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id da página: 4241 SHAMS-I-TABRIZ

Shams de Tabriz

JALALUDDIN RUMI — DIWAN DE SHAMS-I-TABRIZ


Coleção de poemas líricos feitos em homenagem ao seu mestre Shams-i-Tabriz.


Where two oceans meet. A selection of odes from the Divan of Shems of Tabriz. By Mevlana Jalal al-Dīn Rumi. Translated and Introduced by: James G. Cowan. Published by: Elements Books Limited, Longmead, Shaftesbury, Dorset. Year:1992
Me and Rumi: The Autobiography of Shams-i Tabrizi. Transl. William C. Chittick
A STUDY ABOUT THE PERSIAN CULTURAL LEGACY AND BACKGROUND OF THE SUFI MYSTICS SHAMS TABRIZI AND JALAL AL-DIN RUMI


VITRAY-MEYEROVITCH, Eva de. Mystique et poésie en Islam. Djalal-ud-dîn Rumî et l’Ordre des Derviches Tourneurs. Paris: Desclée de Brouwer, 1972

[Os eventos anteriores ao encontro de Rumi comShams] não parecem ter tido influência direta sobre a vida e a carreira de Djalal-ud-Din. Em contrapartida, toda sua existência foi transtornada pelo encontro que ele fez, em 1244, de um estranho personagem, Shams Tabrizi.

Shams-ud-Din Muhammad Ibn ‘Ali Malek-dad era originário de Tabriz. Ele pertencia à família de Bozorg-Omid, que reinou entre 607 e 618 em Alamut. Ele deve ter nascido por volta de 582 da Hégira (ele tinha de fato sessenta anos quando chegou a Konya). Era um dervixe, discípulo, segundo Aflaki, do Xeque Abu Bakr Zanbil-baf ou Silla-baf de Tabriz. Ele era chamado de Shams-e-Paranda (voante) em razão de suas constantes peregrinações, durante as quais ele ganhava a vida realizando pequenos trabalhos e dando aula para as crianças. É contado nos Manaqib-ul-’Arifin — e Rumi ele mesmo alude a isso — que ele rezava a Deus para que lhe fizesse conhecer um de seus santos, e que ele tinha oferecido em troca, como “dom de reconhecimento” (shokrana), sua cabeça. Ele teve então a revelação de que deveria se dirigir à Ásia Menor.

Ele chegou a Konya no dia 6 de Jamadi II, 642 e desceu, conta Aflaki, no caravansarai dos mercadores de açúcar onde ele se fechou em um quarto miserável, se entregando às mortificações. Segundo o mesmo narrador, Djalal-ud-Din saía um dia de seu colégio dos Algodoeiros, e se dirigia, no lombo de uma mula, para o bazar. Seus estudantes o seguiam a pé. De repente, Shams correu a seu encontro, segurou a rédea de sua mula e lhe perguntou: “Quem era o maior, Bayazid ou Maomé?” Mawlana respondeu que esta era uma estranha pergunta, dado que Maomé era o Selo dos Profetas. “O que quer dizer, neste caso, replicou Shams, o que o Profeta disse a Deus: ‘Eu não Te conheci como era preciso Te conhecer’, enquanto que Bayazid disse: ‘Glória a mim! Que minha dignidade é alta!’” Mawlana desmaiou. Quando ele voltou a si, ele pegou Shams pela mão e o conduziu a pé a seu colégio onde ele se fechou com ele em uma cela durante quarenta dias.

Djami relata esta história de forma quase semelhante em Nafahat-ul-Uns. No entanto, Muhyi-ud-Din ‘Abd-ul-Qadir (696-775 Hég.), que foi o contemporâneo, no início de sua vida, do filho de Rumi, Sultan-Walad, conta assim este encontro em sua obra intitulada Al-Kawakib-ul-Mudicah: Um dia, Mawlana estava sentado em sua casa, rodeado de alunos e de livros. Shams-ud-Din entrou, o cumprimentou e, designando os livros, perguntou: “O que é isso?” Mawlana respondeu: “Tu não o sabes.” Mal tinha ele pronunciado estas palavras que o fogo caiu sobre os livros que se incendiaram. Mawlana perguntou: “O que é isso?” Shams respondeu: “Tu não o sabes”, e partiu. Mawlana deixou então sua família e se pôs a caminho — à procura de Shams.

O Professor Foruzanfar relata outras versões ainda deste encontro. Assim, segundo Djami, quando Shams chegou a Konya, Mawlana estava sentado à beira de uma bacia, e ele tinha colocado alguns livros perto de si. Shams perguntou: “O que é isso?” Mawlana respondeu: “São palavras. O que tens a fazer com estas coisas?” Shams jogou todos os livros na água. Mawlana exclamou: “O que fizeste? Em alguns destes manuscritos se encontravam escritos importantes de meu pai, e não se os encontra em lugar nenhum.” Shams mergulhou a mão na água e retirou os livros, um por um, sem que eles estivessem molhados. Mawlana perguntou: “Qual é este segredo?” Shams respondeu: “Isso se chama Dhawq (desejo de Deus) e Hal (‘estado’ espiritual). O que tens a fazer com estas coisas?” E eles partiram juntos.

Dawlat-shah conta o encontro de Shams e de Rumi em circunstâncias semelhantes àquelas que Aflaki indica. Mas a pergunta que Shams fez foi esta: “Qual é o objetivo dos esforços espirituais e das mortificações, da repetição das orações e do conhecimento?” Mawlana respondeu: “Compreender a tradição e os costumes da Sharí’-a.” Shams replicou: “Tudo isso é exterior.” Mawlana perguntou então: “O que há além disso?” Shams respondeu: “O conhecimento consiste em passar do desconhecido ao conhecido” e recitou estes versos do Diwan de Sanai:

“Se o conhecimento não te tira de ti mesmo,
Melhor a ignorância do que um tal conhecimento.”


Mawlana caiu aos pés de Shams e renunciou a seu ensinamento.

O grande viajante Ibn Battuta, que se dirigiu a Konya durante a primeira metade do século VIII da Hégira, consagrou algumas páginas a Mawlana e a seus discípulos. Ele diz que no início Djalal-ud-Din era um Faqih, um jurisconsulto, um professor cujos cursos eram frequentados por numerosos estudantes. Um dia entrou na escola um homem que vendia porções de halva. Mawlana pegou uma e a comeu. O mercador partiu sem mais nada vender. Mawlana partiu em sua esteira e não voltou senão alguns anos mais tarde.

O Professor Foruzanfar critica todas estas versões. Ele prefere a de Aflaki, mas pensa no entanto que o melhor é se referir ao Walad-Nama de Sultan-Walad, que declara simplesmente que seu pai procurava um Pir, mas não diz como ele o encontrou.

No entanto, depois que os dois místicos ficaram juntos durante dezesseis meses, o ciúme dos discípulos de Mawlana incitou Shams a partir para Damasco. Ele deixou então seu amigo, apesar das súplicas deste último, no dia 21 Shawwal 643 (14 de março de 1246). Mawlana lhe enviou poemas, depois seu próprio filho, Sultan-Walad, que foi, acompanhado de vinte amigos, buscá-lo e o trazer de volta a Konya, em 644 Hég. Mas, após seu retorno, os ataques recomeçaram, e Shams decidiu se afastar de novo. Os autores se põem todos de acordo sobre esta data do desaparecimento de Shams: 5 Shaban 645, 5 de dezembro de 1247, mas não sobre a forma como ele desapareceu. Aflaki conta que um dia em que Shams estava em retiro com Mawlana, chamaram-no para o lado de fora e o mataram com golpes de faca. Todavia, parece que Mawlana não tinha certeza da morte de seu amigo — cujo corpo não tinha sido encontrado — visto que ele fez duas viagens a Damasco na esperança de o reencontrar; mas nunca mais se teve notícias dele.

Sultan-Walad, em todo caso, diz que Shams tinha fugido; ele não fala de assassinato.

Não se tem quase documentos concernentes a Shams de Tabriz, nem de obras diretamente escritas por ele. Fora do Livro dos Dez Capítulos (Dah-Fasl) que Aflaki lhe atribui e que consiste em notas tiradas por seus discípulos, não nos chegou senão uma coletânea de seus discursos (madjalis) assim como de perguntas e respostas trocadas entre Mawlana e Shams, ou bem entre este último e seus discípulos, os Maqalat, que têm igualmente o caráter de notas tiradas dia a dia e sem ordem. O estilo é no entanto de uma grande pureza. O Mathnawi de Rumi contém numerosos empréstimos aos Maqalat de seu amigo.

O encontro de Shams de Tabriz foi o evento capital da vida de Djalal-ud-Din Rumi que encontrou nele, como o diz o Professor Nicholson, “esta imagem perfeita do Bem-Amado divino, que ele procurava há muito tempo”.

“O buscador, escreve Sultan-Walad falando desta busca de seu pai, é aquele que encontra... Pois o Bem-Amado se torna o apaixonado.” Seu Khidr — (isto é, seu guia supremo na Via mística) — “era Shams de Tabriz... Deus consentiu que Shams se manifestasse particularmente a ele, e que fosse para ele sozinho... Ninguém teria sido digno de uma tal visão. Após uma espera tão longa, Mawlana viu o rosto de Shams; os segredos se tornaram para ele manifestos como o dia. Ele viu aquele que não se pode ver; ele ouviu o que ninguém ouviu jamais de ninguém... Ele se tornou apaixonado por ele e foi aniquilado.”

Mawlana dizia ele mesmo: “Minha vida se resume nestas três palavras: eu estava cru, eu fui cozido, eu estou queimado”, utilizando uma imagem da qual Mestre Eckhart e mais tarde Simone Weil deveriam se servir para tentar descrever esta transmutação da alma passada pelo cadinho do amor divino. Após o desaparecimento de Shams, ele escreveu sobre a porta da cela de seu amigo, cujo nome mesmo significa Sol:

“Eu era neve, a teus raios eu derreti;
A terra me bebeu; bruma de espírito,
Eu subo de novo para o sol.”


As duas viagens que Djalal-ud-Din Rumi fez a Damasco à procura de Shams se situam entre 645 e 647 Hég. Quando ele voltou a Konya, ele se esforçou, diz Sultan-Walad, para reencontrar em si mesmo o espírito de seu mestre; pois eles tinham ambos o mesmo “estado” (hal):

“Por que digo eu ou ele, já que ele mesmo sou eu, e que eu sou ele? Sim, tudo é ele, eu estou contido nele... Embora estejamos longe dele corporalmente, sem corpo e sem alma, ambos somos uma única luz... Já que eu sou ele, o que procuraria? — Eu sou ele mesmo, agora é de mim mesmo que eu falo. Certamente, é a mim mesmo que eu procurava.”


Um admirável poema do Diwan-e kabir consagrado à memória de Shams traduz este sentimento:

“Feliz o momento em que estaremos sentados no palácio, tu e eu,
Com duas formas e dois rostos, mas uma única alma, tu e eu.
As cores do bosque e as vozes dos pássaros conferirão a imortalidade
Ao momento em que entraremos no jardim, tu e eu.
As estrelas do céu virão nos olhar;
Nós lhes mostraremos a própria lua, tu e eu.
Tu e eu, libertados de nós mesmos, seremos unidos no êxtase,
Alegres e sem palavras vãs, tu e eu.
Os pássaros do céu com a plumagem brilhante terão o coração devorado de inveja.
Neste lugar onde nós riremos tão alegremente, tu e eu.
Mas a grande maravilha, é que tu e eu, aninhados no mesmo ninho,
Nos encontrássemos neste instante um no Iraque, e o outro no Corassão, tu e eu.”


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