado em seu Nome traz não somente uma coroa de glória no século futuro mas, desde a terra, enche o homem da graça do Espírito Santo, como foi dito: "o dom do Espírito é, na verdade, sem medida. O Pai ama o Filho e tudo entregou em suas mãos" (Jo 3,34-35).
A aquisição do Espírito Santo
É pois na aquisição desse Espírito de Deus que consiste a verdadeira finalidade da vida cristã, enquanto a oração, as vigílias, o jejum, a esmola e as outras ações virtuosas, feitas em nome de Cristo, são apenas meios para adquiri-lo.
- Como a aquisição?, perguntei ao padre Serafim. Não compreendo muito bem.
- A aquisição é a mesma coisa que a obtenção. Sabeis o que é adquirir dinheiro? Em relação ao Espírito Santo é semelhante. Para as pessoas comuns, o objetivo da vida consiste na aquisição do dinheiro — o ganho. Os nobres desejam, além disso, obter honras, sinais de distinção e outras recompensas concedidas por serviços prestados ao Estado. A aquisição do Espírito Santo é também um capital mas um capital eterno, dispensador de graças; muito parecido aos capitais temporais e que se obtém pelos mesmos processos. Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus-homem, compara a nossa vida a um mercado e a nossa atividade na terra a um comércio. Recomenda-nos a todos: "Negociai até que eu volte, remindo o tempo, porque os dias são maus" (Lc 19,12-13; Ef 5,15-16), quer dizer: "Apressai-vos em obter bens celestes, negociando mercadorias terrenas". Essas mercadorias terrestres não são senão as ações virtuosas feitas em nome de Cristo e que nos trazem a graça do Espírito Santo.