O Corão designa a “variedade dos falares e dos povos” como um dos signos de Deus. Mas ele diz também que a Realidade última, além desta multiplicidade, é Uma, Única, Perene. Diversidade das raças e das línguas, e portanto diversidade das sensibilidades ao nível da experiência. Do mesmo modo que as leis da natureza são imutáveis, mas se manifestam em climas mutáveis, do mesmo modo o Islã eterno e imutável nos aparecerá sob muitos aspectos. Assim, uma mesquita de Casamance, de Córdoba ou de Istambul, ou mesmo estes humildes círculos de pedras que se encontram no deserto, refletirão esta intenção — niya — que confere seu valor espiritual e sua validade legal a cada ato da vida muçulmana, e que simboliza, no tempo e no espaço, sua orientação geográfica e espiritual: construídas ao redor, e em função da qibla, isto é, da orientação para Meca, elas se situam em relação a uma Transcendência que não se pode imaginar ou representar. Se a disposição e o ajuste dos materiais representam as concepções do arquiteto, e portanto a visão particular a uma época, se a escrita dos versículos corânicos gravados na pedra, no mármore ou no estuque, varia de estilo, o conteúdo é trans-histórico, é uma palavra intemporal.
A cultura muçulmana inteira é feita destas contribuições convergentes: ela recolheu a herança da Grécia: Árabes, Sírios, Persas, Turcos, Espanhóis, Egípcios, Africanos, vieram enriquecê-la sem destruir esta homogeneidade que lhe confere sua cor própria, e isso apesar da mudança no decorrer dos séculos dos grandes centros de cultura: Kufa e Basra, no século 8, Bagdá depois o Cairo a partir do 9, sem esquecer estes grandes centros da África do Norte de onde irradiavam a ciência e a fé, nem a contribuição tão importante do Irã, da Índia, dos Otomanos.
Em toda parte, se reencontrará um certo número de constantes, que condicionam e refletem ao mesmo tempo uma visão do mundo: uma mentalidade comum, forjada em primeiro lugar pela mediação da palavra revelada e das Tradições inspiradas. Pode-se exercitar-se a reencontrar em filigrana, sob todos os textos que se cita, por mais diferentes que sejam por sua origem, a lembrança precisa ou a reminiscência vaga de versículos do Livro Sagrado ou de Ditos do Profeta. E quando o idioma usado não é o árabe, é no entanto à língua litúrgica do Islã que se fazem todas as referências, conscientes ou inconscientes: seja que se traduza, livremente ou não; seja, que, mais profundamente ainda, esta palavra vivida tenha informado o espírito a um nível situado além das palavras. Um amigo muçulmano me falava um dia de sua piedosa avó que, nascida em um país não arabófono, deplorava não compreender o sentido dos versículos corânicos que ela tinha repetido, hora após hora, ao longo de uma vida. Seu neto, tendo-lhe explicado algumas passagens, ela tinha exclamado toda alegre: “Mas é exatamente isso que eu sempre tinha compreendido!” Poder de proclamação e de interpelação de um texto cuja beleza incomparável e inimitável constitui o único milagre — i’jaz — reivindicado pelo Islã, certamente; mas trata-se de algo muito mais ainda: de um poder de transformação, de transmutação; e talvez algumas páginas desta antologia deixarão aparecer o que os sufis concebem, ou antes o que eles vivem, quando eles aludem a este ponto virgem da alma que recebe o Conhecimento.
Quem são estes sufis, isto é, aqueles que praticam o tasawwuf, a mística muçulmana, e cuja denominação tira sua origem da lã — suf — da qual eles se revestiam por humildade? Eles mesmos se defendem de explicar de forma discursiva o que é antes de tudo uma interiorização vivida de um dado tradicional. Pois — e é um ponto importante — não há sufis verdadeiros senão aqueles que se conformam, não somente ao espírito, mas também à letra da mensagem divina e portanto às prescrições que ela ordena. Citam-se algumas das definições propostas por tratados de sufismo: elas deixam entrever que a “ciência” procurada está no oposto de um “saber”, que ela não se obtém, com a graça ajudando, senão no final de uma prática cujas etapas são precisadas.
Que o sufismo seja fundamentalmente islâmico, ninguém poderia duvidar, apesar das afiliações mais ou menos arbitrárias que lhe são atribuídas pelo orientalismo ocidental. Basta para o provar para se lembrar do que se acabou de dizer: é a meditação aprofundada e a prática fervorosa dos dados da fé muçulmana que têm, sempre e em toda parte, servido de alimento a esta tradição espiritual. A crítica se esforçou para procurar qual influência o neoplatonismo, o vedanta, a gnose ou o cristianismo teriam podido exercer sobre o tasawwuf. É certamente lícito comparar estruturas e atitudes; qualquer que seja a denominação confessional à qual se liga, o orante reza sempre ao mesmo Deus e se dirige a Ele com pobres palavras humanas. Seria surpreendente que os peregrinos não tomassem emprestado, ocasionalmente, os mesmos caminhos.
VITRAY-MEYEROVITCH, Eva de (org.). Anthologie du soufisme. Paris: Sindbad, 1986
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