VULLIAUD, Paul. Le Cantique des Cantiques. D’Après la tradition juif. Paris: PUF, 1925
1. A Antiguidade da Interpretação Alegórica: Refutando Renan e Whiston
- Crítica a uma Cronologia Errada: Vulliaud ataca a afirmação de Ernest Renan de que a interpretação alegórica surgiu apenas nos séculos around da era cristã. Ele contrapõe com um debate do século XVIII, citando o teólogo Whiston (que via o Cântico como um poema licencioso e não sagrado) e seu refutador, que argumentava que a alegoria era mais antiga.
- Filon de Alexandria não é a Origem: Vulliaud refuta a ideia de que a escola alegórica de Filon foi a origem, destacando que o próprio Filon se baseava em autores mais antigos. Ele concorda com Michel Weill em ver Filon como uma "interessante excrescência" do judaísmo, uma tentativa de fundir Platonismo e Moisaísmo, mas não representante da corrente principal palestiniana.
2. A Alegoria no Judaísmo Palestiniano: Uma Tradição Arcaica
- A Alegoria como Método Judaico Essencial: Vulliaud argumenta que a alegoria não era um método estrangeiro, mas florescia na tradição farisaica na Palestina. Ele cita a Jewish Encyclopedia para sustentar que a aplicação da alegoria até mesmo à Halakah (lei religiosa) prova seu caráter profundamente judaico e não helenístico.
- Terminologia Antiga: Ele recorre a termos técnicos como Dorschê reschoumoth (intérpretes dos signos) e Dorschê hamoroth (intérpretes das parábolas) para demonstrar que o método alegórico já era "arcaico" no ano 70 d.C., sendo, portanto, muito anterior à era cristã.
3. Doutrina Secreta e Esoterismo na Antiguidade Judaica
- As Origens da Cabala e do Pensamento Especulativo: Citando extensivamente Moritz Steinschneider, Vulliaud traça as origens do pensamento místico judaico a uma era muito antiga. Ele menciona as doutrinas da "Criação" (Maassé Bereschith) e do "Carro Divino" (Maassé Merkabah) de Ezequiel como núcleos de especulação metafísica que existiam antes de livros como o de Sirá (Eclesiástico).
- A Existência de um Esoterismo: Vulliaud defende que o esoterismo caracterizava o ensino na Antiguidade e que era um erro considerá-lo uma inovação recente. O fato de o Cântico sempre ter sido considerado uma "parábola" (Maschal) com um sentido duplo (paschut, simples; e sod, secreto) é, para ele, a prova de seu caráter enigmático desde a origem.
4. A Canonicidade do Cântico e o Concílio de Yavne
- A Discussão em Yavne não foi sobre "Inventar" a Alegoria: Vulliaud desmonta a narrativa comum de que Rabi Akiva "inventou" a interpretação alegórica para salvar o Cântico da exclusão do cânon no Concílio de Yavne (século I d.C.). Ele argumenta que a discussão foi sobre a oportunidade de manter um livro de forma tão ousada no cânon, e não sobre seu significado.
- Canonicidade Muito Anterior: Vulliaud defende que a canonicidade do Cântico foi estabelecida séculos antes, possivelmente no tempo do rei Ezequias (século VIII a.C.), citando o Talmud (Baba Bathra). A "Grande Sinagoga" (uma instituição pós-exílica) também é citada (a partir de Aboth de R. Nathan) como tendo "canonizado" o livro através de sua interpretação, muito antes de Akiva.
- Crítica às Teorias "Fantasmagóricas": Ele ridiculariza as teorias de estudiosos como Ewald e Renan, que sugeriam que o Cântico foi "perdido" e "reencontrado" na época dos Macabeus, chamando-as de "fadas" e "magia divertida", destacando a implausibilidade de um livro "popular" e "célebre" se perder assim.
5. A Mentalidade Semítica e a Teologia do Amor Divino
- Refutação do "Deus Severo" Semita: Vulliaud ataca diretamente o cerne do argumento de Renan: que o "espírito semita" era severo e alheio ao misticismo, incapaz de conceber uma relação de amor entre Deus e a criatura. Ele considera isso um preconceito não científico.
- A Aliança como Casamento: Ele argumenta que a ideia de uma relação conjugal entre Deus e Israel é central para a teologia hebraica, citando inúmeros exemplos bíblicos (Oséias, Jeremias, Ezequiel, Isaías) onde a aliança é retratada como um casamento e a idolatria como adultério.
- Amplo Uso da Linguagem Amorosa: Vulliaud, seguindo teólogos como Kistemaker e Th. Paul, demonstra que a "teologia amável" permeia a Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse, sendo a ideia central da aliança divina. O Cântico é, portanto, o ápice dessa tradição, não uma anomalia.
6. O Cântico no Contexto da Tradição Interpretativa
- O Papiro XLV como Paralelo: Vulliaud menciona o Salmo 45 (Schir yedidoth, "Cântico dos Amores") como um paralelo messiânico e nupcial à interpretação do Cântico, mostrando que a tradição rabínica via ambos com um duplo sentido, nacional e místico.
- Conclusão sobre a Natureza da Obra: Ele rejeita as visões modernas (como a de Paul Haupt) que viam o Cântico como uma mera coleção de "canções de amor" populares e desconexas. Para Vulliaud, a interpretação alegórica não é uma invenção tardia, mas a chave para entender o poème como uma obra profundamente religiosa e nacional, enraizada na mais antiga tradição esotérica de Israel.
Em resumo, Vulliaud constrói um argumento sólido e erudito contra a visão crítica de seu tempo, defendendo que a interpretação alegórica do Cântico dos Cântiques não é uma invenção pós-exílica ou helenística, mas sim uma característica intrínseca e arcaica do próprio judaísmo palestiniano, profundamente ligada à sua concepção de aliança e à sua tradição esotérica.