O HOMEM É O NOME
Em sinal de paradoxo dir-se-ia que o patronímico Costa, com fundas raízes baixo-medievais, derivado certamente da toponímia, funcionando no genitivo — Fulano da Costa — é um anónimo. Qualquer pessoa, cristã, moçárabe, moura, judia, pagã, se pode chamar, em português Costa, nome sem genealogia hierática. O país está cheio de Costa que não são cristãos, e de cristãos, que são Costa. A homonímia de Uriel não tem de buscar-se no sobrenome. Com efeito, Costa foi Isaac, Costa foi Afonso. O patronímico não tem grande propriedade, salvo quando o possessor lha insufla, como aliás sucede, e ainda bem, num país em que alguns Costa merecem para além do nome.
Gabriel é tão cristão como Uriel e vice-versa, porque um e outro são judeus, e isto não obstante D. Carolina Michaèlis de Vasconcellos não ver assim as coisas. O nome da pia, ou nome de baptismo, ressoa à mais alta cabalística. Com efeito, Gabriel significa «homem de Deus», apesar de ser nomeado pela primeira vez num livro que Gabriel da Costa não aceitava — Daniel" —-livro esse onde Gabriel recebe alta missão como mensageiro. Com o anjo Miguel, Gabriel pertence à liturgia judaica extra-bíblica, com grande acento talmúdico e midráshico, com auroreal luminosidade cabalística, sendo um dos anjos mais eminentes: pagem de Adão no seu casamento, presidido directamente por Adonai **, Gabriel corresponde à tribo de Judá, estando na frente do Trono divino. Foi esta a simbólica dada ao portuense através do nome do baptismo cristão.
Em Amesterdão, ao receber o nome judaico, Gabriel muda-se em Uriel, com ligeira alteração, uma vez que a desinência de ambos os nomes é igual. Uriel vem nomeado nos apócrifos, e também no próprio Daniel. É um anjo tão importante como Gabriel, encontra-se à esquerda do trono divino, corresponde à tribo de Dan, e incarna a Tora, por servir de mensageiro no esclarecimento do povo quanto à Aliança. Do ponto de vista do lugar simbólico, há mutação do centro vanguarda para a esquerda; e do ponto de vista da importância gradual, enquanto Gabriel está mais perto de Adonai, Uriel parece afastar-se rumo à decaída condição humana. Uriel é o anjo da Tora à medida do homem, e como medida do homem natural, quase esquecido do divino, Uriel pensou e comentou a Tora. Uma Tora que não leva o homem à ascenção, mas o empurra para baixo, para a terra, para o corpo natural.
Uriel dá grandeza ao nome quando, num malabarismo cabalístico, transforma o anónimo costa, no cabalístico abadot : costela. Uriel Costela de Adão, filho do homem.
A hipótese de Adam Romez constituir uma alcunha, como sugeriu D. Carolina, não tem fundamento e, a tê-lo, não justificaria que Uriel publicasse obra sob alcunha". A nosso ver, Adam Romez não é propriamente um nome, mas um conceito. Ao assumir a inteligência que assumiu relativamente a Deus, à Alma e ao Mundo, Uriel queria significar que, longe de reflectir o arquétipo adâmico — Adam Qadmon — ele reflectia um Adam Romez, um bicho da terra. Daí, a óbvia relação inferivel entre as imagens poéticas de Camões acerca do abicho da terra vil e tão pequeno» e as leituras de Uriel da Costa. O termo representa um qualificativo da sua onticidade humana, e nanja um nome próprio, ou sequer pseudónimo: Uriel da Costa, bicho da terra. O jogo, algo sugestivo quanto a uma simbólica cabalística, é algo de anotável porquanto o judaísmo de Amesterdão era fortemente talmudizado, medievalista e cabalizante, enquanto o judaísmo de Gabriel da Costa aparecia como imaturo, senão primordialmente bíblico e mosaico, e bíblico e mosaico a partir do texto latino, uma vez que ignorava o hebraico. O portuense apresenta-se, deste modo, como um típico «cristão-novo» que, podendo, volta à prática do judaísmo, embora, do judaísmo, pouco mais saiba do que o permisso pela Bíblia latina, sem apoio no sistema escriturai hebraico que fornece, da Bíblia, toda uma outra vidência, toda uma outra visão.