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Simone Weil

FILOSOFIA MODERNA — SIMONE WEIL (1909-1943)

Hino a Demeter, relato do rapto de Core (Hinos Homericos)


Demeter de belos cabelos, divindade sagrada, vou cantá-la, ela e sua filha de finos tornozelos, que Aidoneus sequestrou, tendo-a recebido como presente de Zeus, que golpeia forte, que vê longe. Ele a levou para longe de Demeter do gládio de ouro, dos doces frutos, enquanto ela brincava com as filhas de Oceano de peito profundo, colhendo flores, a rosa e o açafrão e as violetas tão belas, em um prado suave, e os iris e a jacinta, e o narciso que suscitava, como uma armadilha, para a virgem com rosto de botão de rosa, a Terra colocada pela vontade de Zeus a serviço daquele que acolhe. Essa maravilha radiosa, todos veneravam o espetáculo, os deuses imortais assim como os homens mortais. De sua raiz cem flores brotavam. Do perfume da planta todo o céu que se estende lá em cima, e a terra inteira sorria, e o inchaço salgado do mar. Ela se pôs a tremer e estendeu as mãos, as duas mãos, para pegar o belo brinquedo. Então se abriu a terra de vastas estradas na planície de Nisa; então se ergueu o rei, aquele que acolhe com seus cavalos imortais, o filho de Cronos de numerosos nomes. Ele a agarrou a contragosto em seu carro de ouro, ele a levou chorando e gritando, elevando a voz, chamando seu pai, filho de Cronos, deus supremo, deus perfeito.

Assim, a contragosto, ele a levava pela providência de Zeus, ele, o irmão de seu pai, aquele que comanda, aquele que acolhe. (A dor de Demeter impede o trigo de crescer; a espécie humana pereceria e os deuses ficariam sem honra se Zeus não enviasse um recado a Aidoneus para deixar a jovem ir. Aidoneus escuta a mensagem sorrindo e obedece. Ele diz a Core:) “Vai, Persefone, para tua mãe de véu azul, já que em teu peito não tens senão uma coragem e um coração de criança e não te irrites em demasia sem motivo. Pois entre os imortais, não sou um esposo sem honra, eu, o próprio irmão de teu pai Zeus. Morando aqui, serás mestra de tudo o que vive, de tudo o que se move, e terás as maiores honras entre os imortais.” Ele disse. A sábia Persefone ficou em alegria, prontamente ela se levantou, de alegria; mas ele, ele lhe deu um grão de romã doce como o mel, para comer escondido, por estratagema, para que ela não permanecesse para sempre lá, perto da venerada Demeter de véu azul. (A partir de então, ela passa dois terços do ano perto de sua mãe, entre os deuses, um terço perto de Aidoneus.)

COMENTÁRIO. - Hades ou Aidoneus, nome que significa invisivel, ou eterno, ou ambos ao mesmo tempo, é apresentado ora como o irmão de Zeus, ora como Zeus ele mesmo; pois existe um Zeus subterraneo. O nome de Demeter muito provavelmente significa Terra mãe, e Demeter é idêntica a todas essas deusas mães cujo culto tem tantas analogias com o papel desempenhado pela Virgem na concepção católica. O narciso é a flor que representa Narciso, esse ser tão belo que só podia ser apaixonado por si mesmo. A única beleza que pode ser objeto de amor por si mesma, que pode ser seu próprio objeto, é a beleza divina, que aparece aqui na terra sob a forma da beleza do mundo, como uma armadilha para a alma. Graças a essa armadilha, Deus agarra a alma a contragosto. É a própria concepção do Fedro de Platao. Deus deve deixar a alma voltar para a natureza; mas antes, de surpresa, ele a faz comer furtivamente um grão de romã. Se ela come, ela é capturada para sempre. O grão de romã, é o consentimento que a alma concede a Deus quase sem saber e sem admitir, que é como um infinitamente pequeno entre todas as inclinações carnais da alma, e no entanto decide para sempre seu destino. É o grão de mostarda ao qual Cristo compara o reino dos céus, a menor das sementes, mas que mais tarde se tornará a árvore onde os pássaros do céu se aninham.

Há nesse mito duas violências sucessivas de Deus sobre a alma, uma que é pura violência, a outra para a qual o consentimento da alma a Deus é indispensável e que decide a salvação. Esses dois momentos se reencontram no mito de Fedro e no da Caverna. Eles correspondem à parábola do Evangelho sobre o banquete nupcial, para o qual se vão buscar os convidados ao acaso nas estradas, mas onde se guardam apenas aqueles que têm a roupa nupcial, - e à oposição entre "chamados" e "eleitos", - e à parábola das virgens que todas vão encontrar o esposo, mas entre as quais são admitidas apenas aquelas que têm óleo, etc...

A ideia de uma armadilha estendida por Deus ao homem também é o significado do mito do labirinto, se retirarmos as histórias acrescentadas depois que se referem às guerras entre a Creta e Atenas. Minos, filho de Zeus, juiz dos mortos, é esse ser único cujos nomes na antiguidade são Osiris, Dionisos, Prometeus, o Amor, Hermes, Apolo, e muitos outros (a verossimilhança dessas assimilações pode ser estabelecida). O Minotauro é o mesmo ser representado como touro, da mesma forma que se representa Osiris sob a forma do boi Apis e Dionisos-Zagreus com chifres (um simbolismo que se relaciona com a lua e suas fases pode explicar essa imagem). O labirinto é essa via onde o homem, assim que penetra, perde seu caminho e se encontra igualmente impotente, após algum tempo, para voltar atrás e para se dirigir a algum lugar; ele erra sem saber para onde e, finalmente, chega ao ponto onde Deus o espera para comê-lo. (Simone Weil, Intuitions pré-chrétiennes, 1951)