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Vaughan-Lee

Cultores do Sufismo — Llewellyn Vaughan-Lee


Iniciado na tradição sufi Naqshbandi. The Sufi Golden Center oferece seus artigos e publicações.

VAUGHAN-LEE, Llewellyn. Sufism: The Transformation of the Heart. Chicago: The Golden Sufi Center, 2012.

Sufismo é senda mística de amor na qual Deus, ou a Verdade, é experimentado como o Amado. A relação interior entre amante e Amado constitui o núcleo da senda sufi. Por meio do amor, o buscador é conduzido a Deus. O místico busca realizar a Verdade nesta vida, e Deus Se revela no interior dos corações daqueles que O amam.

A experiência mística de Deus é estado de unidade com Deus. Esta unio mystica é o objetivo do viajante, ou caminhante, na senda mística. No coração, amante e Amado unem-se no êxtase do amor. O caminhante inicia a jornada com anelo por este estado de unidade. O anelo nasce da memória que a alma possui de ter vindo de Deus. A alma recorda que seu verdadeiro Lar é junto de Deus e desperta o buscador com tal lembrança. A jornada espiritual é jornada que reconduz ao Lar, da separação à união. Viemos de Deus e retornamos a Deus.

A jornada mística ao Lar é jornada para dentro, até o centro mesmo de nosso ser, onde o Amado está eternamente presente. Aquele a quem buscamos não é outro senão nossa própria natureza eterna. Santo Agostinho disse: Retorna dentro de ti mesmo, pois no homem interior habita a Verdade. O místico experimenta que o Amado habita no coração do místico, não como conceito, mas como realidade viva. Nas profundezas do coração não há separação entre amante e Amado. Aqui estamos eternamente unidos a Deus, e a experiência mística de união é revelação do que sempre está presente.

O maior obstáculo que nos impede de experimentar este estado eterno de união é o ego, nossa própria identidade pessoal. No estado de união não há ego. Neste momento, o eu individual deixa de existir e só o Amado existe. O sufi diz: O Amado está vivo, o amante está morto. Assim o sufi aspira a morrer antes da morte, transcender o eu pessoal e experimentar nossa natureza divina transcendente. O sufi do século XI, Ansari, expressou isto de modo muito simples:

Sabe que, quando aprenderes a perder-te, alcançarás o Amado. Não há outro segredo a ser aprendido, e além disso nada sei.

A jornada mística afasta-nos do ego rumo ao Si, da separação de volta à união. Ao desviar-se do ego e retornar a Deus, somos conduzidos ao interior de nós mesmos, ao centro íntimo de nosso ser, o que os sufis denominam o coração dos corações. É jornada individual do buscador de volta à fonte, do só ao Só. Contudo, há etapas nesta jornada, vales da busca, pelos quais cada caminhante passa. Os mestres sufis proveram-nos mapa que descreve estas etapas, bem como as dificuldades e perigos da senda. Tendo alcançado o objetivo, podem ajudar outros caminhantes registrando o que se pode esperar ao longo do caminho.

O sufismo também provê certas técnicas para abrir-nos ao mundo interior e manter nossa atenção concentrada em nosso objetivo invisível. Entre elas, a principal é a prática da recordação, pois o sufi aspira a recordar Deus em cada momento, com cada respiração. Não se trata de recordação mental, mas recordação do coração, pois é o coração que guarda a consciência superior do Si. O Si é aquilo em nós que jamais está separado de Deus, e a consciência do Si é qualidade de saber que somos um com Deus. A prática da recordação é forma de despertar a consciência do Si, e assim tornar-nos conscientes de nossa união interior com Aquele que amamos.

Se amares alguém, sempre pensarás nele; e quando o amor da alma por Deus desperta no coração, a atenção do amante volta-se para o Amado. O momento do despertar espiritual é tauba, arrependimento, que os sufis descrevem como a volta do coração. O momento da tauba é sempre ato de graça, presente do Amado, mas o sufismo desenvolveu técnicas para manter nossa atenção no amor da alma por Deus, na recordação do coração. Uma dessas técnicas é o dhikr, a repetição de um dos nomes de Deus. Por meio da prática do dhikr, a atenção do amante volta-se para Deus, e todo o ser do amante torna-se permeado pela alegria de recordar o Amado.

A senda sufi auxilia-nos a tomar consciência da consciência divina do Si que se encontra no coração, e ao mesmo tempo conduz-nos para longe da consciência limitada do ego. A jornada do ego ao Si é jornada eterna da alma, do exílio que retorna ao Lar. Neste mundo esquecemos nossa verdadeira natureza e identificamo-nos com o ego. A jornada ao Lar liberta-nos do domínio do ego e da natureza ilusória de seus desejos. Somos conduzidos ao cumprimento autêntico que só pode advir de conhecer o que realmente somos, saborear a verdade de nossa essência divina. Quando certo mestre sufi, Dhu’l-Nun, foi perguntado: Qual é o fim do místico?, respondeu: Quando está como estava, onde estava, antes de estar.

Toda senda espiritual conduz o buscador sincero à verdade que só pode ser encontrada interiormente. O sufi diz que há tantos caminhos para Deus quantos são os seres humanos, tantos quanto os sopros dos filhos dos homens. Porque cada um é indivíduo e único, a jornada de descobrir nossa verdadeira natureza será diferente para cada qual. Ao mesmo tempo, diferentes sendas espirituais convêm a diferentes tipos de pessoas. O sufismo convém àqueles que precisam realizar sua relação com Deus como relação de amor, que precisam ser atraídos pelo fio do amor e do anelo de volta ao Amado.