Quais são os fundamentos intelectuais da soteriologia descrita nas visões de Swedenborg e na sua interpretação da Sagrada Escritura? Sempre existiram dois tipos de especulação teológica no Cristianismo. A abordagem bíblica se preocupa com os conceitos da Sagrada Escritura e tenta organizá-los sistematicamente. A abordagem metafísica também se relaciona com ideias e imagens bíblicas, mas as remete a princípios últimos, sem se limitar exclusivamente à filologia bíblica.
Swedenborg se preocupa com a teologia metafísica. Ele quer revelar a verdadeira natureza das coisas. Os princípios do ser verdadeiro estão contidos como um “sentido interior” nas palavras externas da Escritura. A abertura de sua visão o capacita a discernir intuitivamente em sua forma pura as ideias universais escondidas na Escritura. Todo o seu desenvolvimento espiritual o levou a este modo de contemplação. Inclusive o seu estudo dos vários reinos da natureza contribuiu para isso. Durante o seu período científico, ele tentou derivar os ensinamentos da Bíblia a partir dos mesmos princípios básicos que havia compreendido na observação científica do universo.
Após a sua vocação, a Sagrada Escritura se tornou o único objeto de sua contemplação. A decifração do seu sentido interior se tornou o único caminho para a compreensão. Mas este “sentido interior” não é teologia no sentido de um sistema de conceitos bíblicos. Pelo contrário, ele relaciona o ensinamento da Bíblia a ideias endossadas por suas visões e intuições. Ele usou o método alegórico para harmonizar o conteúdo de sua visão intuitiva do universo com o conteúdo da Escritura. Este método despojou as palavras da Escritura do seu significado histórico, literal e transformou todas as figuras, pessoas, eventos e imagens em “significados” e “tipos”, contendo um sentido espiritual e metafísico. Este método foi desenvolvido em sua doutrina das correspondências. Tanto as visões de Swedenborg quanto a sua exegese da Escritura são dominadas por um tipo particular de pensamento, expresso em sua doutrina das correspondências. Este padrão fundamental em sua maneira de apreender a realidade era evidente mesmo antes de sua crise religiosa.
A doutrina das correspondências já é expressa em sua forma mais geral em várias passagens da terceira parte de sua obra Economia do Reino Animal, publicada em 1740. Um ano depois, foi resumida em um manuscrito com o título Uma Chave Hieroglífica para os Arcanos Naturais e Espirituais por Meio de Representações e Correspondências, impresso pela primeira vez em Londres em 1784. Nesta obra, quatro anos antes de sua visão de vocação, Swedenborg já está ensinando uma lei fundamental que governa a realização da vida divina nos vários reinos do universo. Há uma concordância entre as coisas divinas, espirituais e naturais; e, consequentemente, há também uma correspondência entre os seus sinais. A relação entre os reinos divino, espiritual e natural é a relação entre arquétipo, semelhança e sombra. Cada objeto natural é uma representação e a correspondência de uma coisa espiritual e divina. Ele não apenas se representa, mas é uma sombra que indica sua imagem espiritual. A imagem espiritual é, por sua vez, a representação de um arquétipo divino. Todas as coisas no mundo inferior proclamam o mundo superior ao refletir o arquétipo divino em forma de sombra. O arquétipo divino, a semelhança espiritual e a imagem terrena se relacionam entre si como um rosto vivo, um reflexo de espelho e uma silhueta. Assim, o sol do firmamento estrelado não apenas se representa, mas simultaneamente representa o sol do reino divino, o Senhor. A maneira como ele ilumina o mundo terreno, permeando-o com sua luz, representa a influência do Senhor nos mundos celestiais e espirituais. (ERNST BENZ. Emanuel Swedenborg, VISIONARY SAVANT IN THE AGE OF REASON)
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