Bronté ou Trovão (VI,2)
Uma personagem feminina, "Bronté" (ou "Trovão", o Espírito perfeito, segundo o título), lança-se em monólogo que lembra as auto-apresentações da Sabedoria hipostasiada do Antigo Testamento (Pr 8) e mais amplamente as aretalogias de Ísis, nas quais a deusa expõe na primeira pessoa as maravilhas nela reveladas. Nossa heroína se apresenta assim desde a primeira página (p. 13,1-14,1):
Pois eu sou a primeira e a última, eu sou a honrada e a desprezada, eu sou a prostituída e a venerável. Eu sou a mulher casada e a virgem, eu sou a mãe e a filha, eu sou os membros de minha mãe. Eu sou a estéril e aquela que tem inúmeros filhos, eu sou a mulher de numerosos casamentos e aquela que não teve marido. Eu sou a parturiente e aquela que não dá à luz; eu sou o alívio de minhas próprias dores (de parturiente), eu sou a noiva e o noivo e foi meu marido que me gerou.
Seu auto-retrato é construído com base em interpelações e alertas como este:
É sobretudo o aspecto antitético e paradoxal dessa litania que chama a atenção:
Esse tipo de enunciado baseia-se na afirmação de extremos para expressar a totalidade insondável do ser. Quanto ao conteúdo em si mesmo, é difícil avaliar com exatidão as contribuições judaicas, cristãs ou gnósticas que ressoam no texto. A divindade que monologa neste texto é metamorfose gnóstica da Sabedoria judaica. O nome Bronté é aparentado ao mandeu Namrus, a "mãe da terra", por sua vez aparentado ao demônio primordial feminino Nebroel ou Namreal do maniqueísmo, que, por seu turno, talvez remeta ao Nimrod bíblico (Gn 10,8-9). Fílon utiliza essa figura bíblica como símbolo da alma que caiu sob o poder das paixões. O título, portanto, nada diz sobre o conteúdo do tratado. Em contrapartida, parece mais certa a proximidade com Sofia decaída.