ANGELUS SILESIUS. Le pèlerin chérubinique. Camille Jordens. Paris: Ed. du Cerf A. Michel, 1994
Cada termo deste título, Peregrino Querubínico, exigiria uma longa investigação tipológica através das tradições cristã, judaica ou muçulmana. Vou me limitar a relacionar o pseudônimo Angelus Silesius (origem da Silésia) e o título O Peregrino Querubínico.
É com relutância que, no século XVII, os autores se expressam na primeira pessoa no sentido em que a entende, desde Amiel e Stendhal, a autobiografia moderna. Quanto mais o autor se mostra pessoal, mais ele quer ser reservado. Se o pseudônimo é uma máscara, ele representa mais frequentemente ainda uma definição indireta de si.
A primeira máscara ou, se preferirmos, a primeira figura de Silesius é "a alma apaixonada" que canta éclogas espirituais. O escritor se insere em toda uma corrente que submergiu a Europa no início do século XVII, caracterizada por uma sobreposição dos níveis mundano e sagrado, carnal e espiritual, e por uma confusão – intencional – entre lírica religiosa e lírica profana.
A segunda máscara ou emblema de Silesius é a do "peregrino". Silesius foi desde cedo um pesquisador atormentado pela inquietação espiritual; já, quando obtém seu grau de médico em Pádua, ele se mostra decepcionado com as "honras do mundo". Esta insatisfação gera um dinamismo que o empurra para frente. Sua vida se torna a partir de então uma imensa busca representada pela imagem da caminhada (o Wanderer) que seria tão cara aos românticos alemães, tanto músicos (Schubert) quanto pintores (Friedrich) ou literatos. Se conservei na tradução do título alemão a palavra peregrino, é porque esta tradução foi consagrada pelo uso do século XIX e pelo tradutor mais autorizado do século XX, Henri Plard (Aubier, 1946). A única tradução que eu recuso é a de Errante querubínico (de Roger Munier, Denoël, 1970), pois em seu Itinerarium mentis ad Deum, caminhada do espírito em ou para Deus, o espiritual avança segundo um método (meta odè: odè significa caminho em grego); e se o Último permanece incognoscível, em contrapartida, a caminhada para Ele segue uma série de etapas que as tradições perfeitamente fixaram. As errâncias, os "devaneios" estão excluídos!
Quanto ao epíteto "querubínico", que não se confunda este termo! "Quem quer fazer-se de anjo faz-se de besta", dizia Pascal. Silesius não cai em uma visão dicotômica do ser humano. Embora muitos textos reflitam uma tradição ascética de desapego em relação ao mundo, e embora se ouçam neles frequentemente acentos platônicos, não há nele dissociação dualista corpo-espírito. O anjo – e principalmente o querubim – é, desde Ruysbroeck (Livro do reino dos Amantes, 26), a imagem do contemplativo.
Ora, a dedicatória é onipotente sobre este ponto, Silesius é um Gottschauer. O escritor dedica seu livro (à maneira da época em que o autor tinha um protetor) à "Eterna Sabedoria" não em si (an sich), mas para mim (für mich), tal como ela pode ser "reconhecida" por um coração atento. Este "espelho não manchado" que "contemplam os querubins e todos os espíritos bem-aventurados", provoca o arrebatamento e a volúpia lancinante do poeta que assina:
Seu
Johannes Angelus
do desejo de Contemplá-Lo
sempre morrendo.