Excertos de do livro de R. Kuntzmann e J.-D. Dubois, trad. de Álvaro Cunha
Tratado fragmentado (45% do texto foram perdidos), fortemente polêmico contra a Igreja ortodoxa, mas também contra os valentinianos e os basilidianos, o Testemunho de Verdade, assim chamado com base em seu conteúdo, mas que também poderíamos chamar de "O Verdadeiro Testemunho", é obra de alguém que conhecia bem os textos bíblicos, dos quais se serve para condenar a Grande Igreja e as outras correntes gnósticas e para pregar a renúncia a esse mundo radical e absoluto. Uma tese enunciada na p. 45,6 ("Este é, em consequência, o testemunho da verdade: quando o homem se conhecer a si mesmo e a Deus, que está acima da Verdade, ele estará salvo e será coroado com a coroa imperecível") permite dividir o texto em duas partes: p. 29,6-45,6: Uma homilia, que desenvolve temas espirituais bastante orientados contra a ortodoxia, como a Verdade ao invés da Lei, a gnose ao invés do martírio e da ressurreição, a virgindade absoluta etc. Assim, por exemplo, na p. 29,6-30,18:
p. 45,7-74,30: Polêmica bastante original a partir do texto bíblico. Depois de ter transmitido o relato da queda original, o autor pergunta, à p 47,14-48,1:
Segundo esse texto, a serpente, encarnada mais adiante por Cristo, é a reveladora da verdadeira gnose, ao passo que o Deus do Antigo Testamento é demônio malfeitor. Podemos constatar que essa exegese visa a denunciar o Deus da Bíblia em benefício de Cristo, mas de um Cristo bem particular:
Assim, vindo por cima do Jordão, sem tocá-lo, justamente para não se macular, Jesus revoga a dominação carnal que aprisionava os eleitos.
MEYER, Marvin W. The Nag Hammadi Scriptures: The Revised and Updated Translation of Sacred Gnostic Texts Complete in One Volume. 1st ed ed. London: HarperCollins Publishers, 2009.
O Testemunho da Verdade é conhecido apenas na versão copta conservada no Códice IX de Nag Hammadi, uma tradução do grego original. Infelizmente, quase metade do texto se perdeu, devido ao estado danificado do manuscrito. Todavia, resta o suficiente para que se obtenha um quadro adequado do conteúdo do tratado.
O título original desse tratado, caso tenha existido, é desconhecido. É possível que um título tenha sido fornecido ao final do tratado, mas as duas últimas páginas do códice estão perdidas. O título atualmente empregado foi atribuído editorialmente com base em um tema central encontrado no tratado ("palavra da verdade", 31, 8; "testemunho verdadeiro", 45, 1), parte de sua direção polêmica. O autor pretende apresentar sua versão da verdade — um Cristianismo gnóstico radicalmente encrático — e contrastá-la com as opiniões e práticas falsas de seus oponentes "heréticos". Suas polêmicas são apresentadas na forma de antíteses retóricas (luz–trevas, conhecimento–ignorância, incorruptibilidade–corrupção etc.). Os oponentes do autor são facilmente identificáveis com base em sua descrição. Consistem, em sua maior parte, de membros da igreja católica ("ortodoxa"), que claramente constituem a maioria dos cristãos no local do autor. Curiosamente, os oponentes do autor incluem também outros gnósticos, como os valentianos, basilidianos, simonianos e outros, cujas práticas ele rejeita veementemente.
O Testemunho da Verdade apresenta características retóricas comuns em homilias cristãs antigas. Com efeito, a primeira parte do tratado consiste em uma homilia bem estruturada (29, 6–45, 6), dirigida a membros de uma comunidade cristã gnóstica "que compreendem como ouvir com os ouvidos espirituais e não com os físicos" (29, 6–9). Seu propósito é encorajar seus ouvintes a permanecerem firmes na fé, advertindo-os contra os erros dos oponentes cristãos (católicos). A segunda parte (45, 6–fim), onde o manuscrito sofreu danos consideráveis, consiste em adições diversas, baseadas em várias fontes, que desenvolvem temas já apresentados na primeira parte. É nessa seção que ocorrem as polêmicas contra outros gnósticos. As duas partes são apresentadas a partir do mesmo ponto de vista, de modo que é claro que o mesmo autor é responsável por ambas. O tratado como um todo pode ser adequadamente caracterizado como um "tratado homilético".
A primeira parte inicia-se com um exórdio no qual o autor convoca aqueles que possuem audição espiritual. Lança-se um ataque contra a lei, que para o autor se resume no mandamento de procriar (29, 26–30, 18). A descida do Filho da Humanidade a partir da "incorruptibilidade" é um sinal de que o domínio da lei chegou ao fim (30, 18–30). Estabelece-se então um contraste entre aqueles que possuem conhecimento e "os insensatos", que estão dispostos a sofrer martírio pela fé sob a ilusão de que o Pai deseja sacrifícios humanos, mas são ignorantes quanto à verdadeira natureza de Cristo (31, 22–34, 26). Essas pessoas são também criticadas por acreditarem em uma ressurreição física, não compreendendo que a ressurreição é algo espiritual, consistindo no autoconhecimento (34, 26–38, 27).
O autor então prossegue seu ataque ao casamento e à procriação, dirigindo comentários sarcásticos às pessoas que acreditam que Deus criou os órgãos sexuais masculino e feminino para o prazer humano. O nascimento virginal de Jesus é tomado como um sinal de que os cristãos devem viver uma vida virginal e renunciar às coisas deste mundo (39, 1–40, 19). Em uma alegoria bastante singular, o autor interpreta o martírio de Isaías (seu ser serrado ao meio) como referência às divisões entre aqueles governados pela corrupção e trevas e aqueles que pertencem à incorruptibilidade e à luz (40, 21–41, 4).
O ponto culminante da homilia que constitui a primeira parte do tratado é a descrição da trajetória do gnóstico arquetípico: sua renúncia ao mundo e sua reintegração ao reino da incorruptibilidade (41, 4–44, 30). Essa primeira parte do tratado conclui-se com uma peroração:
Assim, portanto, este é o verdadeiro testemunho: Quando uma pessoa chega a conhecer a si mesma e a Deus, que está sobre a verdade, essa pessoa será salva e coroada com a coroa imperecível. (44, 30–45, 6)
A segunda parte do tratado inicia-se com um contraste entre João Batista, nascido de um ventre envelhecido, e Cristo, que "passou pelo ventre de uma virgem" (45, 6–22). O autor exorta seus ouvintes a buscarem a interpretação dos "mistérios" encontrados na escritura, introduzindo assim um midraxe gnóstico sobre a serpente bíblica (45, 23–49, 10), provavelmente baseado em uma fonte preexistente. Inicia-se com uma paráfrase de Gênesis 2:16–3:22 e prossegue com referência ao confronto de Moisés com os magos egípcios (Êxodo 4:2–4; 7:8–12) e à serpente no deserto (Números 21:9). A narrativa do paraíso é interpretada de modo a expor o criador bíblico como malicioso e invejoso. O autor identifica a serpente alegoricamente como uma manifestação de Cristo e da salvação trazida por ele por meio da gnose. O autor então censura seus oponentes por não compreenderem Cristo "espiritualmente" (49, 10–50, 3).
O material que segue é bastante fragmentário, mas um tema central é o contraste entre a "geração de Adão", sob a lei, e a "geração do Filho da Humanidade", composta por aqueles que renunciaram aos desejos da carne e chegaram a conhecer o Pai da Verdade (50, 3–69, 7). Em uma seção posterior a quatro páginas sem material traduzível, os seguidores de Valentino são atacados (55, 1–18ss.), bem como Basílides e seu filho Isidoro (56, 1–57, 8ss.), os simonianos (58, 2–4), e outros cujos nomes se perderam nas lacunas. Esses "heréticos" são criticados por suas práticas, que incluem o uso do batismo com água e a aceitação do casamento e da procriação.
O ataque contra o batismo é retomado (69, 7–32), seguido de uma acusação de idolatria contra certos oponentes, ilustrada com um midraxe sobre Davi e Salomão dominando demônios na construção de Jerusalém e do templo (69, 32–70, 30ss.). Esse midraxe também é provavelmente baseado em uma fonte preexistente. O tom polêmico do tratado continua no material fragmentário restante (71, 12–74, 30, onde o texto se interrompe).
A principal preocupação do autor do tratado, do começo ao fim, é sua total rejeição do sexo, do casamento e da procriação. É o criador bíblico quem é "o pai do intercurso sexual" (68, 8) e quem mantém a "geração de Adão" sob seu domínio com seu mandamento na "lei" de casar e gerar filhos (30, 2–5; cf. Gênesis 2:24). Os membros da "geração de Adão" são entregues a desejos perversos (67, 9–13) e utilizam seus órgãos sexuais para prazer carnal (39, 1–6). Mas, com a vinda do Filho da Humanidade, o "domínio da procriação carnal" chegou ao fim. O gnóstico, pertencente à "geração do Filho da Humanidade", renunciou às coisas deste mundo e "fez-se macho" (68, 8–11; 41, 4–13).
A teologia do Testemunho da Verdade e sua interpretação alegórica da escritura, baseada em precedentes judaicos alexandrinos (filonianos) e cristãos, situam claramente seu autor em um meio alexandrino. Igualmente notável é o uso abundante de ensinamentos especificamente valentianos nas áreas de teologia, cristologia, antropologia e doutrina da ressurreição. Contudo, o autor não hesita em incluir seguidores de Valentino em suas polêmicas contra oponentes "heréticos". A razão disso não é difícil de perceber, pois a base de sua polêmica é seu encratismo radical, sua total rejeição e renúncia do sexo e do casamento. Ele também se opõe a adversários que praticam o batismo. Como os valentianos incluíam o batismo em sua vida ritual e aceitavam o casamento e a procriação em sua vida cotidiana, são incluídos nas acusações do autor.
Quem foi esse homem? Era certamente bem instruído na tradição valentiana, embora incluísse valentianos entre seus oponentes; pode-se, portanto, considerá-lo um ex-membro da escola valentiana. Como ocorre, Clemente de Alexandria fornece informações em suas Miscelâneas (3.86–95) sobre um mestre do encratismo radical, Júlio Cassiano, que teria "abandonado a escola de Valentino", presumivelmente por ter passado a discordar das práticas valentianas. Há considerável sobreposição entre o que Clemente nos diz sobre esse homem e as opiniões expressas pelo autor do Testemunho da Verdade, de modo que não é irrazoável identificá-lo, ainda que provisoriamente, como o autor do tratado. Certamente, essa identificação foi criticada sob vários argumentos: a ausência de ataques ao martírio e ao batismo no que Clemente relata sobre os ensinamentos de Júlio, supostas diferenças entre Júlio e o autor do tratado na interpretação de Gênesis 2–3, e uma visão mais favorável do Antigo Testamento atribuível a Júlio do que a refletida no Testemunho da Verdade. Deve-se lembrar que os escritos de Júlio não chegaram até nós, e as informações de Clemente sobre ele não são extensas, de modo que a questão da autoria do tratado deve permanecer em aberto. Seja como for, quem quer que tenha sido o autor, escreveu na mesma época e no mesmo lugar que Júlio Cassiano, na Alexandria do fim do século II ou início do século III.