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id da página: 1596 Paul Vulliaud – Cântico dos Cânticos – Comentários (histórico)

Vulliaud Cantico Historico Comentarios

VULLIAUD, Paul. Le Cantique des Cantiques. D’Après la tradition juif. Paris: PUF, 1925

  • Uma história completa dos comentários sobre o Cântico dos Cânticos seria uma curiosidade da literatura religiosa.

  • Não existe, talvez, outro livro que tenha suscitado um número tão grande e tão diferentemente inspirados de intérpretes.

  • Somente entre os séculos IX e XVI, Salfeld contabilizou já 134 comentários rabínicos.

  • O Cristianismo produziu, até o tempo atual, pelo menos o dobro de comentários.

  • Rosenmuller havia contado 116 comentários específicos do século XVI até 1830.

  • A variedade de opiniões é tamanha que se poderia concluir, com razão, que a faculdade mestra dos exegetas não é a razão, como deveria ser, mas sim a imaginação.

  • Essa imaginação corre em desvario, seja na discussão sobre a idade e a ordem do texto, sobre a literalidade ou sobre o sentido geral do poema.

  • O livro a ser consultado sobre o histórico da exegese do Cântico é o de Ginsburg, publicado em 1857.

  • Ginsburg se inspira nos métodos e conclusões da crítica alemã, mas é geralmente ignorado.

  • A falta de ter sido redigido em alemão fez com que Ginsburg encontrasse menos ressonância.

  • O trabalho de Salfeld (Berlim, 1879), mais conhecido pelos exegetas, complementa o de Ginsburg, mas não o substitui.

  • Sob o ponto de vista cristão, a introdução do abade Grandvaux à tradução do Cântico pelo abade Le Hir contém grandes riquezas históricas, assim como a introdução de Reuss.

  • Renan recomenda a leitura do trabalho de Cunitz: Histoire critique de l'interprétation du Cantique des Cantiques (História crítica da interpretação do Cântico dos Cânticos), o que é considerado uma zombaria ao leitor.

  • O trabalho de Cunitz foi escrito para obter o grau de bacharel em teologia.

  • Não se deveria esperar sequer o grau de licenciado para fazer um pouco de propaganda a um protegido.

  • Em todo caso, a pretensa História crítica da interpretação do Cântico dos Cânticos não passa de um documento de medíocre importância, apesar da ênfase do título.

  • É penoso ler a apreciação do editor religioso da versão de Le Hir: "Também a sua tradução é notável pela exatidão, a simplicidade e a elegância".

  • A estima por um homem eminente conduz, por vezes, ao pecado de admiração, pois a tradução do célebre Sulpiciano é medíocre.

  • Renan confessa que sua erudição em hebraico deve-se ao saber de seu mestre Le Hir.

  • À exceção da fanfarronice, essa confissão explica muitas fraquezas.

  • A interpretação do abade Le Hir é piedosa, sendo preferível não tecer comentários a respeito.

  • A variedade de opiniões é manifesta, a ponto de o exegeta Pufendorf (1776) afirmar que o Cântico é hieroglífico à maneira egípcia.

  • Pufendorf descobre no Cântico o sepulcro do Salvador, a comunhão dos Santos (em particular os do Antigo Testamento) e a ressurreição.

  • Para Kaiser (1835), a "Noiva" simboliza Zeroubabel, Esdras e Neemias, e o poema celebra o restabelecimento da constituição judaica no país de Judá.

  • Hug (1813) sustenta que a "Esposa" designa as dez tribos e o "Esposo" o rei Ezequias.

  • Nessa interpretação, o poema descreveria o desejo de Israel, após a destruição de Samaria, de se reunir a Judá.

  • A oposição dos Judeus a essa reconciliação seria simbolizada pelos "irmãos" mencionados no capítulo VIII, versículos 8 e 9.

  • H. A. Hahn assegura que o Cântico alegoricamente significa que Israel está destinado a vencer o Paganismo com as armas da justiça e do amor.

  • O poema traria os Pagãos a se associarem com Israel no culto a Deus.

  • A "pequena irmã" da Sulamita (VIII, 8) representaria as populações negras.

  • Tais hipóteses se sucedem até os dias atuais, como a de Oswald Neuschotz, que afirma (1914) que o Cântico é uma transposição hebraica do mito egípcio de Osíris-Hetep.

  • O Cântico, objeto de inumeráveis comentários, é também, provavelmente, o livro bíblico que mais oportunizou aos racionalistas a demonstração de seu parti pris.

  • Um dos líderes desse grupo, Renan, cuja fama persistiu na França graças à sua escrita cativante, declara, a propósito do livro, que Israel se deixava, por vezes, distrair.

  • Ninguém sustenta, ao que se sabe, que o povo judeu era composto unicamente por sacerdotes santos, profetas austeros e veneráveis sábios.

  • A literatura bíblica, de fato, contém numerosas marcas de vida profana, o que é justificado motivo de regozijo para os arqueólogos.

  • No entanto, é preciso ter essa premissa para enxergar no sagrado Cântico um dos monumentos dessa vida profana.

  • Mesmo se o indivíduo fosse privado de todo o documento da exegese mística que tal poema gerou entre os Judeus, o próprio texto manifestaria suficientemente seu gênio esotérico.

  • O termo "gênio esotérico" significa que é necessário ter uma chave para compreendê-lo, caso contrário, ele se torna verdadeiramente inapreensível.

  • Os racionalistas, apesar de suas pretensões contrárias, acabam por imitar os simbolistas que são alvo de seus escárnios banais.

  • O alegorismo dos racionalistas possui uma certa vulgaridade, mas é, todavia, alegorismo.

  • Um deles, Renan, faz inconscientemente a confissão de que "Cada um impõe a sua fé aos textos muito mais do que a retira deles".

  • Dussaud queixa-se, por sua vez, de que os exegetas "não temem alterar fortemente o texto" para moldar a obra à sua teoria.

  • Dussaud acrescenta que as obras resultantes "não são mais traduções, mas adaptações".

  • Os racionalistas exageram o caráter simbólico do poema, embora o afirmem estritamente profano.

  • A própria paisagem, onde se desenrolam as cenas descritas pelo Cântico, torna-se aos olhos deles um cenário alegórico.

  • Não se conhece simbolista que tenha ido tão longe a ponto de imaginar que o Líbano, Amana, Schenir, Hermon são "as alturas inacessíveis do palácio e os perigos que a inocência da Sulamita corre ali".

  • Jacobi já havia expressado um simbolismo análogo.

  • Para Jacobi, o "deserto" (capítulo III, versículo 6) simboliza a corte do rei Salomão.

  • As hipóteses da escola racionalista, quando desvinculadas de problemas acessórios, resumem-se em uma única ideia.

  • Um rei sequestrou uma pastora para introduzi-la em seu harém.

  • O rei lhe prodigaliza todas as lisonjas capazes, a seu ver, de a seduzir.

  • Mas a humilde camponesa, noiva de um rapaz da aldeia, repudia corajosamente a tentação real, preferindo seguir a simples inclinação de seu coração virtuoso.

  • Essa "pastoral" deu origem à ideia de que o poema salomônico seria um roteiro de teatro.

  • Bruston chegou a construir um melodrama.

  • A. Réville preferia que fosse uma ópera.

  • Contudo, os atos não são cortados uniformemente em número nem compostos das mesmas cenas, variando conforme o capricho do empresário, ou seja, do exegeta.

  • Ewald já falava de melodrama, mas com apenas quatro atos.

  • Anteriormente, outros autores supunham que o Cântico se dividia em "jornadas".

  • Bossuet estabeleceu sua divisão segundo o número de sete dias, adotado pelos Hebreus para as cerimônias de casamento.

  • Ele foi seguido por Dom Calmet, o bispo de Ely, Percy, Williams e Lowth.

  • Taylor, como um hábil diretor, reduziu toda a comédia a seis dias.

  • Taylor demonstrou engenhosidade ao declarar que o Cântico era um poema não ante, mas pós-nupcial.

  • Ch. F. Ammon considerava cinco dias suficientes.

  • Para Rothstein, um ponto crucial seria determinar se o Cântico tem como assunto o amor conjugal ou se o casamento é o objetivo ao qual ele tende.

  • Neste último caso, o poema glorificaria o amor de noivado e a fidelidade.

  • Renan, seduzido pela ideia de o Cântico ser o libretto de uma peça de teatro, afirma seriamente que a peça era encenada "em família" entre os Hebreus.

  • Dada a interpretação proposta para o poema, causa espanto que pessoas honestas assistissem ao espetáculo.

  • O espetáculo é considerado decente e saudável por virtuosos teólogos racionalistas.

  • A maioria dos espíritos sensatos encontraria no espetáculo uma nota de perversidade.

  • Questiona-se se a imoralidade perderia sua natureza pelo simples fato de se manifestar "em família".

  • As indicações dos jogos de cena anotados pelo ilustre acadêmico Renan consistem em desfalecimentos voluptuosos, sonhos, êxtases e desmaios.

  • Na intenção de montar uma representação à sua maneira e atribuir seu delírio cênico ao povo hebreu, Renan introduz canções no texto bíblico.

  • É lamentável que o librettista Renan não tenha retomado a fantasia de Anton (1793) e fornecido a música do Cântico dos Cânticos.

  • Tal empreendimento estava reservado a Ginsburg.

  • Deve-se reconhecer o mérito de Ad. Franck.

  • Ad. Franck interrompeu corajosamente os elogios hiperbólicos que um acadêmico de boa companhia dirigia a um de seus colegas.

  • Ad. Franck censurou o colega por ter imposto aos Hebreus uma arte dramática desconhecida da história.

  • Ad. Franck questiona onde se encontraria, na sociedade israelita, os personagens postos em cena por Renan.

  • Ele menciona: as "bailadeiras, odaliscas descaradas", ou aquela "jovem, casta virgem, que três ou quatro vezes desmaia nos braços de seu amante" proferindo palavras extremamente livres, e "atravessa o teatro nos braços do herói da peça".

  • Alguns anos antes de Renan, o exegeta inglês Adam Clarke (1844), com uma nuance, havia afirmado que o Cântico era o roteiro de uma peça teatral.

  • Adam Clarke escreveu que o livro dos Cânticos "não é, a rigor, nem uma ode, nem um idílio, nem uma pastoral, nem um epitalâmio".

  • Ele é uma composição sui generis que se assemelha mais ao que se chama de "máscara" (mask), um divertimento para os convidados de uma cerimônia de casamento.

  • O livro possui uma estrutura cênica, embora os personagens que falam e agem não sejam formalmente introduzidos no palco.

  • As páginas judiciosas de Ad. Franck refutam essas teorias inverossímeis.

  • O crítico prevenia, oportunamente, que a Alemanha não é um guia sempre seguro.

  • Ad. Franck alerta que, sob a pesadez da forma, a Alemanha frequentemente esconde uma extrema leveza.

  • As hipóteses mais aventureiras a atraem mais do que a assustam.

  • A Alemanha impõe aos textos bíblicos, como a uma matéria vil, todos os caprichos de sua imaginação.

  • Ela apaga, adiciona, divide, transpõe, e não recua diante de nenhum obstáculo, porque as dificuldades que não pode resolver, simplesmente as suprime.

  • A. Réville, que antecedeu Renan e com quem compartilha ideias, escreveu que o Cântico podia "muito bem ser encenado".

  • Compositores análogos seriam encontradas nos velhos trovadores e nos Minnesinger da Alemanha.

  • A. Réville disse que o Cântico, poesia fundamentalmente popular, se situa entre a balada ou o lai do menestrel e o mistério, tal como o conhecia a Idade Média.

  • Renan aproveita esta falsa indicação e substitui as analogias gerais de seu predecessor pela de Robin e Marion.

  • Encontrar alguma semelhança entre o Cântico e Robin e Marion é um indício de senilidade precoce.

  • Renan deveria ter evitado tais comparações, visto que alude (página 164), sob a expressão thail al-khaial (tayfo'l khayâli), ao processo literário que os poetas árabes chamam de espectro da imaginação ou fantasma.

  • G. de Slane assinala este espectro, ao analisar os versos de Ibn-Doreid.

  • G. de Slane diz que o espectro da imaginação "era suposto vir de um lugar bem distante" para visitar o homem que dormia.

  • A imagem era supostamente enviada pela mestra para ter notícias do amante.

  • Várias fórmulas amorosas idênticas às do Cântico reaparecem na pena dos poetas árabes, citados por G. de Slane, e sem intenção religiosa.

  • No entanto, este tipo de poema nada tem a ver com os dos Minnesinger, nem com Robin e Marion.

  • A existência de composições poéticas, como as do espectro da imaginação ou do fantasma, arruína, desde a origem, a hipótese do libretto de ópera ou melodrama.

  • Embora Renan e os racionalistas tivessem sido postos na pista, do ponto de vista literário, pelo artigo de G. de Slane, não tiveram a coragem de segui-la.

  • Questiona-se se esperavam que um Alemão os precedesse.

  • Um traço que distingue a escola racionalista da escola estritamente naturalista é a indignação pudica com a qual seus adeptos protestam.

  • Eles protestam que, mesmo que a interpretação mística tenha sido "evidentemente sobreposta" em tempos muito posteriores à composição do poema, o Cântico não é uma produção obscena.

  • Eles argumentam contra o que se divertiam em proclamar os espíritos levianos e o galante século XVIII.

  • Pelo contrário, insiste-se em afirmar que o Hebraísmo transmitiu uma perfeita obra-prima da literatura que exalta as virtudes burguesas.

  • Em suma, o esforço foi no sentido de furtar o Cântico dos Cânticos à Religião para o devolver à igreja racionalista, supostamente seu legítimo e único possuidor.

  • Existe a suspeita de que essa indignação seja pura dissimulação.

  • Questiona-se se houve realmente quem defendesse que o Cântico é um canto obsceno, além de alguns beaux esprits, cuja opinião não merece importância.

  • O racionalismo, que não aceita brincadeiras com a virtude, obteve uma vitória inútil contra os escarnecedores ao atribuir o caráter "profano" a este canto que se assegurava ser pior.

  • Uma vez proferida a sua protestação, os adversários da interpretação mística se desembaraçaram.

  • Eles impuseram ao Cântico um simbolismo de sua escolha.

  • Questiona-se se é ilógico encontrar nesse simbolismo, matizado em maior ou menor grau, uma certa lubricidade, pela qual Salomão, ou qualquer outro autor, não é responsável.

  • Questiona-se se a moralidade não seguiria o mesmo caminho da fé, ou seja, se o exegeta racionalista também não a imporia ao poema, em vez de se contentar em traduzi-lo literalmente.

  • É uma ironia que, enquanto os místicos, levados por um temperamento são, espiritualizam as expressões do Cântico, em conformidade com a tradição, os racionalistas ousam transpô-las para um plano fisiológico.

  • Alguns dos racionalistas o fazem sem grande pudor.

  • Considera-se oportuno dar publicidade a esse desregramento que é apresentado sob o manto da ciência.