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id da página: 7775 Tch’an e Budismo - Via do Meio

Tch’an Budismo Via do Meio

Chan – Tch’an e Budismo - Via do Meio


Chantal Duhuy, "O Dharma do Buda" em Le Tch’an (Zen); racines et floraisons. Paris: Ed. de Deux Océans, 1985

O caminho do Despertar se revela como uma via do meio em vários aspectos e este é um ponto essencial do ensinamento.

No plano da conduta, o Buda recomenda aos monges a abordagem que o vimos descobrir ao longo de sua própria busca: evitar os dois extremos que são o apego aos prazeres e o apego às mortificações, ambos igualmente “sem nobreza”, a fim de tomar o caminho do meio que só ele conduz ao objetivo.

O Buda também segue este caminho no plano das especulações, pois ele evita os dois extremos da existência e da inexistência, tema que será retomado com brilho pela Escola do Caminho do Meio do Grande Veículo, bastante frequentemente mencionado no Tch'an e que se pode, aliás, encontrar no taoísmo.

A solução que o Buda traz ao problema da dor também se relaciona com a recusa dos extremos. Ele deixa de lado a noção de uma dor que existiria em si e a de a dor ser obra de outrem. A dor resulta de nossos atos. Então, “ensinando o dharma pelo meio”, ele mostra como eliminar a dor suprimindo sua causa, a ignorância.

No mundo delicado do caminho interior, “existe”, diz L. Silburn seguindo o Majjhima-Nikaya, “uma via do meio mais sutil, via de apaziguamento e de sabedoria onde o Buda navegará habilmente, evitando ao mesmo tempo a dispersão da consciência e a ideia fixa, via toda de flexibilidade que lhe permite escapar definitivamente às especulações: a consciência de um monge não deve ser nem dispersa no exterior nem fixada interiormente pelo fato de que ela não apropria nada nem se atormenta ... Esta via é a via da vacuidade no curso da qual tudo se funde no apaziguamento”.

Neste mesmo texto, o Buda propõe aos monges um treinamento na eliminação progressiva das imagens e das noções a partir de seu ambiente concreto, através de níveis interiores cada vez mais sutis até a vacuidade da libertação. O monge faz primeiro a abstração da noção de vilarejo, considerando a solidão sob o aspecto de floresta, etc. Ele se exercita em noções cada vez mais gerais: terra, infinito espacial, infinito da consciência, etc., afastando uma a uma as noções,

“ele considera a solidão do ponto de vista do samadhi do coração, sem sinal distintivo, e sua consciência encontra satisfação, se estabiliza, se apazigua, se liberta. Mas ele percebe que este samadhi também resulta de uma intenção e que ele é “feito” e, portanto, evanescente, suscetível de ter fim. Graças a este conhecimento, sua consciência se liberta dos fluxos do desejo, do devir e da ignorância, e ele tem a certeza de estar liberto. Tal é a vacuidade incomparável, pura, imutável, suprema que se deve desenvolver e na qual se deve permanecer.”


Como se vê, este caminho do meio que não deixa de ter um aspecto de equilíbrio e de moderação, conduz muito longe. Enganar-se-ia muito ao considerá-lo, mesmo em seus inícios, como um compromisso ou uma recusa de escolher ou uma apatia ou ainda uma dosagem razoável de dois opostos. Este meio é de uma outra natureza que os extremos. Ele comporta ao mesmo tempo sua simultaneidade e sua rejeição enquanto dualidade. Por isso ele é vacuidade. Vazio da multiplicidade e do devir, ele sai da horizontalidade e se eleva à vertical.

Quando não se apega mais aos prazeres sem sequer ter de se desapegar deles, quando não se considera mais a existência nem a não-existência das coisas, quando se suporta o sofrimento sem lhe procurar outra causa senão a “ignorância” congênita, quando se mantém na absorção sem se imobilizar e na felicidade sem se apegar a ela, se segue verdadeiramente o caminho do meio. Quando se percebe o mundo sem se apreender seus sinais e que se pode deixar até mesmo o samadhi do sem-sinal, se percorreu este caminho de vacuidade até seu término, lá onde toda coisa é nirvanizada.

O Buda “ensina o dharma pelo meio” pois só é justo este meio que designa o vazio.

O Grande Veículo dará um amplo desenvolvimento a esta formulação de não-nascimento ou não-produção das coisas (anutpada-dharma). E não se trata aí de noções teóricas, estas expressões visam a sugerir o modo de percepção do mundo próprio ao liberto.

O Tch'an adotará esta visão e se encontra o eco dela em uma variante da estrofe de Houei-neng:

“Uma vez que fundamentalmente nada existe,
Onde a poeira poderia se depositar?”


Uma pergunta vem à mente. O desapego ao condicionamento humano—pois é disso que se trata—sendo um feito tão difícil de se realizar, este rejeito radical que o budismo pregava não é uma das técnicas mais eficazes? Não é a eficácia prática que atraiu para a religião estrangeira chineses desejosos desta realização?

Assim a vacuidade, entendida neste sentido, encontra-se bem no centro do ensinamento do Buda. Ela conduz ao nirvana.