TAULER, SEGUNDO GIUSEPPE FAGGIN
Mais do que Eckhart, Tauler coloca o centro da elevação da alma no amor. "Vós acreditais que é amor quando experimentais grandes sensações, prazer e alegria. Mas isto não é amor. O amor é algo muito diferente: quando entre as privações e no abandono mais completo sentirdes algo que arde em vós e entre contínuas torturas subsistirdes no justo abandono a Deus e em meio aos sofrimentos sentirdes um desejo de dissolver-se em outro ser e, queimados pelas privações, um desejo de murchar e tudo isto em completo abandono: este é o amor e não o outro no qual vós acreditais". O verdadeiro amor é fidelidade ao Eterno e liberdade interior. Mas este também, como toda a nossa vida espiritual, se aperfeiçoa através de três graus principais: "Primeiro é o "amor doce", sensível, imaginativo, que se pode comparar com uma estátua de madeira dourada... Também o amor doce está dourado pela boa intenção, mas tirando-a, o que resta tem pouco valor, mesmo estando pleno de felicidade para a natureza sensível. Contudo, Deus se vale desta felicidade para atrair o homem". Nesta primeira etapa a alma necessita referir-se com a imaginação à vida exterior de Cristo, a seus episódios terrenos, a seus milagres; precisa sentir-se comovida e exaltada. Para isto servem, sem dúvida,, também os ritos litúrgicos e a exterioridade do culto e tudo aquilo que é instrumento de uma momentânea exaltação do sentimento. Mas também este é o cativeiro do espírito: o amor doce é algo imediato que toca os sentidos e que um exercício mais austero e completo de renúncia deve superar, pois unicamente além de toda a imagem e de toda a sensação brilha, no fundo, a verdade puríssima, na qual deve irromper sem dilações sentimentais.
O segundo é o "amor prudente", que se pode comparar com uma imagem de prata. Por este amor a alma se enfrenta, mediante o pensamento com a vida íntima da Trindade: considera o segredo do mistério interior e diante dele questiona sua necessidade de dispersão exterior; considera sua eternidade, que não tem passado, nem futuro e coloca diante dela o fluir e a instabilidade do seu tempo e de sua vida. Tudo o que a alma gozou no amor doce, esquece agora como coisa grosseira e estranha; mas, desaparecidos aos consolos exteriores, a alma transportada para o alto mar por seu impulso interior, se encontra só e abandonada e sente surgir novamente todas as ansiedades, tentações e misérias sobre as quais havia triunfado. O amor é prudente se sabe vencer os últimos chamados da criatura e permanece só em si mesmo, confiando no Invisível. A noite da alma — ou, como a chama também Tauler, o inverno do espírito — deixa o justo enlanguescer na aridez, nas trevas e no gelo, sem consolos nem clemências, como enlanguesceu Cristo, abandonado pela Divindade, à qual, contudo, estava naturalmente unido. Nesta noite da alma o homem não pode esperar que outra criatura o liberte da angústia, pois deste modo estaria colocando um ser inferior no lugar de Deus e retardaria o nascimento divino; não deve buscar consolo em ninguém, por maior que seja a dor, senão esperar, não de sua iniciativa e da luz natural mas unicamente de Deus, a libertação suprema. Por conseguinte, mais ainda que no amor doce, fica sempre no amor prudente uma certa inquietude pelo fato de que a alma não pode ser de Deus tanto quanto gostaria. Os encantos do sentimento foram esquecidos para sempre, mas o Gemüte (v. eso anthropos), que encontrou já o seu caminho, não submergiu ainda no seu fundo originário.
Com o "amor forte", o desejo mais abrasador se satisfaz. Este amor é a imagem áurea com que se encerra o místico itinerário. Chegado ao alto mar, o barco da alma afunda prazeroso com a rede e tudo se rompe. O nada criado se afunda no Nada incriado. O abismo chama para si o abismo e os dois abismos se transformam em uma única unidade, um puro ser divino. O espírito se perde no Espírito de Deus e se anula no mar sem fundo. O amante submerge no Amado e se perde nele. Agora a alma se despreza, se esquece completamente de si e não sabe mais nada de si. Mesmo que o corpo esteja cheio de sofrimentos, a alma os aceita com prazerosa resignação e nas próprias dores goza de uma felicidade que nenhuma mente humana pode compreender. O homem adquire então sua essência mais pura e se torna tão bom e benévolo para todos que não se pode descobrir nele nenhum defeito. É misericordioso e está cheio de confiança; é pacífico e de bom coração e não se pode supor que semelhantes criaturas possam jamais separar-se de Deus. Portanto,a luz divina os ilumina desde o íntimo e lhes indica o que devem fazer, por quem devem rezar, o que devem dizer, pois a união é perfeita e a alma não é mais que um instrumento nas mãos do Eterno.