VALLIN, Georges. Être et individualité. Paris: Presses Universitaires de France, 1959
Visão conjunta da esfera objetivante
Já se sabe que é possível distinguir tantas modalidades temporalistas de desvelamento do real quantas estruturas temporais existem.
A atividade de temporalização em geral implica um movimento que faz ao mesmo tempo surgir a multiplicidade temporal como tal e que introduz uma certa unidade nesta multiplicidade. Cada uma das estruturas temporais repousa sobre uma modalidade particular de organização sintética da multiplicidade temporal que é realizada pela atividade constituinte da subjetividade. É esta organização sintética que determina a natureza da relação que se estabelece entre as três dimensões do tempo: presente, passado e futuro, e que apresenta modos variantes segundo cada uma das três estruturas temporais.
Na esfera lógica ou objetivante, a multiplicidade temporal refere-se à unidade objetivante do entendimento concebido como o aspecto teórico da vontade de poder. A unidade do tempo não é outra coisa aqui senão a unidade do conceito e a multiplicidade temporal implica a mediação conceptual. É o conceito como ato sintético do entendimento visando o diverso a priori da experiência possível que está na raiz do movimento de temporalização da subjetividade. O conceito deve evidentemente ser interpretado num sentido mais realista que no idealismo kantiano e à luz da "vontade de poder" que caracteriza a subjetividade objetivante. O conceito tanto "puro" e a priori quanto empírico e a posteriori, é a própria atividade da subjetividade concebida como vontade de poder. É ele que determina a maneira como o mundo vai se revelar aos sentidos no curso da experiência. O conceito implica um modo de estruturação dos dados sensíveis tal que o conteúdo da experiência esteja sempre desde já visado, apreendido e possuído a priori pela subjetividade. A apreensão da experiência repousa sempre aqui sobre a decisão originária e implícita de não deixar o real se desvelar tal como é em verdade, isto é, como totalidade, mas de deixá-lo se desvelar antes sob um aspecto imediatamente transparente à inteligência conquistadora da subjetividade lógica. O conceito como tal, isto é, o produto da atividade própria do entendimento humano enquanto rejeita explicitamente toda relação de participação efetiva na Transcendência, implica a recusa da subjetividade de se deixar "surpreender" pela experiência, ou de reconhecer a validade de tal modalidade do real que não se integraria a seus quadros abstratos, "racionais" ou "empíricos".
Assim bem a multiplicidade inerente à experiência é como domesticada a priori pela unidade do conceito, isto é, desta atividade sintética que põe em relação os diversos momentos da sucessão temporal de tal sorte que nenhum momento contido nesta sucessão possa aparecer como verdadeiramente novo, em relação ao antigo, ao adquirido.
A totalidade sintética e inesgotável do tempo, estruturada pela conceptualização da subjetividade lógica implica pois uma unidade de organização tal que a presença ao mundo que define a dimensão do presente determina uma relação entre o futuro, o passado e o presente que se vai tentar esclarecer.
Esta relação, recorde-se, caracteriza uma certa visão do mundo implicando o concurso de todas as atividades e potências da subjetividade humana. O conceito, que se define antes de tudo como um ato de conhecimento, é também, de forma implícita, um movimento do ser todo pelo qual a subjetividade se transcende para o mundo para integrá-lo na esfera de sua vontade de poder. Também a temporalidade transcendental que se tenta pôr em evidência situa-se além das determinações empíricas tais como o tempo da sensibilidade ou do conhecimento enquanto se oporia por exemplo ao tempo da ação.
A temporalização objetivante repousa sobre o projeto inicial e implícito de apreender a totalidade do real existente numa síntese que se quereria acabada, mas que, em razão da finitude originária da subjetividade temporalista, é inacabável por essência: pois haverá sempre para a subjetividade do real ainda não dado e por-vir. Mas a subjetividade objetivante, em seu movimento de dominação do mundo, parece querer reduzir ao mínimo os riscos ligados a esta irremediável finitude, e garantir-se contra a opacidade misteriosa do futuro.
O futuro não é de modo algum um objeto de medo ou de angústia, nem o lugar de um possível ameaçador para minha segurança ontológica ou epistemológica, mas é visado como o que será necessariamente conforme aos esquemas inteligíveis que a subjetividade objetivante projetou sobre o real. Em linguagem kantiana pode-se dizer que todo objeto da experiência possível é determinado a priori pelas condições que estão ligadas à estrutura da subjetividade transcendental. Na medida em que pode haver algo de novo, esta realidade nova é posta como conforme às condições transcendentais de sua possibilidade. A experiência possível compreendida no sentido de experiência por vir repousa pois sobre a experiência possível compreendida no sentido das condições transcendentais da possibilidade da experiência. Isso significa que a relação entre o presente e o futuro funda-se em última análise sobre a relação entre o presente e o passado, ou mais profundamente sobre aquilo pelo qual a relação entre presente e passado transcende o movimento de temporalização do conceito para o que, no conceito, é relativamente intemporal, isto é, para seu aspecto "essencial". O passado, ao nível da temporalização da esfera objetivante, não é aquilo de que a subjetividade se sente irremediavelmente separada num sentimento de pesar ou de desespero. Se pode garantir-se contra as ameaças e surpresas do futuro é porque a subjetividade mantém uma relação ontológica particular com seu passado.
Longe de ser aquilo de que se sente ontologicamente separada, o passado aparece ao contrário como o que faz sua realidade, sua profundidade e sua consistência, conforme à palavra célebre de Hegel: "A essência é o que foi."
O passado aparece aqui como aquilo sobre o que a subjetividade objetivante toma apoio para efetuar novas conquistas, para enriquecer seu ter, isto é, o domínio sobre o qual exerce sua vontade de poder. O passado é a experiência já integrada à subjetividade e a seu ter enquanto elemento ontológico constitutivo de seu ser, é a imediatez do sensível sempre recusada como tal e desde sempre integrada na atividade mediadora da subjetividade lógica. O passado é o conceito realizando sua verdadeira natureza, isto é, engajado na existência que se tratava e que se tratará sempre de mediar, de arrancar a sua contingência e a sua opacidade originárias.
Mas o fundamento transcendental do passado e por conseguinte da experiência possível na indefinição de sua extensão temporal por vir, é em definitivo o conceito concebido não como ato de transcendência para um mundo que se trata de dominar por uma atividade de conhecimento engajando ontologicamente nosso ser todo, mas o conceito posto como a essência abstrata cuja plenitude situa-se além do espaço e do tempo, ser ambígio a meio caminho entre a plenitude intemporal do ato puro de tipo metafísico e a pobreza inerente à pura multiplicidade temporal.
A referência a este centro intemporal e espiritual que transcende a atividade de temporalização da qual é a origem verdadeira, é o que permite à subjetividade objetivante mascarar os aspectos pelos quais o tempo se reduz a uma síntese radicalmente destrutiva onde a Aufhebung já não é conservação.
Esta referência à essência é o que permite à subjetividade "salvar as aparências" no sentido de que as determinações empíricas, longe de desaparecer pelo fato de sua queda no passado, aí adquirem ao contrário sua verdadeira dignidade ontológica em razão de sua integração ao centro espiritual da subjetividade. O passado ao nível da estrutura temporal objetivante é o ter que se elevou de forma talvez fraudulenta, como se verá posteriormente, até a dignidade do ser, numa síntese cuja união hegeliana do finito e do infinito traz um exemplo elucidativo.
A atividade de temporalização, ao nível desta esfera objetivante, não é pois um movimento de destruição ou de desintegração do real. Ver-se-á ao contrário que a temporalização pode aparecer nesta estrutura tantas vezes como um movimento criador implicando um progresso, tantas vezes como um simples desdobramento da essência sem enriquecimento progressivo, mas ligado à densidade plena de uma realidade espiritual que se situa além do tempo. Nos dois casos, a temporalização aparece como um ato de ligação pelo qual os conteúdos da experiência são ordenados e referidos à plenitude intemporal que caracteriza a modalidade mais "essencial" da subjetividade temporalista. Também a temporalidade, bastante próxima nisto do tempo cíclico, reveste aqui o aspecto de um processo circular pelo qual o centro intemporal da subjetividade, após um mergulho no mundo das determinações empíricas, parece efetuar um retorno sobre si mesmo. É por isso que o progresso não poderia revestir aqui o caráter de um evento absoluto, radical, imprevisível, e isto pelo fato de que as determinações existenciais ou empíricas nunca são apreendidas em seu caráter de imediatez, mas integradas a priori no movimento de mediação da subjetividade objetivante. O devir reveste aqui um caráter ambíguo análogo ao do conceito: não é ainda a criação contínua de imprevisível novidade que revestirá ao nível da esfera "estética" e não é pura e simplesmente a moeda desvalorizada do absoluto, a imagem platônica e móvel da eternidade imóvel, pois a intemporalidade do sujeito transcendental não é uma essência metafísica mas uma atividade que se refere a uma essência e que exprime, antes que a plenitude sobreabundante desta última, sua indigência e sua necessidade de se completar graças à transcendência para o mundo da qual a temporalização aparece como o processo fundamental.
A natureza circular do processo de temporalização, ligada à presença do aspecto essencial do conceito que constitui aqui a unidade profunda das três dimensões temporais, é em definitivo o que garante a subjetividade assim como a existência empírica contra o aspecto destruidor do tempo que se revelará ao nível da esfera negativa.
Longe de se abismar no nada, as determinações empíricas adquirem pois seu ser verdadeiro, sua profundidade ontológica por esta integração que permite também à subjetividade escapar à abstração e à indigência ontológica da essência intemporal. É esta relação entre a essência e a existência que cumpre esclarecer presentemente determinando mais precisamente as estruturas que permitem à subjetividade objetivante efetuar seu movimento de transcendência para o mundo existente.