VULLIAUD, Paul. Le Cantique des Cantiques. D’Après la tradition juif. Paris: PUF, 1925
-
Uma história completa dos comentários sobre o Cântico dos Cânticos seria uma curiosidade da literatura religiosa.
-
Não existe, talvez, outro livro que tenha suscitado um número tão grande e tão diferentemente inspirados de intérpretes.
-
Somente entre os séculos IX e XVI, Salfeld contabilizou já 134 comentários rabínicos.
-
O Cristianismo produziu, até o tempo atual, pelo menos o dobro de comentários.
-
Rosenmuller havia contado 116 comentários específicos do século XVI até 1830.
-
A variedade de opiniões é tamanha que se poderia concluir, com razão, que a faculdade mestra dos exegetas não é a razão, como deveria ser, mas sim a imaginação.
-
Essa imaginação corre em desvario, seja na discussão sobre a idade e a ordem do texto, sobre a literalidade ou sobre o sentido geral do poema.
-
O livro a ser consultado sobre o histórico da exegese do Cântico é o de Ginsburg, publicado em 1857.
-
Ginsburg se inspira nos métodos e conclusões da crítica alemã, mas é geralmente ignorado.
-
A falta de ter sido redigido em alemão fez com que Ginsburg encontrasse menos ressonância.
-
O trabalho de Salfeld (Berlim, 1879), mais conhecido pelos exegetas, complementa o de Ginsburg, mas não o substitui.
-
Sob o ponto de vista cristão, a introdução do abade Grandvaux à tradução do Cântico pelo abade Le Hir contém grandes riquezas históricas, assim como a introdução de Reuss.
-
Renan recomenda a leitura do trabalho de Cunitz: Histoire critique de l'interprétation du Cantique des Cantiques (História crítica da interpretação do Cântico dos Cânticos), o que é considerado uma zombaria ao leitor.
-
O trabalho de Cunitz foi escrito para obter o grau de bacharel em teologia.
-
Não se deveria esperar sequer o grau de licenciado para fazer um pouco de propaganda a um protegido.
-
Em todo caso, a pretensa História crítica da interpretação do Cântico dos Cânticos não passa de um documento de medíocre importância, apesar da ênfase do título.
-
É penoso ler a apreciação do editor religioso da versão de Le Hir: "Também a sua tradução é notável pela exatidão, a simplicidade e a elegância".
-
A estima por um homem eminente conduz, por vezes, ao pecado de admiração, pois a tradução do célebre Sulpiciano é medíocre.
-
Renan confessa que sua erudição em hebraico deve-se ao saber de seu mestre Le Hir.
-
À exceção da fanfarronice, essa confissão explica muitas fraquezas.
-
A interpretação do abade Le Hir é piedosa, sendo preferível não tecer comentários a respeito.
-
A variedade de opiniões é manifesta, a ponto de o exegeta Pufendorf (1776) afirmar que o Cântico é hieroglífico à maneira egípcia.
-
Pufendorf descobre no Cântico o sepulcro do Salvador, a comunhão dos Santos (em particular os do Antigo Testamento) e a ressurreição.
-
Para Kaiser (1835), a "Noiva" simboliza Zeroubabel, Esdras e Neemias, e o poema celebra o restabelecimento da constituição judaica no país de Judá.
-
Hug (1813) sustenta que a "Esposa" designa as dez tribos e o "Esposo" o rei Ezequias.
-
Nessa interpretação, o poema descreveria o desejo de Israel, após a destruição de Samaria, de se reunir a Judá.
-
A oposição dos Judeus a essa reconciliação seria simbolizada pelos "irmãos" mencionados no capítulo VIII, versículos 8 e 9.
-
H. A. Hahn assegura que o Cântico alegoricamente significa que Israel está destinado a vencer o Paganismo com as armas da justiça e do amor.
-
O poema traria os Pagãos a se associarem com Israel no culto a Deus.
-
A "pequena irmã" da Sulamita (VIII, 8) representaria as populações negras.
-
Tais hipóteses se sucedem até os dias atuais, como a de Oswald Neuschotz, que afirma (1914) que o Cântico é uma transposição hebraica do mito egípcio de Osíris-Hetep.
-
O Cântico, objeto de inumeráveis comentários, é também, provavelmente, o livro bíblico que mais oportunizou aos racionalistas a demonstração de seu parti pris.
-
Um dos líderes desse grupo, Renan, cuja fama persistiu na França graças à sua escrita cativante, declara, a propósito do livro, que Israel se deixava, por vezes, distrair.
-
Ninguém sustenta, ao que se sabe, que o povo judeu era composto unicamente por sacerdotes santos, profetas austeros e veneráveis sábios.
-
A literatura bíblica, de fato, contém numerosas marcas de vida profana, o que é justificado motivo de regozijo para os arqueólogos.
-
No entanto, é preciso ter essa premissa para enxergar no sagrado Cântico um dos monumentos dessa vida profana.
-
Mesmo se o indivíduo fosse privado de todo o documento da exegese mística que tal poema gerou entre os Judeus, o próprio texto manifestaria suficientemente seu gênio esotérico.
-
O termo "gênio esotérico" significa que é necessário ter uma chave para compreendê-lo, caso contrário, ele se torna verdadeiramente inapreensível.
-
Os racionalistas, apesar de suas pretensões contrárias, acabam por imitar os simbolistas que são alvo de seus escárnios banais.
-
O alegorismo dos racionalistas possui uma certa vulgaridade, mas é, todavia, alegorismo.
-
Um deles, Renan, faz inconscientemente a confissão de que "Cada um impõe a sua fé aos textos muito mais do que a retira deles".
-
Dussaud queixa-se, por sua vez, de que os exegetas "não temem alterar fortemente o texto" para moldar a obra à sua teoria.
-
Dussaud acrescenta que as obras resultantes "não são mais traduções, mas adaptações".
-
Os racionalistas exageram o caráter simbólico do poema, embora o afirmem estritamente profano.
-
A própria paisagem, onde se desenrolam as cenas descritas pelo Cântico, torna-se aos olhos deles um cenário alegórico.
-
Não se conhece simbolista que tenha ido tão longe a ponto de imaginar que o Líbano, Amana, Schenir, Hermon são "as alturas inacessíveis do palácio e os perigos que a inocência da Sulamita corre ali".
-
Jacobi já havia expressado um simbolismo análogo.
-
Para Jacobi, o "deserto" (capítulo III, versículo 6) simboliza a corte do rei Salomão.
-
As hipóteses da escola racionalista, quando desvinculadas de problemas acessórios, resumem-se em uma única ideia.
-
Um rei sequestrou uma pastora para introduzi-la em seu harém.
-
O rei lhe prodigaliza todas as lisonjas capazes, a seu ver, de a seduzir.
-
Mas a humilde camponesa, noiva de um rapaz da aldeia, repudia corajosamente a tentação real, preferindo seguir a simples inclinação de seu coração virtuoso.
-
Essa "pastoral" deu origem à ideia de que o poema salomônico seria um roteiro de teatro.
-
Bruston chegou a construir um melodrama.
-
A. Réville preferia que fosse uma ópera.
-
Contudo, os atos não são cortados uniformemente em número nem compostos das mesmas cenas, variando conforme o capricho do empresário, ou seja, do exegeta.
-
Ewald já falava de melodrama, mas com apenas quatro atos.
-
Anteriormente, outros autores supunham que o Cântico se dividia em "jornadas".
-
Bossuet estabeleceu sua divisão segundo o número de sete dias, adotado pelos Hebreus para as cerimônias de casamento.
-
Ele foi seguido por Dom Calmet, o bispo de Ely, Percy, Williams e Lowth.
-
Taylor, como um hábil diretor, reduziu toda a comédia a seis dias.
-
Taylor demonstrou engenhosidade ao declarar que o Cântico era um poema não ante, mas pós-nupcial.
-
Ch. F. Ammon considerava cinco dias suficientes.
-
Para Rothstein, um ponto crucial seria determinar se o Cântico tem como assunto o amor conjugal ou se o casamento é o objetivo ao qual ele tende.
-
Neste último caso, o poema glorificaria o amor de noivado e a fidelidade.
-
Renan, seduzido pela ideia de o Cântico ser o libretto de uma peça de teatro, afirma seriamente que a peça era encenada "em família" entre os Hebreus.
-
Dada a interpretação proposta para o poema, causa espanto que pessoas honestas assistissem ao espetáculo.
-
O espetáculo é considerado decente e saudável por virtuosos teólogos racionalistas.
-
A maioria dos espíritos sensatos encontraria no espetáculo uma nota de perversidade.
-
Questiona-se se a imoralidade perderia sua natureza pelo simples fato de se manifestar "em família".
-
As indicações dos jogos de cena anotados pelo ilustre acadêmico Renan consistem em desfalecimentos voluptuosos, sonhos, êxtases e desmaios.
-
Na intenção de montar uma representação à sua maneira e atribuir seu delírio cênico ao povo hebreu, Renan introduz canções no texto bíblico.
-
É lamentável que o librettista Renan não tenha retomado a fantasia de Anton (1793) e fornecido a música do Cântico dos Cânticos.
-
Tal empreendimento estava reservado a Ginsburg.
-
Deve-se reconhecer o mérito de Ad. Franck.
-
Ad. Franck interrompeu corajosamente os elogios hiperbólicos que um acadêmico de boa companhia dirigia a um de seus colegas.
-
Ad. Franck censurou o colega por ter imposto aos Hebreus uma arte dramática desconhecida da história.
-
Ad. Franck questiona onde se encontraria, na sociedade israelita, os personagens postos em cena por Renan.
-
Ele menciona: as "bailadeiras, odaliscas descaradas", ou aquela "jovem, casta virgem, que três ou quatro vezes desmaia nos braços de seu amante" proferindo palavras extremamente livres, e "atravessa o teatro nos braços do herói da peça".
-
Alguns anos antes de Renan, o exegeta inglês Adam Clarke (1844), com uma nuance, havia afirmado que o Cântico era o roteiro de uma peça teatral.
-
Adam Clarke escreveu que o livro dos Cânticos "não é, a rigor, nem uma ode, nem um idílio, nem uma pastoral, nem um epitalâmio".
-
Ele é uma composição sui generis que se assemelha mais ao que se chama de "máscara" (mask), um divertimento para os convidados de uma cerimônia de casamento.
-
O livro possui uma estrutura cênica, embora os personagens que falam e agem não sejam formalmente introduzidos no palco.
-
As páginas judiciosas de Ad. Franck refutam essas teorias inverossímeis.
-
O crítico prevenia, oportunamente, que a Alemanha não é um guia sempre seguro.
-
Ad. Franck alerta que, sob a pesadez da forma, a Alemanha frequentemente esconde uma extrema leveza.
-
As hipóteses mais aventureiras a atraem mais do que a assustam.
-
A Alemanha impõe aos textos bíblicos, como a uma matéria vil, todos os caprichos de sua imaginação.
-
Ela apaga, adiciona, divide, transpõe, e não recua diante de nenhum obstáculo, porque as dificuldades que não pode resolver, simplesmente as suprime.
-
A. Réville, que antecedeu Renan e com quem compartilha ideias, escreveu que o Cântico podia "muito bem ser encenado".
-
Compositores análogos seriam encontradas nos velhos trovadores e nos Minnesinger da Alemanha.
-
A. Réville disse que o Cântico, poesia fundamentalmente popular, se situa entre a balada ou o lai do menestrel e o mistério, tal como o conhecia a Idade Média.
-
Renan aproveita esta falsa indicação e substitui as analogias gerais de seu predecessor pela de Robin e Marion.
-
Encontrar alguma semelhança entre o Cântico e Robin e Marion é um indício de senilidade precoce.
-
Renan deveria ter evitado tais comparações, visto que alude (página 164), sob a expressão thail al-khaial (tayfo'l khayâli), ao processo literário que os poetas árabes chamam de espectro da imaginação ou fantasma.
-
G. de Slane assinala este espectro, ao analisar os versos de Ibn-Doreid.
-
G. de Slane diz que o espectro da imaginação "era suposto vir de um lugar bem distante" para visitar o homem que dormia.
-
A imagem era supostamente enviada pela mestra para ter notícias do amante.
-
Várias fórmulas amorosas idênticas às do Cântico reaparecem na pena dos poetas árabes, citados por G. de Slane, e sem intenção religiosa.
-
No entanto, este tipo de poema nada tem a ver com os dos Minnesinger, nem com Robin e Marion.
-
A existência de composições poéticas, como as do espectro da imaginação ou do fantasma, arruína, desde a origem, a hipótese do libretto de ópera ou melodrama.
-
Embora Renan e os racionalistas tivessem sido postos na pista, do ponto de vista literário, pelo artigo de G. de Slane, não tiveram a coragem de segui-la.
-
Questiona-se se esperavam que um Alemão os precedesse.
-
Um traço que distingue a escola racionalista da escola estritamente naturalista é a indignação pudica com a qual seus adeptos protestam.
-
Eles protestam que, mesmo que a interpretação mística tenha sido "evidentemente sobreposta" em tempos muito posteriores à composição do poema, o Cântico não é uma produção obscena.
-
Eles argumentam contra o que se divertiam em proclamar os espíritos levianos e o galante século XVIII.
-
Pelo contrário, insiste-se em afirmar que o Hebraísmo transmitiu uma perfeita obra-prima da literatura que exalta as virtudes burguesas.
-
Em suma, o esforço foi no sentido de furtar o Cântico dos Cânticos à Religião para o devolver à igreja racionalista, supostamente seu legítimo e único possuidor.
-
Existe a suspeita de que essa indignação seja pura dissimulação.
-
Questiona-se se houve realmente quem defendesse que o Cântico é um canto obsceno, além de alguns beaux esprits, cuja opinião não merece importância.
-
O racionalismo, que não aceita brincadeiras com a virtude, obteve uma vitória inútil contra os escarnecedores ao atribuir o caráter "profano" a este canto que se assegurava ser pior.
-
Uma vez proferida a sua protestação, os adversários da interpretação mística se desembaraçaram.
-
Eles impuseram ao Cântico um simbolismo de sua escolha.
-
Questiona-se se é ilógico encontrar nesse simbolismo, matizado em maior ou menor grau, uma certa lubricidade, pela qual Salomão, ou qualquer outro autor, não é responsável.
-
Questiona-se se a moralidade não seguiria o mesmo caminho da fé, ou seja, se o exegeta racionalista também não a imporia ao poema, em vez de se contentar em traduzi-lo literalmente.
-
É uma ironia que, enquanto os místicos, levados por um temperamento são, espiritualizam as expressões do Cântico, em conformidade com a tradição, os racionalistas ousam transpô-las para um plano fisiológico.
-
Alguns dos racionalistas o fazem sem grande pudor.
-
Considera-se oportuno dar publicidade a esse desregramento que é apresentado sob o manto da ciência.