VITRAY-MEYEROVITCH, Eva de. Mystique et poésie en Islam. Djalal-ud-dîn Rumî et l’Ordre des Derviches Tourneurs. Paris: Desclée de Brouwer, 1972
Ele volta a referir-se várias vezes à impotência das palavras, à inadequação das palavras ao sentido:
São as palavras que geram os erros e os desentendimentos: é o que ilustra a parábola das quatro pessoas de nacionalidades diferentes que desejam cada uma uva, mas a conhecem sob outros nomes: o persa pede Yangur, o árabe Hnab, o turco Yuzum, o grego Yistafil, e eles brigam. No entanto, o seu desejo era o mesmo.
É preciso ir da palavra à coisa significada. Assim, um rei encarregou alguém de lhe encontrar uma certa árvore. O mensageiro não a encontra e se desespera. Ele encontra um xeque, que lhe diz:
O mestre vai se encontrar diante de um dilema:
“Estas palavras, também elas, são imperfeitas e impotentes; a palavra que não é imperfeita está para além.
Se o santo fala a partir desta fonte, o seu pé tropeçará; e se ele não diz nada disso, oh, que infelicidade para ti!
E se ele fala segundo uma figura formal, é a esta forma que tu vais te apegar, ó jovem!”
Assim, as verdades que o Mathnawi revela apenas induzem em erro aquele que não é iniciado, ao passo que são parecidas com as estrelas que guiam o marinheiro experiente. No entanto, o viajante, que a cada instante se perde no deserto, não pode prescindir de indicações sobre o caminho a seguir.
Em Fihi-ma-fihi, Rumi retoma este caráter da palavra. Numa conversa com um discípulo, ele observa a impossibilidade de conhecer o verdadeiro sentido a partir das palavras e dos termos. O ouvinte pergunta então qual pode ser a utilidade destes? O mestre responde:
Esta ideia de direção, de orientação, de recondução — tawil — de movimento do espírito posto em marcha pela linguagem, e mais especialmente pela linguagem simbólica, é precisamente o que expressa Edgar Allan Poe:
E Rumi por sua vez:
“O Um Transcendente e Santo que criou o pomar (ou seja, o mundo da realidade) esconde as maçãs numa névoa de palavras.
“Desta névoa de sons e de palavras eleva-se um anteparo, de tal forma que nenhuma maçã é percebida, apenas o seu perfume.
“Inspira pelo menos este perfume com a tua inteligência, a fim de que ele te conduza à tua origem.”